Todo-poderoso há 20 anos, Corinthians viveu amor e ódio com heróis

MARCOS GUEDES
Folhapress
**arquivo** YOKOHAMA, JAPAO, 16-12-2012: Time do Corinthians posa para foto antes da partida realizada no Yokohama Stadium, em Yokohama, no Japão. (Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress)
**arquivo** YOKOHAMA, JAPAO, 16-12-2012: Time do Corinthians posa para foto antes da partida realizada no Yokohama Stadium, em Yokohama, no Japão. (Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Todo-poderoso Timão", gritaram os cerca de 25 mil corintianos que foram ao Maracanã há 20 anos. Repetido deste então pela Fiel, o canto foi criado especialmente para aquela noite, na qual o Corinthians conquistou o Mundial de Clubes da Fifa pela primeira vez.

A equipe que derrotou o Vasco na final, no Rio de Janeiro, tinha mesmo bastante poder. Era uma das melhores já formadas no Corinthians e viveu naquele 14 de janeiro de 2000 o ápice de uma série histórica. O clube só não soube dizer adeus aos heróis da conquista.

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Dos 11 titulares na decisão, só Dida, Kleber e Vampeta não saíram pela porta dos fundos pouco após a vitória. Mas nem eles tiveram uma trajetória livre de atritos com o time e seus torcedores depois do título.

Campeão mundial também em 2012, o Corinthians hoje vive um processo tumultuado de divórcio com Ralf, figura importante no bi. O que pode servir de consolo ao volante, descartado pelo técnico Tiago Nunes, é que a maior parte dos vencedores de 2000 se reconciliou com o clube após o adeus traumático.

Marcelinho resume bem a questão, justamente por ser o grande nome daquele time. Um ano e meio depois de triunfar no Maracanã, ele foi expulso do Parque São Jorge por um entrevero com Ricardinho. Duas décadas mais tarde, irá se tornar apenas o oitavo atleta em mais de um século a ganhar um busto na sede do clube.

"Eu me senti abandonado pelo Corinthians", disse em várias entrevistas. Mesmo anos mais tarde, afirmando não guardar qualquer mágoa, ele fala com tristeza daquele adeus de 2001 -o camisa 7 voltaria para uma breve passagem em 2006 e para um amistoso em 2010.

Edílson, eleito o melhor jogador do Mundial, não durou nem seis meses. Cobrado por torcedores por se recusar a bater um pênalti contra o Palmeiras, na dura derrota na Copa Libertadores de 2000, ele partiu -e virou, ainda naquele ano, cobrador de pênaltis oficial do Flamengo.

Luizão saiu no início de 2002, reivindicando na Justiça seu direito de ir embora por questões trabalhistas. Ricardinho despediu-se em 2002, aceitando uma oferta do rival São Paulo.

Rincón, o capitão da grande conquista, ergueu a taça sabendo que viraria atleta do Santos em seguida. Assim como ocorreria com Ricardinho, ganhou uma chuva de dólares falsos, com seu rosto impresso nas notas, ao enfrentar o Corinthians pela primeira vez.

Índio saiu em 2001 e até hoje tem certeza de que foi roubado por dirigentes, jogando em um time campeão do mundo por R$ 1.500 mensais (cerca de R$ 6.400, em valores corrigidos). "Sim, mil e quinhentos reais", confirmou o lateral direito.

Fábio Luciano foi liberado por Vanderlei Luxemburgo ao Internacional, em 2001, por suposta deficiência técnica. Adílson, o Adílson Batista que viria a dirigir brevemente o próprio Corinthians, se aposentou depois de uma atuação terrível contra o Palmeiras, ainda em 2000.

A mesma derrota nos pênaltis que encerrou a trajetória de Edílson no Parque São Jorge significou também o fim da linha para o técnico Oswaldo de Oliveira. O carioca ainda voltou, para passagens frustrantes em 2004 e 2016, sem nunca repetir o sucesso ou recuperar o respeito que ganhou com três títulos (Paulista de 1999, Brasileiro de 1999 e Mundial de 2000).

Só não saíram mesmo por baixo Dida, cujo empréstimo do Milan chegou ao fim, Kleber, vendido ao Hannover, e Vampeta, negociado com a Inter de Milão. Deles, porém, só Dida evitou maiores rusgas com a Fiel posteriormente, embora sua disposição -frustrada- em defender o arquirrival Palmeiras, em 2013, tenha deixado muitos corintianos irritados.

Com Kleber, foi pior. Contratado pelo Santos em 2005, o lateral esquerdo foi a uma festa de torcida organizada do time praiano e provocou sua velha equipe com cantos ofensivos.

Já Vampeta encerrou sua terceira e última passagem pelo clube sob duras críticas, participando da campanha do rebaixamento no Brasileiro de 2007.

Hoje, a maior parte das más recordações já se dissipou. Os campeões de 2000, de maneira geral, têm boa relação com o clube e são idolatrados pelos torcedores. Edílson, por exemplo, tornou-se comentarista de televisão e adora alegrar os corintianos com provocações ao Palmeiras.

Após 20 anos do título Mundial conquistado pelo Corinthians, sobrepõem-se aos entreveros -que não foram poucos, em um grupo que não era conhecido pela união fora de campo- as memórias de um grande time, montado com a ajuda financeira da parceira Hicks Muse, empresa americana de investimentos.

"Foi o melhor time em que joguei, em toda a minha vida", resumiu o ex-zagueiro Fábio Luciano, que estreou pelo Corinthians justamente no Mundial. Ele havia acabado de chegar da Ponte Preta, ainda um jovem de 24 anos.

O problema no caminho para aquele título era o desgaste. Campeões brasileiros em 22 de dezembro de 1999, em decisão contra o Atlético-MG, os jogadores tiveram alguns dias de folga e logo se apresentaram para a disputa da competição internacional, que teria início em 5 de janeiro.

"A gente tinha acabado de disputar o Brasileiro até o final, sem descansar, e a caminhada antes da decisão foi dura", afirmou Rincón. "Por isso, o jogo contra o Vasco foi tão difícil. O time deles estava descansado e contava com muitos jogadores de qualidade: Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano, Felipe..."

O Corinthians estava no Grupo A daquele Mundial, o primeiro organizado pela Fifa. Campeão nacional também em 1998, o time entrou na disputa como o representante do país-sede.

Já o Vasco, que seria o adversário na decisão, ganhou sua vaga como campeão da Copa Libertadores de 1998. O critério confuso gerou reclamações do Palmeiras, que conquistou a Libertadores em 1999.

O clube alviverde recebeu a promessa de que disputaria a edição de 2001, que nunca ocorreu. E a presença de um time carioca e um paulistano casava com os planos da Traffic, empresa de marketing esportivo que tinha os direitos de transmissão e participou da organização.

A disputa, assim, foi dividida ente São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, no estádio do Morumbi, o Corinthians venceu o Raja Casablanca por 2 a 0, empatou com o Real Madrid por 2 a 2 e derrotou o Al-Nassr por 2 a 0, avançando como primeiro do grupo, no saldo de gols, à decisão.

No Maracanã, no Rio, o Vasco fez 2 a 0 no South Melbourne, triunfou sobre o Manchester United por 3 a 1 e superou o Necaxa por 2 a 1. Também foi à final, disputada no próprio Maracanã, um jogo truncado que ficou no 0 a 0 até o fim da prorrogação.

Nos pênaltis, Rincón, Fernando Baiano, Luizão e Edu marcaram para o Corinthians. Marcelinho parou no goleiro Helton, mas o erro não custou o título. Pelo Vasco, balançaram a rede Romário, Alex Oliveira e Viola. Gilberto teve sua cobrança defendida por Dida. E Edmundo chutou para fora a última bola do campeonato.

Enquanto Dida andava calmamente, como se o campeonato não tivesse acabado, Oswaldo de Oliveira, aos prantos, deu um abraço simbólico na torcida. Rincón, então, ergueu a taça, pouco antes de iniciar a série de despedidas pouco amistosas dos primeiros campeões mundiais alvinegros.

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