Time mais vazado no ano, Vasco vive “pane tática” que começa na defesa e morre no fundo do gol

Yahoo Esportes
Martín Silva já viu muitas bolas entrarem em seu gol na temporada (Anderson Papel/Código19/Gazeta Press)
Martín Silva já viu muitas bolas entrarem em seu gol na temporada (Anderson Papel/Código19/Gazeta Press)

Por Leonardo Miranda (@leoffmiranda)

Nenhum clube vivenciou tanto o desânimo da torcida quando o adversário marca o gol que o Vasco. Das 20 equipes da primeira divisão neste ano, o Cruzmaltino é o mais vazado: foram 75 gols, o que caracteriza uma média de 1,5 gol por jogo. A média é alta até para quem está na zona de rebaixamento – o Paraná sofreu 1,17 gol por jogo. A crise da defesa, escancarada no vexame perante o Santos, em pleno Maracanã, revela a bagunça que o Vasco vive – dentro e fora de campo.

Você já viu o novo app do Yahoo Esportes? Baixe agora!

Número de gols tomados por jogo pelas equipes até o início da rodada do Brasileirão (Leonardo Miranda)
Número de gols tomados por jogo pelas equipes até o início da rodada do Brasileirão (Leonardo Miranda)

Há uma série de fatores que explica essa crise. Eles podem ser técnicos – como a lesão de Breno, principal zagueiro, e táticos, como a troca de treinadores no ano – são quatro até agora, contando com Valdir Bigode – e também financeira, já que o Cruz-Maltino vive situação dramática nos cofres. Todos esses fatores estão interligados, o que torna a solução desse problema algo ainda mais complexo: não basta apenas arrumar o que está errado – pode acreditar, se fosse simples assim, a defesa do Vasco seria uma fortaleza! O problema é mais embaixo. Muito mais.

O peso de ter quatro técnicos no ano

Zé Ricardo começou o ano no Vasco e hoje está no Botafogo, clube pelo qual Alberto Valentim ganhou o Carioca antes de assumir o Vasco. No meio de tudo apareceu um Jorginho e o auxiliar Valdir Bigode. Trocar tanto o técnico causa um problema grande: quebra a formação do time. Imagina que os jogadores treinam uma ideia diariamente, reprisam no jogo, corrigem… Aí chega alguém com uma visão oposta. Leva um tempo imenso até convencer e identificar quem está mais apto a aplicar a ideia no jogo.

A troca de Zé por Jorginho é um exemplo claro. O Vasco do início do ano tinha um problema de ação, não de posicionamento. O técnico implantou um sistema de marcação por zona, no qual o jogador ocupa um espaço e se desloca para roubar a bola apenas quando o adversário está em seu setor. Nas bolas aéreas, esse deslocamento precisa ser intenso e acontecer de perto, assim o jogador se coloca de forma a interceptar e cortar a bola. No terceiro gol do Jorge Wilstermann, o Vasco está posicionado de forma correta – com a defesa alinhada – mas nenhum dos zagueiros tem essa atitude de acompanhar o adversário, que chega de trás e coloca na rede. Os gols foram quase idênticos naquela dramática partida.

Posicionamento do Vasco em jogo contra o Jorge Wilstermann (Leonardo Miranda)
Posicionamento do Vasco em jogo contra o Jorge Wilstermann (Leonardo Miranda)

Jorginho chegou, identificou e agiu: trocou o sistema de marcação. Esses deslocamentos passaram a ser mais individualizados e intensos. São os chamados encaixes, e o propósito é nunca, mas nunca deixar o adversário com a bola livre. Acontece que o time passou quase um ano treinando por zona, e em semanas precisou mudar… Na derrota para o Palmeiras o desentendimento dessa ideia ficou claro: a ideia de encaixe está lá, com o lateral atento no centroavante, mas o jogador com a bola fica livre, confundido os zagueiros.

Erro de encaixe em jogo contra o Palmeiras (Leonardo Miranda)
Erro de encaixe em jogo contra o Palmeiras (Leonardo Miranda)

Existe também um erro de avaliação. Todos os treinadores apostaram num modelo propositivo de jogo. O Vasco sempre tentou ficar com a bola e trabalhar no campo do adversário, atacando e pressionando. Por si só, essa lógica leva a deixar a defesa com menos gente e induzir o adversário a contra-atacar. Não foram poucos os gols que o time levou de contra-ataque. Há também uma questão mais prática: se o clube vive crise financeira e não tem tanto tempo, por que não apostar num modelo que destrói mais? É mais fácil de treinar, convencer, aplicar…

Veja outras análises táticas

A defesa começa no ataque, logo não é possível individualizar

É sempre um costume falar que se a defesa não vai bem, a culpa é dos zagueiros. Mas não é bem assim. O futebol é composto de momentos, como ataque e defesa, e o meio termo entre eles é chamado de transição. O momento defensivo acontece no instante que o time perde a bola, seja em qualquer lugar que esteja. A participação dos atacantes e meias na marcação é fundamental para não expor a zaga e evitar a chance de erros.

O terceiro gol do Santos é um baita exemplo. Sabe onde ele começa? Num ataque do Vasco. A bola bate na defesa, no exato momento da imagem abaixo. A lógica mostra que seria mais vantajoso ao Vasco pressionar rápido o adversário que recuperou, para atrasar esse ataque do Santos e também tentar roubar rápido a bola, ou voltar imediatamente para a defesa. Mas não: o Vasco simplesmente “desliga” do lance. Cinco jogadores, marcados em amarelo, não agem nem respondem. Se você contar bem, cinco é metade do time. Isso significa que o Santos teve um contra-ataque no qual precisou enfrentar apenas metade do time na marcação.

Jogador do Santos recuperando a bola após ataque do Vasco (Leonardo Miranda)
Jogador do Santos recuperando a bola após ataque do Vasco (Leonardo Miranda)

Não é correto resumir isso a “preguiça”. É entendimento da ideia. O natural para um jogador de ataque é ficar em sua posição, ainda mais quando o time está perdendo de dois a zero. Acreditamos na ideia de que, quanto mais gente na frente, melhor será. Mas futebol não é pebolim…é um jogo completo e conectado, onde uma ação provoca um efeito dominó em outra.

As ideias de Valentim podem amenizar a crítica situação do Vasco?

Um dos maiores elogios a Bigode era a ideia de um Vasco mais reativo, que primeiro defendia para depois atacar. Valentim é um tanto diferente. Acredita no bom desempenho como principal motor para o resultado, e uma de suas ideias táticas mais marcantes é a defesa alta. Os times de Palmeiras e Botafogo costumavam defender avançados, mas com compactação. Assim, formavam linha de impedimento e os atacantes pressionavam rápido se a bola batia no ataque. A estreia, contra o Atlético-PR, mostra um alinhamento já parecido com o que o técnico julga ideal.

Linhas do Vasco na estreia de Valentim (Leonardo Miranda)
Linhas do Vasco na estreia de Valentim (Leonardo Miranda)

Acontece que essa ideia precisa virar prática, e para isso acontecer é preciso do ativo mais valioso e raro no futebol brasileiro: tempo. O Vasco vive um clássico caso de cobertor curto: se ataca, expõe a defesa. Se não ataca, não consegue chegar ao gol. Achar o fino balanço com um grupo que mudou bastante do início do ano é desafio para Valentim, em seu terceiro clube no ano. Uma ciranda onde ninguém sai ganhando e o torcedor é o principal prejudicado.

Leia mais:
– Os nomes analisados pelo Timão para o lugar de Loss
– O zagueiro que desafiou o seu próprio país
– Jogador do Crystal Palace faz doação para time feminino

Leia também