Thiago Paulino protesta no pódio das Paralimpíadas após ter ouro revogado

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O brasileiro Thiago Paulino dos Santos, 35, que teve a sua medalha de ouro revogada pelo júri da prova do arremesso do peso da classe F57 nas Paralimpíadas de Tóquio-2020, protestou durante a cerimônia de entrega de medalhas na madrugada deste sábado (4, no horário de Brasília).

Com dois arremessos invalidados mais de dez horas após o fim da prova, o paulista de Orlândia foi dormir campeão e acordou com a medalha de bronze.

Durante a cerimônia, Paulino gritou "não" e levantou o dedo indicando o número 1, referente à posição que ocuparia no pódio caso a revogação não tivesse acontecido. Ele ainda apontou para a medalha de bronze no peito, gesticulou um "não" e ergueu o punho direito em protesto. O chinês reagiu, comemorando com a medalha de ouro e levantando o dedo indicando o número 1. Paulino não viu, pois estava de cabeça baixa.

A decisão foi anunciada logo antes da primeira sessão de atletismo na noite desta sexta-feira (3) pelo IPC (Comitê Paralímpico Internacional).

Com a mudança, dois arremessos de Paulino que haviam passado dos 15 metros, inclusive um na marca de 15,10 m que seria o novo recorde paralímpico, foram invalidados por suposta irregularidade no movimento --ele teria se levantado da cadeira. Na classe F57, atletas com deficiências diversas competem sentados.

Por já ter conquistado o recorde e a medalha de ouro, Paulino abdicou dos últimos arremessos. "Se o árbitro tivesse queimado os meus dois arremessos, que depois foram contestados, eu teria continuado na prova e, com certeza, buscaria essa medalha, porque eu estava muito bem preparado", ele disse ao site Olimpíada Todo Dia (OTD) após o pódio.

De acordo com o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), a China protestou durante e depois da prova, mas a arbitragem não acatou. A delegação chinesa, então, foi ao júri de apelação e conseguiu que os arremessos fossem revisados.

"O Brasil apresentou imagens das transmissões de TV dos arremessos em que não havia qualquer indício de infração no movimento de arremesso do atleta, mas a alegação do júri é que o vídeo acusatório seria de outro ângulo, mas se recusou a mostrar o vídeo que embasou a decisão", diz o pronunciamento do CPB. "Ficam nosso protesto e indignação por essa decisão absurda."

O presidente do CPB, Mizael Conrado, seguiu com as críticas em seu perfil no Twitter. "Provavelmente, os titulares de mais essa esdrúxula decisão nunca disputaram uma medalha pra saberem a importância que tem o feito do nosso Thiago e o que representa tamanha injustiça, após cinco anos de dedicação, com treinos diários, abdicando de tantas coisas para ser o melhor", escreveu.

"Depois de tantas lambanças nos últimos quatro anos, ingenuidade pensar que tudo acabaria normal por aqui. A recusa em mostrar o vídeo da suposta infração constitui flagrante falta de transparência", completou.

O comitê também é crítico contumaz do processo de reclassificação funcional de atletas da natação feito pelo IPC no último ciclo. O órgão internacional é presidido por um ex-presidente do CPB, o brasileiro Andrew Parsons.

O chinês Guoshan Wu, que havia ficado com a medalha de prata, arremessou na marca dos 15 m e ficou com o ouro após a revisão da prova. Já o também brasileiro Marco Aurélio Borges, que conseguiu a marca de 14,85 m, subiu do bronze para a prata. O único arremesso considerado válido de Paulino foi na marca dos 14,77 m.

O atleta agradeceu ao apoio do CPB e da torcida brasileira. Para ele, "infelizmente tem hora que o poder fala mais alto". "Não vou usar a palavra que eu gostaria. Mas todo o mundo viu o que aconteceu. Levantar a cabeça. Digerir tudo isso e pode ter certeza que eu vou voltar mais forte", afirmou ao OTD.

De acordo com relatos do site, que acompanhou a apreensão antes da cerimônia no Estádio Olímpico de Tóquio, Paulino estava em prantos e chegou a socar a parede do local.

O pódio foi adiado em mais de uma hora enquanto o comitê brasileiro buscava uma nova revisão, mas a entrega seguiu com bronze para o brasileiro.

Com a revogação, o Brasil voltou a ter temporariamente 20 medalhas de ouro conquistadas nos Jogos de Tóquio-2020, mas logo subiu novamente para 21 (mesmo número obtido em Londres-2012), com a conquista de Fernando Rufino na canoagem.

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