Tatuagens contam as histórias de vida dos defensores Rodriguez e Akanji, da Suíça, rival do Brasil na Copa

Ricardo Rodriguez e Manuel Akanji, titulares da defesa da Suíça, levam na pele duas lembranças de como a vida poderia tê-los carregado para caminhos distintos do que se encontram hoje, quando enfrentarão o Brasil pela segunda rodada da Copa do Mundo do Catar. As tatuagens com a imagem de uma santa, no braço direito do lateral-esquerdo Rodriguez, e de uma coroa, no antebraço esquerdo do zagueiro Akanji, explicam duas trajetórias pouco convencionais que viraram pilares da seleção do técnico Murat Yakin.

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Filho de um chileno e de uma espanhola, Rodriguez nasceu em Zurique numa família de jogadores de futebol -- seu irmão mais velho, Roberto, e o caçula, Francisco, atuam profissionalmente em clubes suíços. Ricardo, de 30 anos, foi o que chegou mais longe na carreira, disputando hoje sua segunda Copa do Mundo e atuando no futebol italiano, pelo Torino, após uma passagem pelo Milan. O feito é ainda mais impressionante para alguém que, antes mesmo de nascer, chegou a ser desenganado por médicos.

Rodriguez desenvolveu uma hérnia de diafragma, doença congênita que pode levar órgãos como estômago, fígado e intestino a se alojarem na cavidade torácica. Sua mãe, Marcela, foi informada de que o filho precisaria passar por cirurgia logo ao nascer, e que tinha 50% de chance de não sobreviver. Até os três anos de idade, segundo Marcela -- em declarações reproduzidas pelo jornal inglês The Guardian antes da Copa de 2018 --, Rodriguez precisava ir ao hospital a cada seis meses para uma bateria de exames, e não podia "sequer pegar um resfriado, porque seria muito arriscado".

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-- Quando eu estava doente, me trouxeram no hospital uma imagem de Nossa Senhora com uma oração. Desde então, essa imagem sempre ficou comigo -- lembrou Rodriguez, em 2017, em entrevista ao jornal italiano Gazzetta dello Sport.

A imagem, que teria sido levada por um tio de Rodriguez, ficou tão marcada para o jogador e sua família em sua recuperação que ele decidiu tatuá-la no braço direito, junto com a oração em italiano, quando completou 18 anos. "Nossa Senhora fez um bom trabalho", disse a mãe de Rodriguez à época.

Mais recentemente, o lateral suíço passou a carregar no mesmo braço o rosto de sua mãe, vítima de um câncer em 2015. Ele também tatuou no pescoço as iniciais do pai, José, e da mãe, Marcela.

Na estreia da Suíça na Copa do Mundo do Catar, com uma vitória por 1 a 0 sobre Camarões, Rodriguez era um dos remanescentes do time titular que chegou às oitavas de final no Mundial da Rússia, há quatro anos. Ao seu lado, na zaga, havia outro remanescente, Akaji, que também tem a própria origem à flor da pele.

Filho de uma suíça e de um nigeriano, Akanji ascendeu nos últimos anos a um papel de liderança e renome na seleção da Suíça. Contratado neste ano pelo Manchester City, do técnico Pep Guardiola, o zagueiro de 27 anos combina agilidade, técnica e senso de posicionamento apurado na defesa. Com o amadurecimento dentro de campo, vieram também posicionamentos firmes fora dele.

Em 2020, no auge dos protestos nos Estados Unidos após o assassinato de George Floy -- homem, negro, que foi vítima de uma abordagem policial violenta -- Akanji declarou à TV alemã SRF que o racismo "é um problema diário não apenas nos EUA, mas também na Suíça e na Alemanha", país onde atuava à época, pelo Borussia Dortmund. A irmã mais velha de Akanji, Sarah, é ativista política e deputada estadual em Zurique, além de ser jogadora de futebol do FC Winterthur.

-- Muitas pessoas me disseram (depois dessa entrevista): "Você é um jogador de futebol, atenha-se aos assuntos que você conhece". Então não posso ter opiniões sendo jogador? Muito pelo contrário. Eu quero usar minha voz com sabedoria, especialmente em relação a assuntos como discriminação -- afirmou o zagueiro suíço ao site oficial do Borussia Dortmund.

À época, Akanji já carregava no braço a tatuagem que simboliza o orgulho de suas origens. A coroa no antebraço esquerdo tem relação direta com seu nome do meio, Obafemi, que significa "amado pelo rei" na língua iorubá, um dos principais grupos étnicos da Nigéria. Nas redes sociais, o zagueiro suíço se identifica com o nome Obafemi.

Em uma entrevista após a eliminação da Suíça na Copa de 2018, Akanji surpreendeu ao afirmar que nunca foi chamado para atuar pela seleção da Nigéria -- para a qual seria elegível, por conta de seu pai --, e que não saberia qual seria sua decisão neste caso.

-- A Nigéria nunca me procurou. Por qual país jogar não foi uma questão para mim, porque a Suíça me chamou e nunca ouvi nada da Nigéria. Não sei (como reagiria a um chamado da Nigéria), porque eles nunca me chamaram. Mas não acho que eu sinta nenhum arrependimento por ter escolhido a Suíça. Nós passamos às oitavas de final, e a Nigéria, não -- disse Akanji ao jornal nigeriano "Punch", citando a eliminação da seleção nigeriana na fase de grupos daquele Mundial.

Como optou pela Suíça, Akanji disputa agora sua segunda Copa do Mundo -- a Nigéria não se classificou para o Catar -- de olho em um futuro ainda mais brilhante. Mas sem abandonar as lições mais valiosas do passado.