Tite quer aprender russo até a Copa, crava Neymar como 'o melhor' e lista as potências da Europa

Bruno Cassucci e Thiago Salata
Tite durante treino da seleção brasileira. Foto: Futura Press

Tite já esgotou a cota de descanso, momentos com a família e caipirinhas – cujas doses são cada vez menores, segundo Rose, esposa dele. Quase um mês após a classificação à Copa do Mundo, o técnico da Seleção Brasileira já está pilhado novamente. Pensa em jogadores que podem ser convocados, adversários que gostaria de enfrentar, alternativas táticas a serem testadas... A preocupação está até nos pequenos detalhes na busca pelo hexa, que podem parecer banais para a maioria das pessoas, mas não para Tite. Um deles é ser gentil e educado com os anfitriões do Mundial de 2018, o que fez o comandante canarinho se decidir a aprender um pouco do idioma russo e visitar o país euro-asiático.

Esse e outros planos foram revelados pelo treinador em entrevista exclusiva ao LANCE!. Em cerca de uma hora de conversa, ele explicou o desejo de encarar europeus de “primeiro escalão”, contou o que pretende melhorar na Seleção e apontou Neymar como o melhor atleta que já dirigiu, superando Ronaldo, com quem trabalhou no fim da carreira, no Corinthians.

Sorridente e descontraído na maior parte do tempo, Tite também falou sério quando questionado sobre as relações políticas na CBF e se emocionou com a lembrança de que a música da torcida para ele ("olê, olê, olê, Tite, Tite") é uma paródia da que era cantada para Telê Santana.

Confira abaixo a entrevista:

Agora eu estou aproveitando homeopaticamente. Ficando próximo da família, que foi o primeiro objetivo, conversando com vocês da imprensa... Mas confesso que nos três primeiros dias eu acordava no meio da noite, e o meu pensamento dizia: “Que horas vamos treinar? Que tipo de treinamento eu vou dar hoje?” Aí dizia assim: “Cara, nós já ganhamos, já nos classificamos”. E eu pensava “que beleza, agora vou dormir de novo”. Nos três primeiros dias aconteceu isso comigo, tamanha felicidade. No primeiro dia depois do jogo contra o Paraguai nós fomos na casa do Fabio Mahseredjian (preparador físico) e eu dizia assim: “Não tenho energia para ficar feliz, quero estar feliz e não consigo”. Não tinha energia, doía minha panturrilha, joelho, tudo. Eu não tinha jantado direito. Fui tomar banho na maior felicidade... Estou curtindo agora, gratificado e curtindo.

Nos seus melhores sonhos você chegou a imaginar isso?
Nem no melhor me passaria pela cabeça algo assim. Se alguém me dissesse assim: “O enredo será você ser parte integrante de uma equipe, fazer uma campanha e classificar no estádio do clube que você estava, com a torcida lotando o estádio” eu iria dizer “não é possível”. Foi a Rose que falou disso até, desse enredo bonito.

E o que fazer para esse enredo continuar bonito até a Copa?
São etapas, que passam, mas estão interligadas. Essa situação vai me permitir dar mais oportunidade a uma gama maior de atletas, inclusive com amistosos, para vermos como responde um atleta que não foi convocado ainda. É oportunidade, não teste, não gosto desta palavra, não vou testar. É oportunidade para atletas de alto nível. Na última convocação falei que estávamos monitorando 56. E nós, eu e o Edu Gaspar, estamos indo para a Europa, o Matheus e o Fernando, vão para a China, para ver Alex Teixeira, Renato Augusto, Paulinho, Ricardo Goulart.... Todos esses atletas. Está indo para o Leste Europeu o Tomas, que fala um pouquinho russo, e o Cleber Xavier, para acompanharem Taison, Giuliano e outros atletas de lá. Para que? Termos o acompanhamento presencial e também por vídeo. Todos esses atletas têm seus principais lances para eu ver a decupagem, observar e monitorar. “Ah, o Rafinha voltou a jogar”. Tenho. “O Fabinho” Tenho. “O Alan, do Napoli”. Tenho!

Você pretende dar essas oportunidades apenas em amistosos ou também nos jogos que restam das Eliminatórias?
O momento determina. Mais do que teoria, traz isso para a prática. Quando o Diego veio? Quando carimbou a possibilidade? No amistoso contra a Colômbia! Dudu? Amistoso contra a Colômbia. Diego Souza? Colômbia. Neste jogo eu iria cometer um erro, não queria prejudicar os clubes, ia marcar a apresentação em cima do jogo. Mas conversei com o Edu e ele disse: “Não! Temos de passar conceitos. Vamos treiná-los”. Queríamos utilizar todo mundo, mas não conseguimos. Na saída do campo pedi desculpa para o Vitor Hugo (zagueiro do Palmeiras) e ele entendeu. A Fifa, erradamente, não proporcionou isso nesta partida.

E quando você convoca um jogador e não o utiliza, o que ganha com essa oportunidade?
A primeira coisa que digo ao atleta é “sinta-se orgulhoso e merecedor de estar aqui. Eu posso ter uma série de defeitos, mas eu seleciono muito para convocar. Na minha opinião e da comissão técnica, tu mereces estar aqui. Estamos te acompanhando em jogos, em treinamentos, temos informações do teu técnico”. Faço isso para ele saber que temos um critério. Ele não está caindo de paraquedas. O que a gente fez com o Mariano, por exemplo: poderíamos ter convocado um jogador daqui, mas não, o justo era ele, então veio. Aí o Silvinho pegou e falou: “Olha, todos nossos conceitos, a linha de quatro trabalha assim, você joga às vezes com três na defesa com o Sampaoli, aqui não temos isso, a cobertura do lado oposto é sua, tu és um organizador. Com a jogada pelo lado direito, vai embora, tem toda liberdade de criar, passar. Quando a bola estiver do lado oposto, você vai atacar por dentro, não vamos ter amplitude”. Ele explicou tudo para o Mariano. Então convoco para passar conceitos na teoria, na orientação e no visual, com imagens.

Pensa também em testar alternativas táticas para o time?

Sim. 4-2-3-1 ou duas linhas de quatro com dois atacantes. O que acredito como ideia: consolida uma estrutura e depois estabelece variação, não o contrário. Senão fica “muda, muda, muda” e tira a sincronia, o jogar sem pensar, o automatismo. Muda um comentarista e um repórter na transmissão de jogo e você vai pegar eles falando ao mesmo tempo, porque não têm o hábito, não sabem a pausa, a respiração para entrar. Vejo isso também no futebol, principalmente no sistema defensivo. Muito dificilmente você verá eu mudar linha de quatro para linha de três, pois muda a cobertura, a coordenação de movimentos.

Você pretende ir à Rússia?
Se estava de alguma forma me passando despercebido, agora, com a sua pergunta, vou dizer que sim. Porque preciso estar no ambiente. E paralelamente a isso, o Edu Gaspar tinha me passado que o consulado russo tinha colocado à disposição um professor para nós. Teremos aula de russo agora também. Por quê? Não vamos falar russo, não quero, não é minha pretensão. Mas desejo ser o mínimo educado, saber dizer um “bom dia”, “boa tarde”, para criar essa proximidade com o povo. Faz parte: estar lá e aprender um pouquinho.

E o que o Edu já te passou da visita à sede da Copa do Mundo?
Ainda não nos reunimos. Ele falou para eu descansar, curtir a família...
Já temos selecionadas as duas sedes. Você sabe como é o processo? As seleções têm as possibilidades de observar as sedes e estabelecer a prioridade. Mas você só pode fazer isso em uma sede, depois fica como segundo ou terceiro da fila na outra opção. Temos a número um e a número dois, e há seleções que já abriram mão do local para outro. As escolhidas têm infraestrutura boa, respeitam a hierarquia que estabelecemos: condições de treinamento, qualidade e com dois campos próximos. Às vezes trabalho uma equipe que não vai começar jogando, por isso gosto de um campo ao lado do outro, até para passar aos atletas que a preparação é igual. A titularidade depende do desempenho, mas eu preparo igual. Nessas sedes também quero privacidade e um local em que os familiares dos atletas estejam próximos e bem acomodados, para não gerar preocupação nos atletas. Até porque eles estarão com os familiares nos momentos de folga. Espero conjugar esses aspectos.

Não ter um competição, além das Eliminatórias, até a Copa do Mundo ajuda ou atrapalha?
Gostaria de ter tido também a Copa das Confederações. É mais difícil (sem). Assim como gostaria de ter pego a seleção no início. E como também era justo o Dunga encerrar o trabalho dele. Mas vou botar pressão nos jogadores, pegando a experiência que tive no Corinthians como exemplo. No Brasileiro de 2012, quando pegamos uma pontuação mínima necessária, faltavam seis jogos e eu falei: agora vamos nos preparar para o Mundial, Mundial, Mundial! Aí o que fazíamos a cada jogo? Lembro que fomos enfrentar o Internacional, que tinha o Damião. Aí peguei o Paulo André e o Chicão e falei: “Vamos enfrentar pivôs fortes, com a mesma característica que o Damião. Então não pode dar o corpo, senão ele vai girar e guardar. Ou antecipa ou bloqueia, trabalha por trás. Marca igual salão por vezes, pela frente, porque ele não vai receber bola longa.” Toda hora falava que a preparação era para o Mundial.

Como é trabalhar com o Neymar e lidar com tudo que envolvem um astro como ele?

Às vezes a gente cria uma imagem estando distante, e quando vê de perto, são atletas que alto nível, que recebem uma pressão extraordinária. E uma expectativa grande de desempenho, de responsabilidades. Elas são muito fortes para um atleta que está se formando. Falo do Neymar, mas é Casemiro, Coutinho... Mas com o Neymar é muito tranquilo. Eu falo para ele: as pessoas precisam conhecer mais seu lado humano, você deixa os garotos que a gente convoca super à vontade. Ele brinca com a garotada, fico só observando. As pessoas precisam conhecer esse lado humano dele. Quando alguém é convocado pela primeira vez, o cara precisa cantar alguma música e fica todo mundo julgando. Trouxeram o preparador físico do Grêmio, o Rogério. Ele foi dançar a chula, começou a zoeira. Filmaram. Todo mundo começou a balançar um lenço branco. O Neymar foi um dos protagonistas da brincadeira! (risos)

Tecnicamente ele é o melhor jogador que você já treinou?
(Longo respiro) O Ronaldo Fenômeno, se ele fosse fininho na época, eles iriam concorrer. Peguei o Ronaldo sem condições físicas. Neymar foi o melhor. Está sendo o melhor, ele no último terço do campo é vertical, quer gol. Se não der gol, aparece para a assistência. Não sabia que era tão assistente assim. Ele abre espaços e é o maior assistente da Liga dos Campeões, tem essa capacidade de passe... Acho que é o maior assistente das Eliminatórias.

Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, falou que a Seleção será hexa e que ninguém bate o Brasil na Copa da Rússia. Como você viu essa declaração?
O contexto dele é de alegria, de vontade, de sonho, de confiança. Mas compete a mim, como técnico, saber que temos um processo, etapas a construir, processo de enfrentamentos com seleções europeias. Há jogadores que já estão na plenitude de suas formas e experientes, como Miranda, Daniel Alves, Marcelo. Outros crescendo, como Neymar, Casemiro, Coutinho, que não atingiram a plenitude. Paulinho está se consolidando, Renato, também... Que margem eles têm de crescimento? Não sei. Precisamos ganhar tempo, ter essas experiências diferentes, jogar contra grandes seleções.

Sobre a questão política, houve uma mudança de estatuto na CBF recente dando mais poder de voto às federações em relação aos clubes. Você entende que seu êxito no campo tira a pressão que havia sobre o Del Nero fora?
Eu entendo sua pergunta, mas essa análise tem de ser vocês e não minha. O que eu manifestei lá no início e que para mim está sendo um norte? Meu trabalho e minha autonomia, o presidente me deu. Na Seleção principal eu tenho o que pedi: “preciso de centro de pesquisa, profissionais, auxiliar tal, etc”. Me deram todas as condições. Quero ter o compromisso da democracia e transparência no trabalho. A entidade está lá, as pessoas que dirigem, cada um assume seu setor. Eu me sinto à vontade. Antes das convocações, a primeira pessoa fora da comissão técnica que fica sabendo é o presidente. Por questão de respeito. Ele é comunicado, mas não há discussão. Veja na última convocação, por exemplo, do Thiago Silva... Eu dou voz a cada um da comissão. Tinham sete integrantes. Estava na dúvida, ele vinha de lesão, vai jogar ou não? Fizemos uma reunião, deu três a três a votação. Falei: agora vocês me foderam (risos), era comigo. Falei: vou ligar para o Thiago. Peguei o telefone: "Thiago, como você está? Não quero dar uma chance se não estiver na real condição." Ele disse que estava bem, convoquei.

Teve algum outro caso assim? Você é democrático nas convocações?
​Você faz uma discussão horizontal e democrática. A decisão é vertical em cima de hierarquia. Eu ouço todos. Eu ouço o Fábio (preparador físico), porque o jogador pode não estar preparado. O Cléber (auxiliar) me fala outras questões técnicas. Aí tomo a decisão, do meu posto. Mas é uma discussão linear, democrática. O caso do Thiago Silva foi o mais emblemático. Fiquei até a última hora. Se o atleta não está em plenitude, ele vem e não produz. Ele viria e se complicaria para depois. O jogador me dá a condição de eu exigir dele. Não quero arrebentar. Ele disse que estava bem, me dá condições de cobrar.

Recentemente o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, comparou o governo do presidente Michel Temer à “seleção do Dunga” e acrescentou que os brasileiros querem a “seleção do Tite” Como você recebe essas comparações?
Cada um no seu lugar. Cada um com sua responsabilidade, cada um buscando excelência na sua área. Com transparência e busca de qualificação. É o que vou buscar onde eu trabalhar.

Como lida com a badalação?
É um limite muito, muito, muito... tênue. A satisfação e orgulho não podem ser pecado, não posso querer que o atleta não fique feliz com uma grande campanha, é desumano, mas não pode ter soberba, ostentação.

Quais seleções você deseja enfrentar antes da Copa-2018?

Em vez da Argentina (em amistoso na Austrália, em 9 de junho), gostaríamos agora de enfrentar uma seleção europeia. Mas isso já estava acordado. Eu até falei com o Bauza (ex-treinador da Argentina) e ele concordou, porque já estamos nos enfrentando, seria mais interessante termos outros adversários. Na sequência teremos as principais seleções, que estão sendo trabalhadas para que possamos enfrentar. Nisso estão: França, Portugal, Alemanha, já confirmada, Bélgica, se for possível, todas do primeiro escalão, Itália, Espanha... Gostaria de enfrentá-las antes da Copa do Mundo.

Quais as melhores seleções da atualidade na sua opinião?
Eu não tenho a profundidade para responder. Estava totalmente concentrado na classificação, nas seleções da América do Sul. Agora vai abrir o leque para estudar. Mas adianto que a França está com uma equipe jovem, fazendo transições com qualidade. Tem jogadores com virtudes, como Pogba e Matuidi. Tem uma Itália com história, a Espanha que se mantém apesar de mudanças, Alemanha que a gente acompanha, que saem jogadores mas a estruturação fica. A Bélgica! Nunca vi uma seleção deles com jogadores como Hazard, Nainggolan, Witsel, Kompany. É um time muito forte. Vou ter mais profundidade, assistir jogos das Eliminatórias da Europa...

Na Arena Corinthians, fizeram um grito para você parecido com do Telê Santana. Você percebeu isso? Se emocionou?
Me emocionou, sim. Eu tinha que olhar para o lado, para refletir. É uma coisa diferente. Só tive dentro do Corinthians. Sou um ser humano. Eu fazia força para me concentrar no jogo, mas compreendo que isso representa uma equipe de trabalho. O nome do Tite representa a equipe, que estava jogando bem. Isso é mais do que “olê, olê, olê, Tite, Tite.”

O quanto o Tite de 2016, que assumiu a Seleção, é mais preparado e maduro do que o Tite de 2014, que todos, inclusive você, queriam na Seleção?
Boa pergunta. Com a mesma transparência que eu disse que esperei em 2014, eu digo agora que foi melhor em 2016. Eu era mais preparado em 2016. Não foi pelo ano sabático que foi muito explorado na mídia. Ano sabático meu foi quando fiquei desempregado e li livro do Valdano. Com vergonha de sair na rua. Foi quando fiz universidade para entender quantificação de carga de trabalho. Estive melhor e foi melhor ter assumido, mais qualificado, em 2016. Com trabalho e metodologia. Eu estava melhor preparado.

Você sempre menciona o Ancelotti. Tem outro técnico que você vê e dá prazer de ver o time jogar?
Quando eu fui ver o Ancelotti, ele ganhou de 5 a 1 do Arsenal, mas não fez um grande jogo. Ele consolidou o Bayern, jogando muito. Qual é a ideia dele? Mais do que a equipe. É um time sólido, do meio para frente criativo e agressivo. Faz muito gol, mas o processo sem bola é consistente. É o único que foi tricampeão da Champions, o cara tem um lastro. Duas com Milan, uma com Real. Real era criativo e ofensivo. Ele conseguia fazer uma estruturação defensiva também.

Ele não estar em nenhuma seleção da Copa é um alívio para você?
Sim (risos). Sim, sim (risos).

Você já se sente adaptado à seleção depois de passar toda a carreira dirigindo clubes?

Totalmente adaptado, não. Eu estou me descobrindo. Tempo é importante também nessa situação. Eu digo: "Cara, eu tenho pouco tempo de treinamento, preciso recuperar os jogadores para ter um treinamento em alta intensidade, senão estouro o cara e ele vai para o jogo sem estar na melhor condição". Tem essa quantificação de carga. Mas eu tenho pouco tempo de trabalhar, como consigo me exercitar? Ontem me fizeram uma pergunta, como eu não ficava enferrujado? E eu me descobri indo ver jogo ao vivo. No Corinthians x Santos eu estava na Arena e entrei na cabeça do Carille e do Dorival. O que ele vai fazer agora? Está perdendo, como vai mexer? Aí vejo Liverpool x City, que opções tem? O que vai fazer? Qual a estratégia? Arsenal e Bayern, com o Bayern metendo três, falei "o Wenger não vai mexer?" Se fosse eu já tinha ido na beirada, chutado uma bola para dentro do campo (risos).

O que te dá mais prazer, clube ou seleção?
Eu estou pegando o gosto pelo outro lado, o da seleção. Ele me dá a grande possibilidade de trabalhar com a excelência, os grandes atletas brasileiros em todos os centros. Isso é fascinante. Estamos falando em excelência. Isso é o máximo. Perguntam: "Você gostaria de dirigir um time europeu?" Eu digo: cara, atingi o clímax, o máximo, estar na Seleção Brasileira é o máximo, nada vai ser comparado. E aí passa a ser desafiador criar estímulos, gosto por esse outro lado. Aí vou assistir jogos, me projeto na cabeça dos técnicos, tenho que estar no clima. Assisti a Flamengo e Corinthians, lá no 2 a 2, e também pela Libertadores, contra o San Lorenzo, 4 a 0. Olhei para o treinador do San Lorenzo, o Aguirre, que o time estava sem jogar, decaindo... Ele faz a mexida, o time não responde. Pensei: ele deve estar muito louco. Essa é a forma que tenho de ainda procurar evoluir nesse aspecto e me descobrir mais como técnico. As duas funções me dão prazer, no clube e na Seleção. Aqui perco o prazer do dia a dia, mas tenho a excelência na escolha de atletas.

Pensa em voltar ao Corinthians ou qualquer outro clube?
Eu tento viver plenamente. Não descarto nada. Nenhum clube brasileiro eu descarto. Eu aprendi que na vida é o próximo passo, depois você abre. Eu não imaginava voltar para o Corinthians, achei que aquela etapa já tinha passado. Pensei muito, ouvi pessoas. Tinha prós e contras. Nada do que conquistar seria diferente. Apareceu a chance, com material humano. Não dá para planejar, a vida vai se abrindo. Eu não imaginava ser técnico da Seleção Brasileira. Veio convite por terceiros da Inter de Milão e do Porto quando eu estava no Corinthians. Nem conversei, queria terminar o trabalho. A vida você planeja, ai vai para um caminho que não espera.

Você trabalhou no Corinthians, um clube que politicamente era um caldeirão. Como você lida com a parte política na CBF?
No clube tem o técnico, o executivo, o diretor e o presidente. Aqui não existe o diretor. É uma relação mais direta. O trabalho na Seleção é mais diminuído. Você tem coisas essenciais, mas um volume menor de situações a serem resolvidas. Exemplo: contratação. Não tem contratação, está tudo aí, você pega quem quiser (risos). Não tem reunião por falta de jogador. Aprendi com o diretor que saiu do Sevilla agora. Um baita cara. Ele diz que fica reticente de falar com um técnico, e o técnico indicar nomes que queira contratar. Eu olhei para ele, ele abriu um sorriso e disse: você sabe por que, né? Se o técnico sabe de todos os caras que estão surgindo, em todos os centros, você não cuidou da essência do seu treinamento, do teu trabalho. Ideal é o técnico dizer: busque uma característica de atleta, em cima de análises, para o clube procurar.

Você pensa em participar da mobilização pela lei Caio Júnior?
Sim. Eu quero ler e me manifestar de forma pública nos próximos dias. Tenho conversado com o Dorival Júnior, Vagner Mancini. Logo vou externar. O que gostei bastante é da regularização, que todos estejam registrados na CBF. Igual a atletas, a classe do treinador precisa de uma situação melhor em legislação. Quero ler bem os itens, para estar embasado para responder.

Qual é o seu livro da vez?
"Qual É a Tua Obra ? - Inquietações Propositivas Sobre Ética , Liderança e Gestão", do (Mario Sérgio) Cortella. E "Jogando para vencer", de John Wooden.

E MAIS: