Títulos não blindam atletas da violência policial

Diogo Silva foi um dos principais representes brasileiros no taekwondo, mas nem isso o impediu de ser vítima de racismo (Foto: TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/GettyImages)
Diogo Silva foi um dos principais representes brasileiros no taekwondo, mas nem isso o impediu de ser vítima de racismo (Foto: TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/GettyImages)

Violência policial no Brasil é um tema que vem ganhando destaque nos noticiários nos últimos anos, e as principais vítimas de letalidade e de abordagens truculentas estão na interseccionalidade de raça e classe social, distantes dos grupos de elite. Em alguns casos mesmo ao acender socialmente ou obterem projeção midiática, tais pessoas não são poupadas destas arbitrariedades.

Ao ser questionado se já foi vítima de violência policial ou abordagem truculenta pelo Yahoo Esportes, o lutador olímpico de taekwondo e ativista Diogo Silva, 40, é sucinto: “sim, a conduta da polícia brasileira é estética e não ética. Por mais sucesso que eu possa ter tido na carreira não foi possível me blindar”.

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O prospecto do pugilismo brasileiro Rubens Diego dos Santos, 23, mais conhecido como Rubens “Manchinha”, me revelou em contato anterior sobre quando teve sua identidade confundida com a de um membro de gangue que participou de um assassinato, e as horas que passou de abusos e traumas sob a guarda da polícia sendo liberado depois de uma noite quando toda sua família se apresentou diante das autoridades.

Quando indagado sobre qual sensação teve em 2019 ao dividir sua história com a imprensa estadunidense, Manchinha aponta que “é um assunto delicado, porque te faz ter lembranças ruins. É muito ruim você ser acusado por algo que não fez, fui vítima de engano, fui algemado, sofri ameaças e agressões, tudo isso só por eu ser parecido com o acusado que eles estavam procurando”.

Manchinha é um jovem com leve sotaque baiano, pele clara, cabelo ruivo e sardas no rosto que lhe renderam o apelido. O episódio ocorreu na Bahia quando o mesmo tinha 16 anos, e recorda que na época “abalou muito meu psicológico, tinha medo de ficar em casa só, tinha medo de dormir, não queria sair na rua”.

Recordo de quando o entrevistei pela primeira vez, então pessoalmente, seu tom de voz mudou e a expressão ficou séria, seus olhos buscavam seu técnico Ivan de Oliveira. O ar da cozinha na qual estávamos com seus colegas pareceu ficar rarefeito e só aliviou quando fomos ao seu espaço de treinos e me mostrou seus movimentos pugilísticos.

Mas muitos não conseguem seguir adiante ou até mesmo sobreviver a estes eventos. Conforme relatório da Rede de Observatórios da Segurança (ROS) de dezembro de 2021, a polícia mata uma pessoa negra a cada quatro horas em seis estados do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Piauí e Pernambuco.

Em 2020, foram registradas 2.653 mortes com registro racial, sendo que em 82,7% as vítimas eram pretas ou pardas. O mesmo estudo aponta a polícia do Rio de Janeiro como a mais mortífera com 939 mortes, porém a Bahia lidera em proporção já que 98% das vítimas são negras, e no “segundo lugar” vem Pernambuco com 97%.

Negros e pardos são 2,6 vezes mais suscetíveis de serem mortos, enquanto representam 2/3 da população carcerária, além da expectativa de vida do negro brasileiro ser três anos menor que a do branco.

Esta dicotomia não apenas uma questão de vida ou morte, mas também econômica. Em 2020, durante a pandemia negros ganharam 73,3% a menos que brancos segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o qual também revelou no mesmo período que o analfabetismo entre negros é quase o triplo quando comparado aos brancos.

Além dos problemas raciais, o Brasil é tido como um dos países mais desiguais, e, o distanciamento entre as classes sociais foi ainda mais agravado com a pandemia, segundo a confederação com sede na Inglaterra Oxfam International, instituição que visa buscar soluções para problemas como pobreza, desigualdade e injustiça.

Tal cenário ajuda a compreender inclusive os quadros da própria polícia brasileira sendo que muitos de seus membros são de origem humilde. O que poucos meios de comunicação apontam é a mortalidade dos membros dessa instituição, uma vez que o número de policiais mortos aumentou em 2020, segundo levantamento do G1 dentro do Monitor da Violência.

O racismo que vem de dentro

“Algumas ações - que são exceção - existem. E enfrentam o racismo. Foi o que aconteceu com o tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, Evanilson de Souza. Ele, que é negro, sofreu ataques racistas quando palestrava em uma conferência sobre o programa de combate ao racismo que desenvolve na PM”, recorda a jornalista investigativa Cecília Olliveira por e-mail ao Yahoo Esportes sobre o racismo dentro da corporação.

Especializada a cobertura do tráfico de drogas, de armas e violência, Olliveira é uma das principais fontes sobre segurança urbana no Brasil contemporâneo. É diretora fundadora do Instituto Fogo Cruzado (plataforma digital colaborativa que tem o objetivo de registrar a incidência de tiroteios e a prevalência de violência armada na região metropolitana do Rio de Janeiro) e também é diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI).

A cultura de violência policial no Brasil tem suas raízes desde a guarda patrimonial da Monarquia para Olliveira, e a mesma aponta que esta ficou ainda mais áspera durante da ditadura militar que gerou traços que foram incorporados pela abertura democrática, a qual “não passou as coisas a limpo” do período de repressão política, por fim abrindo para “polícias sem ciclo completo de investigação e debaixo da autoridade de governadores que não tem real controle sobre a tropa”.

Para Olliveira esta cultura de agressividade se volta contra negros e pardos, pois o processo que conduziu ao fim da escravidão fez as pessoas negras serem vistas como “um problema. Elas foram libertas sem nenhuma indenização e sem destino certo e muitas, sem família”. Este cenário fez com que muitos fossem para as ruas em busca de comida e emprego.

O quadro se tornou “assustador, já que as pessoas brancas acreditaram que as pessoas negras eram violentas e bestiais”, afirma Olliveira que relaciona com a lei que proibia “vadiar”, algo associado à pobreza e mendicância, e também foram coibidas a capoeira, a prática de religiões de matrizes africanas e a aglomeração além das leis de “educação eugênica” que privilegiavam brancos no sistema educacional.

“Qual o efeito prático disso tudo, somado ao fato de que o governo apostava em propagandear o mito da democracia racial?”, indaga Olliveira e a mesma responde: “as pessoas não falavam sobre raça. Era como se não houvesse nenhum problema ligado à raça”, o que gerou o ideário coletivo de democracia racial.

“Mas na prática, as leis ditavam o que era para ser feito e contra quem. E isso perdura até hoje. O Código Penal é bastante antigo e mantém estes resquícios. Já leis mais novas, como a lei de drogas, é mais sutil, porém, tem o mesmo efeito e perpetua o racismo. Como? A lei não é específica e deixa margens para a interpretação - geralmente da polícia - sobre o local e quantidade de drogas apreendidas. E mais: na maioria dos casos não há investigação. É só a palavra do policial., que como vemos, vem dessa sociedade aí, que nunca debateu os efeitos da escravidão e opera dentro deste sistema criminal. O resultado: pessoas negras são mais condenadas que pessoas brancas”, explica Olliveira.

Diogo Silva observa este quadro mencionando que “o jovem de periferia está muito mais vulnerável. É uma questão de território. Porém o recorte racial nos faz ser abordados em qualquer lugar e qualquer situação”. Porém, mesmo ao alcançar o sucesso ainda passam por experiências amargas.

O racismo que mancha as arenas esportivas

Manchinha não vivenciou outra experiência como aquela, mas ressalta ser “lamentável atletas passarem por essas situações, de não terem segurança de ir e voltar dos treinamentos”. O pugilista crê que sua classe social influenciou no episódio. se fosse de um meio abastado não seria submetido aos abusos e afirma: “sabemos que a diferença (de tratamento de classes) é muito grande, infelizmente”.

Apesar de não sofrerem com a mesma intensidade, aqueles que ascendem socialmente, em principal afro descendentes, ainda sofrem com episódios de violência por parte das autoridades.

Os atletas de destaque podem se deparar menos com o racismo, porém o Observatório do Racismo no Futebol aponta que entre 2016 a 2019, os casos de discriminação no esporte brasileiro aumentaram conforme a passagem dos anos, “a queda só veio em 2020, ano pandêmico, com a suspensão de atividades”, analisa Olliveira.

Nos Estados Unidos, o jogador de futebol americano Colin Kaepernick, 34, começou o protesto contra violência policial ao se ajoelhar durante o hino dos Estados Unidos; no país já há uma tradição de atletas-ativistas tendo nomes como o falecido boxeador Muhammad Ali, o jogador de basquete Kareem Abdul-Jabbar e a dupla Tommie Smith e John Carlos que ergueram os punhos simbolizando seu protesto contra a segregação racial no pódio dos 200m rasos, nos Jogos Olímpicos do México em 1968.

Em 2020, atletas nigerianos se posicionaram contra a brutalidade policial perpetuada pelo Esquadrão Especial Antirroubo (SARS), o qual é acusado de perpetuar execuções, torturas, extorsões e roubos no país africano.

Para Diogo Silva ainda levará um período para que tais protestos se passem no Brasil dado que seus atletas “ainda não estão prontos para serem protagonistas no que diz respeito ao aspecto racial”.

Os baixos índices de escolaridade entre outros fatores como a própria ignorância das relações raciais e senso de identidade afetam este panorama segundo Silva.

“Ainda estamos tentando nos aceitar. Americanos e africanos já passaram por esse processo, eles estão mais avançados”, posiciona o talento do taekwondo.

Olliveira crê que fama e sucesso amenizam o racismo enfrentado por personalidades de destaque, “pois as pessoas respeitam algumas pessoas, mas respeitam também o dinheiro. O dinheiro representa poder, inclusive, de cobrar punição. E há também o fato de serem pessoas conhecidas, o que fará com que o caso de racismo ganhe grande repercussão. No fim, as pessoas não têm medo de serem racistas. Elas têm medo da repercussão e dos prejuízos que isso pode trazer”.

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