TCU desenha em números a incompetência federal no combate à pandemia

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Desenho em um muro no Rio de Janeiro retrata desempenho de Jair Bolsonaro no combate à pandemia. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)
Desenho em um muro no Rio de Janeiro retrata desempenho de Jair Bolsonaro no combate à pandemia. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)

Com três ministros em pouco mais de quatro meses de pandemia, o Ministério da Saúde gastou apenas 29% da verba emergencial prevista no combate ao coronavírus. Do total de R$ 38,4 bilhões prometidos, segundo o Tribunal de Contas da União, apenas R$ 11,4 bilhões saíram dos cofres federais até 25 de junho.

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Seria um clássico case de boa gestão dos recursos públicos se, a essa altura do campeonato, Jair Bolsonaro pudesse dizer que conseguiu evitar o morticínio apenas otimizando os investimentos. Não é o caso.

Na terça-feira 22, quando foi divulgado o relatório do TCU, o Brasil registrou novo recorde de casos em 24 horas: 65.339. No mesmo dia, 1.293 mortes por covid-19 foram confirmadas.

O número de pessoas diagnosticadas num só dia não caberia nas arquibancadas da Arena Corinthians, com capacidade para 49 mil torcedores. 

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Foi lá que Palmeiras e Corinthians se enfrentaram pela primeira vez desde o início da pandemia, para emoção de um comentarista esportivo que relatou a alegria de ver os rostos de torcedores estampados em bonecos na arquibancada como se a sensação de normalidade fosse capaz de encobrir, ao menos por 90 minutos mais acréscimos, que o número oficial de mortos na pandemia (83 mil) poderia encher quase duas arenas daquela só de corpos empilhados.

Genocídio, morticínio, irresponsabilidade, idiotice: o que não falta no dicionário é palavra certa, para doutor e general não reclamar, quando a história for contada.

O comandante em chefe da missão passou os últimos meses minimizando riscos, provocando aglomeração, sabotando esforços para a única medida eficaz de contenção, adotada por países que a essa hora já saíram do isolamento, e apostando em remédios de serventia nula, segundo os estudos mais recentes, para convencer os súditos de que todos vão morrer um dia, o importante era conter a histeria.

Bolsonaro demorou para entender que, num momento histórico, como as guerras, a comunicação é a arma mais precisa para enfrentar o inimigo. Em vez de andar de jet ski ou passear de cavalo, faria melhor se pedisse para exibirem na sala de cinema particular do Alvorada “O Discurso do Rei”, filme vencedor do Oscar de 2011.

Em suas redes, Bolsonaro costuma dizer que enquanto os inimigos criticam, ele trabalha. De fato, dá muito trabalho remontar um governo dilacerado pela ignorância e a arrogância. Não deve ser fácil dedicar tempo e atenção a uma gripezinha quando assuntos urgentes precisam ser resolvidos antes da publicação do Diário Oficial, como a escolha dos substitutos de Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich, Sergio Moro, Regina Duarte, Abraham Weintraub, Carlos Decotelli, Mansueto de Almeida, dos chefes da Polícia Federal e das lideranças no Congresso que foram queimadas e jogadas ao mar conforme a crise avança.

Sob comando de um general do Exército especializado em logística, o Ministério da Saúde não conseguiu fazer chegar  ⅔ de toda a verba prometida para conter a epidemia ainda em março. Faltam testes, falta monitoramento; sobram caixas de cloroquina que o presidente, agora infectado, tenta vender como solução numa espécie de saldão para evitar a vergonha do encalhe.

O ritmo da aplicação dos recursos levou o MPF (Ministério Público Federal) a abrir um inquérito para apurar possíveis insuficiência, lentidão e omissão no socorro financeiro aos estados e municípios.

Parece ser uma hora perfeita mesmo para reunir esforços e debater reformas econômicas, como quem aproveita a atenção midiática na pandemia para passar a “boiada”.

Com muita sorte os brasileiros estarão ocupados demais discutindo futebol.

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