Talento de Paraisópolis ‘luta’ para brilhar com rúgbi de 7 em Tóquio

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Bia, como também é conhecida, integra desde 2013 a seleção nacional (Foto: AP)
Bia, como também é conhecida, integra desde 2013 a seleção nacional (Foto: AP)


Por Fernando del Carlo

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Humildade, caráter, educação familiar e espírito coletivo. Estes são os valores que Bianca dos Santos Silva, de 21 anos, carrega na bagagem para levar à disputa da modalidade rúgbi de 7 na Olimpíada, em Tóquio, entre 24 de julho e 9 de agosto. Será a segunda vez que o esporte estará nos Jogos. A primeira vez da modalidade, que foi tornada olímpica em 2009, aconteceu no Rio de Janeiro há quatro anos, e teve as australianas campeãs.

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Sobre a atleta nascida em Guarulhos, na grande São Paulo, é destaque pela história, qualidade e liderança das Yaras. Apelido da seleção feminina do rúgbi de 7 cuja versão é autorizada pela World Rugby (Confederação Internacional do desporto) e adaptada do rúgbi original praticado com 15 jogadores.

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A diferença no de 7 é que este tem dois tempos de sete minutos. E exige mais destreza dos atletas para que sejam mais rápidos e ágeis. A variante é mais popular na Oceania, Europa e alguns países da Ásia.

Bia, como também é conhecida, integra desde 2013 a seleção nacional. Hoje comandada pelo neozelandês Reuben Samuel. Ela atua como ponta e traz no currículo alguns trunfos: classificação à olimpíada, títulos, sul-americanos. E mais; lembra ter sido ‘surreal’ ganhar o prêmio de melhor jogadora de rúgbi do Brasil em 2018. Recebeu a honra do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). A homenagem veio também por ser melhor atleta nacional - com mais tries em torneio internacional Try é o ensaio ou tento – quando a jogadora fixa a bola com a mão na área depois da linha de ingoal. Vale cinco pontos, existem ainda a conversão dois pontos, penal três pontos e o drop-goal chute da bola entre os postes (H) que vale três pontos. 

Sua atuação foi decisiva na competição da Copa do Mundo de Rugby Sevens ano passado. Ela cruzou o in goal por cinco vezes em quatro jogos. O torneio aconteceu nos Estados Unidos onde ficou entre as cinco maiores pontuadoras. 

Antes de poder estar em Tóquio, Bianca fala do grande nível dos Jogos. E que vai aprender muito ainda na disputa das séries mundiais que antecedem a Olímpiada contra fortes seleções. 

Descreve ainda os caminhos que a levaram ao esporte que tem na Nova Zelândia o grande ícone e atual campeã mundial.

Foi a convite de amigos para participar do projeto Instituto Rugby para Todos que iniciou a jornada. A instituição, que existe desde 2004, fica em Paraisópolis, onde ela mora com os pais. O local abriga a segunda maior favela da capital paulista, na zona sul da cidade, próximo ao bairro do Morumbi.

No Instituto, as pessoas aprendem conceitos de cidadania, lazer e esporte. Entre as atividades sobressai ensino do rúgbi de 7 e popularizá-lo pelo País. 

A moça de Paraisópolis já inspirou, inclusive, a World Rugby, que lançou uma campanha e Bianca foi exemplo para divulgar a disputa feminina. Ano passado teve sabor especial para Bia: impulsionou as Yaras a vencer a segunda divisão em Hong Kong e levar o País à elite.

Sua característica de atuar pela ponta é a velocidade. E se encaixou como luva no esporte, ou melhor, se deu na agilidade ao conduzir a bola ‘oval’. 

Além da habilidade, a moça traz como marca estampada seu sorriso espontâneo e a luta pela transformação dos sonhos em realidade. Disputou vários esportes na escola, mas antes do rúgbi de 7 fez o que chamou de estágio ao falar do rúgbi XV (com 15 atletas). ”Aprendi bastante no jogo com os meninos”. A experiência se deu na comunidade mesmo, onde pôde se firmar pela garra no time local, o das Leoas. E mostrava a habilidade no campo de terra do Palmeirinha. 

Aos 11 anos, Iniciou no Instituto. Hoje, o Rugby Para Todos atende mais de 200 alunos entre seis e 18 anos e já avançou suas bases da periferia paulistana rumo ao Rio de Janeiro. Ele é dirigido por Maurício Draghi, cofundador e ex-atleta da seleção brasileira de rúgbi.

Além de formar Bia, o Instituto Rugby Para Todos revelou outro grande talento, agora entre os homens. Trata-se de Gabriel da Silva, de 23 anos, que atua profissionalmente em Los Angeles e já teve passagem na Nova Zelândia.

Apesar de chegar ao patamar onde poucos poderão atingir, Bia cita seu exemplo de superação. Passou por contusão e até tentou “quebrar” o galho onde a irmã trabalhava. Mas a vocação era mesmo o esporte no qual diz poder se manter.

Ela carrega o lema da comunidade "Yes we can” (tradução; sim nós podemos).

Oriunda de família humilde, ela tem autoestima que contagia. Cita que a convivência com pessoas depende de si mesma. Haverão críticas e elogios. Cabe a cada um filtrar a seu favor. Esta base emocional, a passagem pelo esporte, e por também já ter conhecido várias países no exterior acumulam rara vivência à Bianca. E já tem novo foco: deixou de lado a ideia de lecionar português como pensava na infância e há dois anos cursa Educação Física. E projeta o futuro visando compartilhar o conhecimento com os outros. Nada disto seria possível sem apoio familiar, conforme diz, e agradece a Deus.

Yahoo Esportes – Alguns acham que o rúgbi é esporte de força e que parece ser mais praticado por homens?

Bianca - Não vejo que a modalidade seja praticada mais pelos homens, pelo contrário, hoje o exemplo mostra número muito grande de mulheres.

Yahoo Esportes - Qual a significação do esporte para a pessoa, o ser humano?

Bianca – A importância na minha vida engloba tudo: aspectos da saúde, família e caráter. A humildade é um olhar constante. Através de viver assim cresço a cada dia. Tenho pessoas com quem convivo e o contato me proporciona amadurecer cada vez mais. Situações que pareciam impossíveis de resolver, mas que soluciono com apoio dos amigos.

Yahoo Esportes – Poderia dar maiores detalhes sobre o esporte que pratica?

Bianca – Apesar de parecer um esporte mais com uso do físico, não é o que ocorre. Para cada posição existe um biótipo. Utilizamos bola oval e equipamentos de segurança (chuteiras, ombreiras, boqueiras e os scrum caps (capacetes). No caso do rúgbi de 7; são sete em campo e cinco reservas. A bola só pode ser passada para trás. O objetivo do jogo é atravessar o campo adversário e marcar o ponto em determinada linha do percurso que é conhecida como goal. Ou melhor, encostar a bola atrás da linha. Não se pode jogar a bola quando se entra na área. O try é o mesmo que o gol no futebol. Este é o básico para quem quiser iniciar.

Yahoo Esportes - Seu trabalho já lhe permite viver do esporte?

Bianca - Desde quando entrei na seleção e conseguir receber meu salário esta se tornou minha profissão. E o que ganho ajudo muito a minha família. Mesmo sabendo que o esporte não é profissional. Meus pais me ajudaram a administrar os dinheiro gasto com passagens e outros custos. 

Yahoo Esportes – Nem todos sabem de seu esforço, como é o treino diário?

Bianca - Para a seleção trabalho de segunda a sexta-feira das 9 às 16 horas. Isto engloba preparação física, academia e treino de rúgbi.

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