Tinga vê dreads como símbolo do legado que quer deixar como dirigente

BRUNO RODRIGUES E JOÃO GABRIEL
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ex-jogador de futebol Tinga, 42, não corta o cabelo há 18 anos. Segundo ele, apenas a família o faria perder aquilo que expõe sua marca pessoal e cultura.

Um dos raros dirigentes negros que passaram por clubes da elite do futebol brasileiro nos últimos anos, o gaúcho conta que já ouviu piadas sobre seus dreads em uma entrevista de emprego.

"Não me considero militante de nada. Nem tenho condições, não tenho nem conhecimento para isso. Eu tento é deixar o meu legado. Eu, com esse cabelo, ir onde eu tenho que ir, estar lá dirigindo um clube", diz ele, que trabalhou como gerente de futebol do Cruzeiro em 2017, à Folha de S.Paulo.

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Nesse sentido, Tinga entende que Pelé, independentemente de se posicionar publicamente ou não sobre o tema racismo no futebol, fez o que ninguém jamais conseguiu pela causa no esporte.

Paulo César Fonseca do Nascimento, apelidado em referência à Restinga, bairro periférico de Porto Alegre onde foi criado pela mãe, esteve em São Paulo no último mês para um evento de veteranos (a Legends Cup, organizada pelo São Paulo e em que ele defendeu o Borussia Dortmund-ALE).

Atualmente, o ex-atleta é dono de uma agência de viagens e também ganha dinheiro com palestras, mas não sabe quando voltará a trabalhar no futebol.

PERGUNTA - Como foi sua infância na Restinga?

TINGA - Minha família é como a da maioria dos brasileiros. Pobre, desestruturada. Quando eu tinha 7 anos, meu pai se separou da minha mãe, e ela ralou muito para cuidar da gente. Lembro da minha mãe chegando em casa às 18h do trabalho e pedindo para eu parar de fazer barulho na frente de casa, onde tinha um campinho, para ela dormir, porque às 22h tinha que sair para trabalhar de novo. Quando era no dia seguinte, 7h, eu e minha irmã íamos para a janela e ela estava lá com duas sacolas gigantes de comida e bebida, de coisas que não estávamos acostumados [a ter].

Eu pensei que, se minha mãe saía com uma sacola vazia e voltava com duas sacolas grandes cheias, trabalhar é bom. Na época, minha mãe trabalhava em um clube social. Nas madrugadas, ela limpava os banheiros e, quando acabavam as festas, tudo o que sobrava davam para ela.

P. - Você foi um dos poucos dirigentes negros de um clube da elite do Brasil nos últimos anos. Esperava que depois aparecessem outros?

TINGA - Quando eu fui me preparar em gestão esportiva pensando em ser dirigente de futebol -que não era o caminho mais fácil, que é ser treinador-, eu não pensei que pudesse ser [pioneiro] nem que pudessem vir outros. Você começa a jogar com 15 anos, para com 35. Nenhuma pós-graduação precisa de tanto tempo. O jogador entende do negócio e pode contribuir, desde que esteja preparado e formado, o que é básico. Depois que eu fui me tocar que eu era o único negro, e aí vem mais esse legado.

De repente, tu está conversando com um dirigente, uma entrevista [de emprego], e o presidente fala: “Vai lá, decide, já corta o cabelo e vem”. Eu perguntei se ele queria ficar com o meu cabelo ou o meu trabalho. Devolvi brincando. Não foi por essa brincadeira [que não aceitei o trabalho], mas essas coisas acontecem.

P. - Qual foi a maior barreira que você encontrou na transição de jogador para dirigente?

TINGA - Eu comecei no Cruzeiro, um time que, dos 25 jogadores, 19 tinham jogado comigo, de 13 eu era padrinho de casamento. Então a maior dificuldade é dirigir pessoas com quem tem um relacionamento de amizade. Se trabalhou com eles de forma correta, é fácil, mas se no tempo em que eu joguei com eles estivesse no banco cornetando o treinador, derrubando parceiro, aí ficaria mais difícil estar depois em uma posição de cobrar.

P. - Nessa conversa que você teve com um dirigente, entende que houve uma forma de preconceito?

TINGA - Sinceramente? Não acho que tudo o que a gente não gosta é preconceito. Consigo medir o cara que me chama de “negão” me botando para cima e o cara que me chama de “negão” me botando para baixo. A gente precisa parar de contar mentiras para nós mesmos. Que nós somos todos iguais. Não somos todos iguais. Agora, o ruim é achar que a minha diferença é melhor que a sua. As coisas estão evoluindo, não podemos dizer que não estão. Eu gosto de falar aquilo que penso, entendo quem pensa o contrário. Sei o que é preconceito, sei o que é opinião, sei o que é gosto. Não me considero militante de nada. Nem tenho conhecimento para isso. Eu tento é deixar o meu legado. Eu, com esse cabelo, ir onde eu tenho que ir, estar lá dirigindo um clube.

P. - Alguma coisa o faria cortar o cabelo?

TINGA - Bah, só se fosse questão familiar, filhos, esposa, que isso fosse salvar a vida deles ou trazer uma alegria muito grande para eles. Acaba sendo a minha marca, uma coisa com a qual eu mostro minhas características. Temos que ser verdadeiros. Eu gostava do estilo, depois fui entender que, por trás do cabelo, além do estilo, tu mostra a tua cultura.

P. - Você disse que a sucessão natural do jogador é ser técnico. Mas nesse caminho também há poucos negros. Por quê? TINGA - Isso é uma questão cultural que está sendo quebrada. Vamos pegar as multinacionais aí, ver quem são os diretores-executivos. Nenhum deles é negro. Isso é uma cultura de muitos anos, vem desde o tempo dos escravos, que a gente [população negra] era [trabalho] braçal, e isso transmitiu para o esporte. Vocês vão correr, jogar, até ser protagonista, mas a caneta, a parte executiva, não será de vocês.

P. - Como você se sentiu no episódio de racismo que sofreu durante o jogo contra o Real Garcilaso-PER, pela Libertadores de 2014?

TINGA - É lógico que tu não espera [que aconteça]. O maior legado que eu posso deixar é estar nos lugares. O que arrasta multidão é a prática. O que dignifica o homem é o trabalho. Bem melhor do que ficar gritando é eu estar na posição. Se me abrem as portas, vou lá mostrar que dá. Meu legado é trabalhar, entrar nas brechas. Que para mim foi a coisa que o Pelé mais fez. Porque as pessoas dizem: "Bah, o Pelé não se posiciona." Quer maior posicionamento que chegar em qualquer canto do mundo, nego revistando todo mundo, achando que é terrorista, você mostra o passaporte e falam "Ah, Brasil, Pelé!". Cada um tem o seu jeito de lutar.

P. - ​Recentemente, Inter e Cruzeiro, dois times pelos quais você passou, foram rebaixados. No Cruzeiro, inclusive, você foi diretor. O que leva times tradicionais à queda?

TINGA - Sem as pessoas, o clube é um empreendimento. Quem faz as coisas são as pessoas. Então, o Inter, na sua época, e o Cruzeiro foram os punidos por administrar mal, mas tem vários outros que administram mal. Como não cai todo mundo, cai quem pode cair, né? O futebol é um território bom para fazer merda, porque ninguém sabe de quem é o dinheiro. Parece que o dinheiro não é de ninguém.

​P. - Você vê uma diferença no tratamento ao ídolo entre clubes brasileiros e europeus?

TINGA - Total. Estamos aqui [para o torneio de veteranos], Bayern [de Munique], Borussia [Dortmund], Barcelona e nós não jogamos mais. E na Série A, quantos clubes têm isso? O São Paulo está construindo um legado através do [ex-zagueiro e hoje dirigente Diego] Lugano. Aqui, você joga no clube, mas depois que jogou, não serve mais. Não pode o cara ter passado 20 anos dentro do clube e não ter nada [a acrescentar]. O ex-jogador aqui amedronta. Principalmente os executivos que não jogaram.

P. - Quais são seus planos para o futuro?

TINGA - Sei que algum dia eu vou voltar para o futebol, não sei quando. Hoje diretor [de futebol] está virando mercado. Primeiro que o diretor-executivo é totalmente diferente do que eu acho [que teria que ser]. Se você pegar um diretor-executivo de uma empresa, ele tem que trazer receita, buscar patrocínio, melhorar relação com fornecedor e governo. Diretor-executivo [de futebol] no Brasil tem [só] que comprar e vender.

Os caras me chamaram esses tempos para ser comentarista [de TV], mas falei que não. Não conseguiria passar uma hora falando de um assunto que não tem hipótese de acontecer. Esses dias, vi os caras debatendo 40 minutos se o Flamengo, se jogasse a Premier League, ficaria entre os quatro [primeiros]. E teve até tese, que se jogasse fora, empatasse... Outro dia estavam discutindo se o Real Madrid jogasse a Série B do Brasileiro. Ele não vai jogar!

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