The Shop, LeBron James e o poder do posicionamento político-social de personalidades

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(Divulgação/HBO)
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“Se junto 25 mil pessoas em um jogo, conseguirei juntar ainda mais quando eu falar.”

LeBron James, autor da frase acima, já há algum tempo demonstra não estar satisfeito somente com os títulos e recordes dentro das quadras. O trecho em destaque, retirado da série The Shop, produzida pela HBO, representa os vários momentos em que o astro da NBA compartilha pensamentos e intimidades em conversas numa barbearia. O programa expõe discussões bastante pertinentes da atualidade, e vai muito além do aspecto esportivo. Mergulha, claro, nos bastidores profissionais de cada um dos convidados, mas debates político-sociais ditam o ritmo da produção.

Em capítulos de 30 minutos, Maverick Carter e LeBron James conversam com dezenas de personalidades não só do esporte, mas também da música, cinema, política e outros produtores de conteúdo. Para ser mais preciso, nos 11 episódios exibidos até o fechamento deste texto, passaram pelas cadeiras da barbearia 50 convidados. E a premissa é essa: uma roda de amigos conversando sobre tudo. Calhou de a HBO inserir uma câmera no meio e proporcionar essa intimidade aos telespectadores.

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A lista de celebridades presentes conta com nomes de bastante respeito: Drake, Chris Bosh, Snoop Dogg, 2 Chainz, Anthony Davis, Kevin Hart, Pharrell Williams, Chadwick Boseman, Hasan Minhaj, Whoopi Goldberg, Will Smith, Megan Rapinoe, Stacey Abrams, Barack Obama, etc. E aí pensamos: qual a possibilidade de um programa dar errado com uma cartilha assim? Vale destacar que a seriedade com que são tratadas questões espinhosas flutua muito bem com a descontração e causos expostos. Surpreende que não seja uma produção mais popular

“Eu estudei em uma escola só de brancos, católica. E, depois do 9º ano no colegial, foi tipo: ‘Não vou mexer com esses brancos.’ Porque eu ouvia isso, crescendo no gueto. ‘Eles não mexem conosco, não podemos vencer, tem uma hierarquia e nós estamos aqui [aponta para baixo]. Ou melhor, embaixo da cadeira’ [aponta para mais baixo ainda]. E eu só iria à escola para jogar basquete. Só para isso. Eu não queria amizade, e não sentia que eles queriam… Éramos só eu e meus amigos indo lá para estudar e jogar basquete. Então, esse foi o meu primeiro contato e o meu primeiro choque com os brancos, aos 14 anos, pela primeira vez na vida”.LeBron James

Obama e LeBron em episódio da série The Shop (Divulgação/HBO)
Obama e LeBron em episódio da série The Shop (Divulgação/HBO)

O episódio com participação de Barack Obama, segundo da terceira temporada, é dos mais ricos. Embora seja o único a não contar com participantes presencialmente, o resultado em nenhum momento fica aquém dos demais. A dinâmica permanece, com o acréscimo de ricos detalhes fornecidos pelo ex-presidente, contando como ajudou os atletas da NBA a se mobilizarem durante o movimento Black Lives Matter.

O tema da misoginia também marca presença em diversos momentos, e ter a voz de Megan Rapione em um dos episódios traz ainda mais força ao mote. Stacey Abrams, política, advogada e ativista tem papel importante no alerta ao risco à democracia representado pelo então candidato à reeleição Donald Trump. Lembrando que ela foi figura primordial na vitória de Joe Biden, com uma intensa campanha de incentivo ao voto de populações afro-americanas.

“No fim das contas, quando eu resolvi falar e não me importar às reações ou ao que me afeta, eu vi que não se tratava de mim. E [Muhammad] Ali sabia. Ele sabia que não se tratava dele. Ele enfrentou críticas e foi preso. Mas o que isso fará para o próximo grupo, para o próximo atleta, para a próxima minoria que quer falar quando isso acontece? E Ali pensou que alguém acabaria pegando o que ele fez. E eu senti isso. Senti isso ao perder tal coisa, ou ao perder popularidade. Minha popularidade caiu. Mas no fim das contas, a minha verdade para tantas crianças e tantas pessoas era mais ampla do que eu.”LeBron James

Seria um pecado entrar em minúcias de outros episódios e tirar parte da experiência do que pode ser visto. A HBO produziu uma obra que traz bastante de uma ousadia sobre posicionamentos. Claro, só foi possível porque uma massa de personalidades não temeu colocar o dedo em feridas que doem muito atualmente – e que já deveriam ser consensos, na verdade.

“É como ir ao parque de diversão e não ir à montanha-russa [ser relevante e não se posicionar]. Existe um medo e uma alegria em dizer que você fez. Eu quero satisfação. Não para mim, mas para todos. (...) E agora eu posso ser uma inspiração para muitas crianças. E para mim, ficar sem dizer nada, quando os colegas não disseram, não parecia certo.”LeBron James

No ambiente atual dos esportes, qualquer sopro de espontaneidade é valorizado. Numa bolha onde jogadores são cerceados por cláusulas, especialistas em imagem e gestores de competições, The Shop, sob o guarda-chuva de um grande conglomerado como a HBO, entrega a conversa banal que atletas podem ter em seu dia a dia. Mas traz algo como sendo o principal: a preocupação de uma massa de artistas e esportistas empenhados em participar do debate sobre conflitos atuais que muitos astros se esquivam. É uma opção, e aparentemente não há problemas nisso. Todavia, para esta questão, deixo a citação de LeBron James que abre este texto.