Times menores desafiam pandemia e domínio dos grandes no Paulista

BRUNO RODRIGUES E CARLOS PETROCILO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Classificados para as quartas de final do Campeonato Paulista, Red Bull Bragantino, Santo André, Mirassol e Ponte Preta desafiam o histórico recente da competição, que não vê um time fora do grupo dos quatro grandes chegar à semifinal desde 2017.

Como se não bastasse a dificuldade usual de tentar desbancar as equipes mais poderosas do estado, a pandemia forçou a maioria dos clubes de menor expressão a passar por mudanças importantes em seus elencos, além de imputar gastos inesperados com a nova logística do Estadual.

Nos últimos 20 anos, 18 clubes que não pertencem ao grupo formado por Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo conseguiram chegar entre os quatro melhores do Paulista.

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O levantamento da reportagem considera os campeonatos de 2000 para cá, com exceção da edição de 2002, quando os grandes não participaram por terem jogado o Rio-São Paulo, e 2005 e 2006, disputados sob a fórmula de pontos corridos.

Nas 17 edições em que houve semifinal nesse período, cada torneio, em média, teve uma equipe de menor expressão "roubando" o lugar de um grande nessa fase. Desde 2014 duas zebras não furam esse domínio numa mesma edição.

A Ponte Preta, há três anos, foi o último time do interior a ganhar um posto entre os quatro melhores. Nas quartas de final de 2017, desbancou o Santos, justamente o seu adversário nas quartas da edição deste ano. Eles se enfrentam na quinta (30), às 21h30.

Naquela ocasião, o clube de Campinas também superou o Palmeiras na semifinal e ficou com o vice-campeonato ao ser derrotado pelo Corinthians na decisão.

"A paralisação obviamente trouxe desafios novos, também trouxe lições. Se por um lado economizamos na formação do elenco, por outro nos reforçamos com profissionais de fisiologia, trocamos a preparação física. E trouxemos alguns jogadores olhando já para o Brasileiro da Série B, que é o grande objetivo da Ponte Preta, voltar para a elite do futebol brasileiro", diz Sebastião Arcanjo, presidente da Ponte.

Equipe de melhor campanha do Paulista até a paralisação, o Santo André foi um dos tantos clubes do Estadual afetados pela pandemia. Os contratos de 21 atletas se encerraram durante a pausa e a diretoria conseguiu renovar com 14. Outros cinco jogadores foram contratados, além de três que não haviam sido inscritos na primeira fase do torneio e agora integram a lista.

Somado aos gastos com rescisões e salários de quem se despediu do clube, o Santo André também desembolsou dinheiro para hospedar 38 profissionais em um hotel-fazenda durante o período de preparação para a retomada da competição, já que o seu município não estava autorizado pelo governo do estado a manter atividades esportivas.

Com um empate e uma derrota desde o retorno do Paulista, a equipe do ABC encerrou a primeira fase com a quarta melhor campanha e enfrentará, nas quartas de final, o Palmeiras. Será o único jogo dessa fase que terá transmissão da TV aberta (Globo), às 21h30 desta quarta (29). Motivo de comemoração para o presidente Sidney Riquetto.

"Muito bom ter transmissão da televisão, porque contamos com a continuidade de quase todos os patrocinadores, mesmo depois da pandemia, e vamos ter essa visibilidade. Se Deus quiser, vamos jogar domingo também [na semifinal]", diz Riquetto.

A transformação do elenco para o mata-mata também foi bastante profunda no Mirassol, que visita o São Paulo nesta quarta-feira (29), no Morumbi, às 19h. De acordo com o presidente do clube, Edson Ermenegildo, a equipe perdeu 18 jogadores -17 atletas com contratos encerrados e um por lesão.

"Tivemos que remodelar completamente a equipe, principalmente com nossos meninos do sub-20. Até porque não conseguimos no mercado, fora do estado, encontrar jogadores de muita qualidade. Temos garotos de 17 anos jogando. Na questão da experiência, fomos bastante prejudicados", afirma.

O presidente do Mirassol também destaca que clubes como o dele precisaram arcar com outros custos inesperados, como o de hospedagem e aluguel de estádios na região metropolitana da capital paulista, que forma com a cidade de Santos o restrito mapa de sedes para a reta final do Estadual.

A Federação Paulista de Futebol custeia a locomoção do time mandante até sua "nova casa" e a hospedagem da concentração pré-jogo. Se o clube optar por ficar mais tempo em um hotel, esses gastos são de responsabilidade do clube.

Com a equipe hospedada em Santo André, o Mirassol precisou pagar R$ 9.000 para sediar a partida contra a Ponte Preta no último domingo (26), em São Bernardo. "R$ 7.000 para o jogo e R$ 2.000 pela visitação e reconhecimento do gramado. Fora as outras despesas do jogo. Ambulância, segurança, tudo por nossa conta", completa o dirigente, que aguarda o pagamento, congelado durante a pausa, da quarta e última parcela do contrato da Globo, detentora dos direitos de transmissão.

Entre as equipes do interior, a que menos sofreu com o impacto econômico da pandemia foi o Red Bull Bragantino, dono da melhor campanha da primeira fase do Paulista e que encara nas quartas de final o Corinthians, no Morumbi, às 19h de quinta (30).

Amparado pelo investimento da empresa austríaca de bebidas enérgeticas, o clube, que já havia desembolsado mais de R$ 50 milhões em reforços para a temporada, conseguiu manter o elenco praticamente intacto e não precisou reduzir salários durante a paralisação.

Ao lado dos quatro grandes, o time de Bragança Paulista também está na Série A do Campeonato Brasileiro, principal objetivo do clube na consolidação de seu projeto esportivo.

Sem atingir a semifinal desde 2017, os pequenos do estado, apesar do cenário difícil que a pandemia impôs às suas finanças, contam com um aspecto que poderá beneficiá-los na busca por uma vaga na próxima fase: a ausência de torcida dos clubes grandes.

Para os presidentes de Mirassol e Santo André, os jogos com portões fechados acabam benefi ciando suas equipes. Dos quatro duelos das quartas de final, apenas o Red Bull Bragantino, entre as equipes do interior, será mandante em seu jogo, ainda que ele ocorra no Morumbi.

"Essa situação de jogar sem a presença do público acaba sendo um ponto positivo para quem teria, teoricamente, que enfrentar uma torcida de 30 mil pessoas", afirma Sidney Riquetto.

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