Tamara Klink navega por 9 mil km, escreve dois livros e planeja mais

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*arquivo* SAO PAULO, SP, BRASIL, 27/06/2015 - Tamara Klink, filha do velejador Amyr Klink. Foto: Greg Salibian/Folhapress
*arquivo* SAO PAULO, SP, BRASIL, 27/06/2015 - Tamara Klink, filha do velejador Amyr Klink. Foto: Greg Salibian/Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No breu da noite de Recife, próximo à costa, Tamara Klink, 24, ouviu o barulho do motor da lancha que se aproximava. Depois escutou a voz da mãe, Marina, horrorizada:

"Meu Deus do céu, Tamara! Esse barco é muito pequeno!"

O complemento foi da irmã Laura.

"E não é nada seguro."

Ela poderia ficar triste por ter sido essa a recepção após três meses a atravessar sozinha 5,6 milhas (9 mil quilômetros) do Oceano Atlântico. Ou não se importar com isso e estar feliz por ter chegado.

O que ela sentiu foi orgulho.

"Meu pai disse depois ter ficado impressionado porque a principal manilha do barco [peça que serve para unir ou fixar cabos] era menor do que a que ele usa no chaveiro. Foi neste momento que percebi. Aquele caminho era meu. O meu barco era pequeno, mas para mim era gigante porque era minha escola infinita", explica.

O pai é Amyr Klink, o mais famoso velejador brasileiro, a primeira pessoa a fazer a travessia do Atlântico Sul a remo e com diferentes expedições marítimas nas últimas décadas. Viagens que o transformaram também em escritor.

Tamara foi a mais jovem navegadora do país a atravessar o Atlântico sozinha. Saiu de Lorient, na França, em agosto, e chegou ao Recife no início deste mês a bordo de veleiro que chamou, por sugestão da avó Ana, de "Sardinha". Isso por ser pequeno, resiliente e estar em todos os lugares.

Foi com essa embarcação, comprada graças ao empréstimo de um amigo, que ela fez sua primeira aventura solitária. Navegou da Noruega à França no ano passado.

A viagem rendeu dois livros. "Mil Milhas" é o seu diário desse período. "Um Mundo em Poucas Linhas" são suas poesias. Serão lançados em dezembro pela editora Peirópolis.

"São poemas sobre crescer", como ela definiu. Tamara deixa claro o tempo todo que as travessias são processos de aprendizagem pessoal. Uma maneira de descobrir seus limites. Ou perceber que eles não existem.

"Depois da viagem eu peguei o diário e comecei a olhar para ele com carinho. Os poemas nasceram primeiro. Em algum momento talvez tivesse sentido escrever sobre o processo de crescer, de ir atrás de um sonho. De começar a construir perguntas que só nós mesmos podemos responder. É a tentativa impossível de fazer o mundo caber em poucas linhas", afirma.

Não era difícil perceber que seu caminho seria escrever livros. Amyr já a havia cobrado quanto a isso. Toda sua família imaginava que ia acontecer. Os pensamentos lhe vêm de maneira fácil quando conversa. Não parece fazer esforço. Tamara Klink fala mais com os olhos do que com palavras ao contar uma história.

Eles se arregalam quando explica como ficou 30 horas obrigada a segurar no leme do barco, sem tirar as mãos, porque senão voltaria para trás. Ou quando a vela da proa enrolou no cabo de aço. Ela teve de subir no mastro para desfazer o nó.

"Fiquei assustada. Ficava só com os pés balançando em cima da água. Minha vida estava suspensa por um fio. Se o cabo estivesse partido em algum ponto e se soltasse, eu cairia e a viagem terminaria."

Pendurada e a tentar desenrolar a vela, teve um dos raros momentos da viagem em que a pergunta "o que estou fazendo aqui?" passou pela sua cabeça.

Na média, ela calcula ter dormido três ou quatro horas por noite. Em várias delas, ficou acordada. Passou por áreas com histórico de ataques de orcas, casos de pirataria e esteve na região de La Palma quando o vulcão Cumbre Vieja entrou em erupção. Sardinha chegou no Recife avariado e com o piloto automático sem funcionar, o que dificultava a atracação.

Por causa dos problemas de comunicação, recebia boletins meteorológicos referentes ao dia anterior.

Algumas dificuldades já estavam previstas também por ser um barco pequeno, de pouco mais de oito metros de comprimento. Tamara rejeitou todas as sugestões de que deveria trocá-lo para cruzar o Atlântico. Para quê? Ela havia levado tanto tempo para dominá-lo e não iria mudar.

Ou como sua avó Ana se acostumou a dizer quando ouvia Amyr Klink comentar sobre o tamanho da embarcação: "Não desfaça das coisas que não foi você quem comprou".

"Quando a gente termina a viagem, olha para trás e vê tudo o que viveu, percebe que era capaz de passar por esses problemas. Antes de iniciar, se tivesse uma bola de cristal que me mostrasse os problemas, talvez não tivesse partido. A distância exige mais do seu emocional. Aumenta a sua capacidade de se frustrar, sentir dor, sofrer."

De novo ela volta, como em círculos, ao tema principal: trata-se um crescimento.

A sua capacidade foi levada ao limite ao se aproximar da linha do Equador e encontrar o fenômeno chamado de Pirajá. São nuvens escuras que trazem chuvas fortes acompanhadas de muito vento. A correria de fazer todo o trabalho manual no barco e se preocupar com a vela a deixou exausta física e emocionalmente.

"Quando a gente está exausto, perde a capacidade de decisão. Mas percebi que só eu poderia me tirar de lá. Ninguém estaria no leme se precisasse dormir, ninguém puxaria os panos, ninguém conduziria o barco. Tinha de ser eu."

Em suas redes sociais, atualizadas por uma amiga que estava em terra, ela começou a receber mensagens de pessoas que se inspiraram na sua aventura. Gente que queria também viajar, mudar de cidade, casar, ter filhos, mas precisava de um exemplo de coragem. Tamara Klink constatou ter se transformado em uma modelo, especialmente para mulheres.

"As meninas que querem fazer isso, que façam. Que possam comandar os seus barcos e sejam protagonistas. Talvez elas se sintam tocadas por eu ter conseguido, mas me inspirei em outras mulheres que vieram antes de mim. Cresci com a imagem de pessoas do mar que eram duras, bravas, intolerantes e homens. Quando comecei a sonhar a navegar, pensei em como eu poderia ser um homem do mar, se nem homem era?"

Tamara sorri com a lembrança. Com a boca e com os olhos.

"Eu ter tido a chance de fazer essa viagem e sendo uma mulher que ri, brinca, escreve textos sem medo de dizer que tem medo, mostra que a gente não precisa ter superpoderes para fazer coisas que têm vontade, realizar sonhos."

E o próximo sonho é outra viagem. Ela diz apenas ser "mais para o sul, descer algumas latitudes". Se há um destino definido, prefere não falar. Será sem o Sardinha. Reconhece ter chegado a hora de não se apegar mais a um objeto. Vai precisar de um barco maior.

Outras travessias renderão novos livros. Estes serão as viagens mais longas de todas, porque para ela, terão de ser eternos.

"Sou bem filha do meu pai. Sou da escola que tem preocupação com a eternidade dos livros", define Tamara, por considerar que o que escreve precisa durar mais do que as travessias pelos oceanos.

"As palavras viajam para mais longe do que eu."

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