Território, diplomacia e brigas em campo fazem de Argentina x Chile mais que um jogo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diego Maradona sempre se considerou traído por Julio Grondona, ex-presidente da AFA (Associação do Futebol Argentino) morto em 2014. Tudo por causa da final da Copa do Mundo de 1990, quando a Argentina foi derrotada pela Alemanha após a marcação de um pênalti duvidoso.

Para ilustrar sua revolta com o que considerou uma armação feita pela Fifa com o apoio do dirigente, usou comparação que, para seus compatriotas, não precisava ser explicada.

"Grondona nos entregou como o Chile fez nas Malvinas."

Em busca de votos na eleição presidencial chilena do ano passado, o candidato pelo Partido Republicano, José Antonio Kast, encontrou um alvo fácil.

"A Argentina era um país europeu. Hoje parece um documentário da National Geographic", disse.

A expressão "mais que um jogo" já foi tão usada que se tornou chavão no futebol. Mas Chile e Argentina, adversários nesta quinta-feira (27), às 21h15, fazem uma das partidas de maior rivalidade do planeta por motivos que vão muito além do que acontece em campo.

O confronto, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo deste ano, será em Calama. Em segundo lugar, a Argentina já está classificada para o Mundial no Qatar. Na sexta posição, o Chile corre risco. Classificam-se os quatro melhores. O quinto vai disputar a repescagem.

Lionel Messi, lesionado, ficou fora da convocação. Não vai ter um reencontro com Gary Medel, defensor chileno com quem protagonizou troca de empurrões na disputa pelo terceiro lugar na Copa América de 2019. Os dois acabaram expulsos e o argentino, revoltado, criticou a organização do torneio. Disse, entre outras coisas, que tudo estava armado para o Brasil ser campeão.

Se a amizade nunca prevaleceu em campo, a animosidade entre as equipes ficou mais acentuada a partir de 2007, quando fizeram a semifinal do Mundial sub-20, no Canadá. O Chile já tinha jogadores que depois seriam referência do elenco principal, como Medel, Arturo Vidal, Alexis Sánchez e Mauricio Isla. A Argentina contava com Sergio Romero, Ángel Di María, Sergio Agüero, Papu Gómez e ganhou por 3 a 0.

O que ficou do confronto foi a violência. O Chile teve dois expulsos e atletas das duas seleções disseram estar ansiosos por novos encontros para acerto de contas.

"Acho importante ressaltar que se trata de um jogo de futebol. Não uma guerra. Há muito envolvido. É preciso ter calma", pediu o volante argentino Javier Mascherano antes da final da Copa América de 2015, contra os chilenos, em Santiago.

Em um clima tenso, o time da casa conquistou o torneio continental pela primeira vez em sua história, nos pênaltis. Voltaria a fazer o mesmo no ano seguinte, nos Estados Unidos, também diante da Argentina. Partida que acarretou no anúncio de Messi de que não jogaria mais por sua seleção. Ele depois mudou de ideia, mas foi a vingança desejada pelos torcedores rivais.

Nas duas finais, a equipe venceu com técnicos argentinos: Jorge Sampaoli (2015) e Juan Antonio Pizzi (20Os vizinhos já haviam protagonizado batalhas históricas em campo antes disso. A maior de todas foi a semifinal da Libertadores de 1991, entre Boca Juniors e Colo Colo, disputada na capital chilena. Em um jogo que ficou eternizado como "A Batalha de Macul", com dezenas de pessoas à beira do campo, inclusive policiais disfarçados de fotógrafos, os donos da casa se classificaram.

Os jogadores do time argentino brigaram com os atletas adversários, os policiais e os profissionais credenciados para fotografarem o jogo. O treinador uruguaio Óscar Tabárez (do Boca) saiu com o rosto ensanguentado. O goleiro Navarro Montoya foi mordido por um cachorro da polícia.

Em 2015, os argentinos que foram à Copa América criaram e cantaram uma música que as autoridades consideraram ofensiva. A letra zombava do terremoto de Coquimbo, acontecido naquele ano e que provocou tsunami na costa chilena. A canção terminava com o conselho para que os inimigos pedissem aos ingleses que os ensinassem a nadar.

Este é um dos motivos que provoca rancor entre as duas nações fora de campo. Na Guerra das Malvinas, entre Argentina e Reino Unido, há 40 anos, o Chile colaborou com os britânicos e ofereceu suas bases aéreas. Após a vitória, a primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013) agradeceu ao ditador Augusto Pinochet (1915-2006) pelas "informações, comunicação e acolhida" às forças inglesas.

Muitos argentinos se referem aos vizinhos como "traidores" por causa disso.

"Hoje, a cada segundo que passa somos maiores. Fomos ao Azteca e saímos campeões do mundo. Não fomos jogar contra o Chile. Fomos lá e ganhamos da Alemanha", disse Maradona em áudio para seus antigos companheiros de seleção ao lembrar o título de 1986 no México.

Os argentinos citam que o vizinho não tem nenhum Mundial e sequer chegou a uma final. A resposta vem com as duas vitórias recentes em decisões da Copa América.

A inimizade é também territorial. Eles compartilham a terceira fronteira terrestre mais longa do mundo, com cerca de 5.300 quilômetros de norte a sul na Cordilheira dos Andes até o extremo sul da América.

"As relações diplomáticas entre os dois países aconteceram durante décadas sob desconfiança porque em cada nação se ensinou nos livros de história que o vizinho é expansionista e usurpador de território", escreveu Pablo Lacoste, professor e diretor do Centro de Estudos Trasandinos da Universidade Nacional de Cuyo, na Argentina.

Isso continua. O governo do Chile decidiu estender seus limites marítimos no ano passado. A Argentina reagiu e disse ser uma apropriação de uma zona que lhe pertence. Ambos alegam serem donos de 5.500 km quadrados na região da passagem de Drake, que separa a América do Sul e a Antártida.

Por motivo semelhante quase entraram em guerra em 1978. O conflito só foi evitado pela mediação do papa João Paulo II e resultou no Tratado de Paz e Amizade, assinado em 1984. As nações se comprometiam a resolver suas diferenças de forma pacífica.

É difícil encontrar harmonia. Para os andinos, a Argentina ficou com grande parte da Patagônia por meio de extorsão. Em 1881, o governo do país deu à Argentina um milhão de quilômetros quadrados naquela região apenas para mantê-la neutra na Guerra do Pacífico, que o Chile travava contra Peru e Bolívia.

No passado, livros de história usados por alunos na Argentina diziam que até 1810, grande parte do território que hoje é o sul do Chile pertencia ao vice-reinado do Rio da Prata, o que teria sido ratificado por tratado assinado em 1856, mas dominado mesmo assim pelos chilenos.

O clássico, na visão dos jogadores, começou nesta quarta-feira (26) à noite. Os argentinos reclamaram por ficarem retidos por mais de uma hora no aeroporto de Calama. Disseram não haver funcionários para inspecionar as bagagens e realizar os trâmites contra a Covid-19. Com teste positivo, o técnico Lionel Scaloni não poderá dirigir a equipe.

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