'The Last Dance' não prova que Jordan é o melhor da história

·5 minuto de leitura
SALT LAKE CITY, UNITED STATES:  Michael Jordan of the Chicago Bulls talks to the media 14 June after winning game six of the NBA Finals against the Utah Jazz at the Delta Center in Salt Lake City, UT. The Bulls won the game 87-86 to win their sixth NBA Championship.   AFP PHOTO/Mike NELSON (Photo credit should read MIKE NELSON/AFP via Getty Images)
Michael Jordan durante coletiva após o sexto título dos Bulls, em 1998 (MIKE NELSON/AFP via Getty Images)

Sabe quando "The Last Dance" acabou perdendo a chance de ser uma prova viável de que Michael Jordan é o melhor jogador de basquete de todos os tempos? Praticamente no minuto 59 do primeiro episódio. Foi ali que os créditos começaram a passar na tela, indicando o nome dos três produtores executivos do documentário: Mike Tollin, que teve a ideia original para o projeto, Curtis Polk e Estee Portnoy, sócio e gerente/porta-voz, respectivamente, de Michael Jordan.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Esportes no Google News

Em diversos aspectos, o que eles e vários colaboradores criaram é uma obra-prima. Está batendo recordes de audiência e matando a nossa vontade de conteúdo esportivo. É divertido. É cativante. Deixa um gostinho de nostalgia para alguns de nós e é educativo para outros.

Porém, o documentário fica problemático quando a própria equipe de Jordan tenta retratá-lo como algo além da realidade. David Falk, agente de longa data de Michael, fez exatamente isso nesta semana. "Se você não é cego e, depois de assistir às dez horas da série, não disser que este é o maior jogador de basquete de todos os tempos, deveria assistir a campeonatos de roller derby", afirmou em entrevista a Scott Van Pelt, da ESPN.

Leia também:

Falk não é o primeiro a tratar o documentário como prova de que Jordan é o melhor jogador da história, e certamente não será o último. Milhões de pessoas partilham dessa opinião, e dez horas recheadas de imagens de arquivo e entrevistas emocionadas são o método ideal para reforçar esse viés.

Acontece que Falk não está ajudando. Na verdade, ele está reforçando a perspectiva menos popular, mas não menos verídica, de que "The Last Dance" é uma longa propaganda de Jordan. Esse ponto de vista é amparado na tendência que o documentário tem de valorizar exageradamente a versão de Jordan dos fatos (e os créditos da série também ajudam).

Por isso, o que vimos nos últimos quatro domingos não prova nada. Jordan pode ser o melhor jogador de todos os tempos, mas não porque ele, seus sócios e uma equipe de roteiristas e artistas talentosos assim decidiram.

Falk vendeu a ideia de Jordan como o melhor jogador da história respondendo disfarçadamente a duas perguntas: por que e por que agora. Por que Jordan, agora uma figura famosa aposentada, concordou em mostrar todas aquelas gravações de bastidores para o mundo? E por que, depois de duas décadas recusando ideias parecidas, decidiu participar desse documentário inovador exatamente agora?

Talvez seja importante considerar que Jordan tomou essa decisão num momento em que LeBron James e os Cavaliers estavam literalmente ostentando o troféu Larry O'Brien pelas ruas de Cleveland em 2016.

Talvez seja por isso que Falk, depois de divagar um pouco, fez a comparação com LeBron e partiu para falar de cegueira e roller derby.

Van Pelt começou a entrevista com uma pergunta totalmente aberta. Ao responder, Falk rapidamente emendou a frase "Michael Jordan é o melhor jogador de todos os tempos".

Então, por que Jordan concordou em lançar "The Last Dance"? Provavelmente nunca saberemos ao certo. Aliás, seria ingenuidade da nossa parte não achar que ele não pensou no seu legado. Também seríamos ingênuos se ignorássemos o fato de que sua empresa, a Jump 23, é uma parceira (não divulgada) do projeto. Além disso, os sócios e, mais especificamente, a mulher encarregada de administrar a imagem pública dele atuaram como produtores executivos do documentário. Talvez eles se importem só um pouquinho com a forma de estruturar o legado de Jordan.

Talvez seja por isso que essa história toda gire em torno do ponto de vista de Jordan, às vezes pecando por excesso. Talvez seja por isso que, quando a história chega nas falhas dele, muda rapidamente para Jordan usando a cobertura midiática dessas falhas como motivação. Talvez seja por isso que, quando o foco são as falhas de Scottie Pippen, um dos maiores jogadores da sua geração, além de colega de equipe querido e parte essencial do tricampeonato consecutivo, Pippen raramente conta com a mesma complacência narrativa.

"The Last Dance" é excelente no quesito entretenimento. Porém, não é uma obra jornalística. E não há problema nenhum nisso... desde que o documentário não seja visto como jornalismo.

Na entrevista para a ESPN, Falk disse que Jordan "queria que a história fosse contada". O que realmente aconteceu foi uma oportunidade de ele contar sua própria história. Bom, se a produtora de LeBron passasse anos e anos produzindo um documentário de dez horas que mostrasse por que ele é o maior jogador de todos os tempos, você acreditaria?

O objetivo deste artigo não é debater a respeito do melhor jogador do mundo, mas sim não permitir que uma narrativa naturalmente tendenciosa sobre a carreira de um dos candidatos a esse posto dê um ponto final para esse debate.

"The Last Dance" leva Michael Jordan a milhões de pessoas, para ver, ouvir e sentir o atleta de uma maneira que, até agora, não havia sido possível. Como no olhar dele quando sentia desrespeito, as lágrimas e os sentimentos que externava. o monólogo sincero que fechou o sétimo episódio.

Como Falk disse, o documentário é uma viagem única à "mente" de Jordan e "sua relação com o jogo, concentração e devoção inigualáveis".

O documentário também é uma visão subjetiva sobre um fragmento da história do basquete. E essa perspectiva é válida. Porém, considerando de quem ela vem, não podemos deixar que ela se torne a perspectiva definitiva e absoluta.

Siga o Yahoo Esportes no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.