Time mais simpático do RS se diz pronto para dar um passo à frente

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São José sonha em dar um passo à frente no Campeonato Gaúcho. Foto: Gazeta Press
São José sonha em dar um passo à frente no Campeonato Gaúcho. Foto: Gazeta Press

O apelido de “time mais simpático do Rio Grande do Sul” está pintado próximo à entrada da sede na zona norte de Porto Alegre. É motivo de orgulho para algumas pessoas. Para outras, não. No setor das arquibancadas onde ficam as organizadas do Esporte Clube São José, ser simpático não é bom o bastante.

Torcedor com camisa de outro time não é bem visto. Eles veem ali como lugar dos “torcedores puros” do São José, em manifestação que encontra eco com outros clubes de menor expressão que estão em cidades de times mais famosos. Como o Juventus, da Mooca, em São Paulo, por exemplo.

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“Se não for torcedor do Zeca, nem precisa vir”, disse um deles em 27 de janeiro, durante partida contra o Internacional no acanhado estádio do Passo D’Areia, em diálogo presenciado pela reportagem do Yahoo Esportes.

“Zeca” é o apelido bem mais aceito do time que precisa achar o seu espaço na capital monopolizada por Inter e Grêmio.

Os fãs mais jovens não querem nem mais ouvir falar na história de que o São José foi a primeira equipe de futebol da América do Sul a viajar de avião. Em 1927, o elenco entrou em um hidromotor para ir a Pelotas fazer uma partida.

“Há espécie de orgulho em ser torcedor do São José, de estar em uma cidade em que quase todo mundo torce por outros dois clubes e você escolhe o terceiro. É preciso ter muita personalidade”, afirma o presidente Flávio Abreu.

Orgulho que pode começar ser mais do que apenas desafio de ir contra a maré. O São José começou a oitava rodada do Estadual no terceiro lugar. No ano passado, chegou às semifinais e esteve a um pênalti de se classificar para decidir o título contra o Grêmio. Acabou eliminado pelo Brasil de Pelotas.

Na partida acompanhada pelo Yahoo Esportes, o São José ignorou a fama do irmão maior e bateu o Internacional por 2 a 0.

“Acho que nós temos o direito de sonhar. Outros times já provaram ser possível ir longe no Campeonato Gaúcho, disputar título e surpreender. Por que não?”, questiona o técnico Rafael Jaques.

O que ele tem na cabeça é o feito do Novo Hamburgo, campeão estadual de 2017. A primeira vez desde o Caxias em 2000 em que o título ficou fora das garras da dupla Grêmio e Inter. A surpresa de ser campeão estadual seria o maior feito da história do São José, fundado em 1913 e que tem como momento mais importante a vitória na Copa Governador do Estado de 1971.

“Nós temos os pés na realidade. Sabemos que financeiramente, no número de torcedores e na paixão deles, não podemos rivalizar com a dupla Grenal. Ao mesmo tempo, sabemos que quando essas equipes não estão em campo, a torcida é pelo Zeca”, completa Abreu.

A sede do clube, no bairro Santa Maria, é bucólica. Ainda serve como ponto de reunião para os moradores da região e também neste sentido o São José vai na contramão. É um clube de futebol, mas também tem a parte social frequentada. Função perdida por muitas agremiações ao redor do país, que começaram a ver seus fiéis frequentadores desaparecerem a partir do momento em que a TV a cabo e a internet se popularizaram.

O São José tem quase todas as semanas reuniões do departamento de veteranos, composto por ex-jogadores da equipe e de associados de décadas. É deste grupo que costumam sair os presidentes.

Os resultados em campo desde o ano passado deixam também no passado momentos de mais marketing do que futebol. Como a contratação de Careca, ex-atacante de Guarani, São Paulo, Napoli (ITA) e seleção brasileira, para fazer algumas partidas em 1998. Na época, o artilheiro estava aposentado e o São José acabou sendo o último time de um dos goleadores mais importantes do futebol nacional nos últimos 40 anos.

Em 2007 a diretoria repetiu a dose e levou o goleiro Danrlei, ídolo histórico do Grêmio.

Foram aquisições mais midiáticas do que esportivas.

“As pessoas nem lembram que eu passei pelo São José. Nem lembro se fiz gol. Em Porto Alegre só se fala de Inter e Grêmio, é difícil falarem no São José. É visto realmente como um time simpático e só. Mas mesmo assim no pouco tempo que passei por lá não eram muitas as pessoas que iam ao estádio”, se recorda Careca.

O São José é querido, simpático e (por causa disso) não assusta os rivais da cidade, mas ninguém pode dizer que não seja forte nos bastidores. O clube foi dirigido por 19 anos por Francisco Novelletto, presidente da Federação Gaúcha desde 2003 e já reeleito para o cargo quatro vezes. Uma das empresas do dirigente, a Multisom, investe no futebol do Estado, faz patrocínios e anuncia  em emissoras de rádio e jornais locais.

Isso já fez surgirem acusações veladas de que o São José nem nas vacas magras seria rebaixado porque Novelletto não permitiria.

Algo que o dirigente diz ser bobagem.

“O São José é bem administrado. Eu só cheguei à presidência da Federação porque fiz um bom trabalho no São José. A empresa é minha e o que eu gosto é de futebol. Então ela investe no que eu entendo”, desconversa o cartola.

Ao ser eleito pela última vez, em 2015, ele disse que este seria seu último mandato. Se não se candidatar novamente, terá de sair neste ano. Em 2018, o Ministério Público do Trabalho pediu à Justiça que Noveletto fosse afastado do cargo na Federação por irregularidades trabalhistas. Ele nega qualquer ilegalidade. Ele também é questionado pela construção da nova sede da entidade em um terreno que era explorado como estacionamento pela mulher de um funcionário da Multisom.

O São José pode ser visto com universal simpatia no futebol gaúcho, mas seu mais importante dirigente não goza da mesma boa vontade.

Na verdade, o desejo de alguns torcedores que comparecem ao estádio Passo D’Areia é que o clube seja menos simpático e mais incômodo para os grandes de Porto Alegre. Isso pode até acontecer neste ano.

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