Taiwan pode virar bode expiatório para problemas domésticos da China, diz chanceler

TAIPÉ, TAIWAN (FOLHAPRESS) - A desaceleração da economia chinesa, em parte devido às restrições impostas pela política da Covid zero, poderia ser uma boa notícia para Taiwan, que vê o país asiático como maior ameaça à sua soberania.

Mas Joseph Wu, chanceler da ilha que Pequim considera uma província rebelde, não vê a situação dessa maneira. Para o ministro das Relações Exteriores, quanto maior a instabilidade social na China, maior o risco de que seu líder, Xi Jinping, recorra à ideia de invadir Taiwan, no que seria uma estratégia para desviar a atenção dos problemas domésticos --tática usada muitas vezes pelos EUA no passado.

Durante pouco mais de uma hora, Wu respondeu, na sede da chancelaria, em Taipé, a perguntas de um grupo de 32 jornalistas de diferentes partes do mundo, do Chile à Alemanha, da ilha de Tuvalu à África do Sul, da Austrália ao Brasil. Na única resposta mais curta da entrevista, foi seco ao dizer quais as expectativas de Taiwan diante do futuro governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT): "Ele é de esquerda, por isso não esperamos muito dele em termos de mudanças nas relações".

PERGUNTA - O senhor acha que Xi está sendo racional ou apenas conduzido pela própria retórica? É preciso levar as declarações dele sobre uso da força contra Taiwan a sério ou é algo que deve ser ignorado porque ele terá cuidado com as consequências econômicas?

JOSEPH WU - A China é um país autoritário, e seu mecanismo de decisão é muito fechado. Para qualquer pessoa fora do governo é difícil entender o que se passa dentro dele. Mas olhando para o último Congresso do PC Chinês, há algumas conclusões. Xi parece ter dado mais ênfase à maneira com que o governo chinês vem falando sobre o uso de força e sobre como Taiwan é uma questão eterna da China, o que nos faz pensar que eles querem intensificar um lado mais romântico [do problema].

Também temos prestado atenção à composição do grupo de líderes de mais alto nível. Todas as diferentes facções [do PCCh] estão sendo escanteadas, e você certamente acompanhou as imagens do ex-líder chinês Hu Jintao sendo retirado enquanto as câmeras o filmavam no congresso --mostra que Xi só quer manter seus quadros de confiança na cúpula decisória. O problema nesse caso é que esse arranjo não permite diferentes opiniões ou avaliações honestas dentro do grupo que toma as decisões.

Mas estamos mais preocupados com o front econômico. O governo chinês parece determinado a manter a política de Covid zero, o que está diminuindo o ritmo da economia chinesa. Você pode pensar que poderia ser bom ver a economia da China desacelerar no momento em que dá uma forte resposta a Taiwan, mas não, porque isso leva a uma deterioração da estabilidade social. Quando um governo autoritário não consegue manejar a estabilidade interna, pode querer criar uma crise externa para desviar a atenção e manter a população unida. Assim, Taiwan pode se tornar um bode expiatório.

O Ocidente em geral está cada vez mais cansado da Guerra da Ucrânia e de suas consequências econômicas. Se houvesse uma pressão sobre a Ucrânia para algum tipo de acordo, com Putin absorvendo parte do território do país, como isso poderia influenciar a decisão de Xi de invadir Taiwan?

J. W. - Se assumirmos que a Rússia será exitosa na anexação de partes do leste e do sul da Ucrânia sem muitas punições do resto do mundo, será uma repetição do que aconteceu em 2014, quando Moscou anexou a Crimeia, e isso encorajaria governantes autoritários. Até agora, o governo chinês está vendo que as democracias pelo mundo têm se mantido unidas, o que será uma forte dissuasão devido à forte ideia de que eles não estão lidando apenas com Taiwan.

O segundo vetor é que o governo chinês também precisa observar por que as tropas russas estão se enfraquecendo no campo de batalha, e, se eles chegarem à conclusão de que uma invasão terá incertezas e que o resultado pode não ser o que havia sido desenhado, pensarão duas vezes sobre o uso de força militar contra Taiwan. Mas a China também pode chegar a uma conclusão errada sobre o fracasso dos russos e pensar que é mais forte do que eles. Essas serão as respostas para o resto do mundo.

Em caso de uma invasão, os EUA irão de fato defender Taiwan?

J. W. - Muitas pessoas nos perguntam sobre a possibilidade de os EUA enviarem soldados para Taiwan, mas isso é algo que tentamos explicar para a comunidade internacional e aos americanos: defender Taiwan é uma responsabilidade de Taiwan, e se não estivermos determinados a nos defender, não temos o direito de pedir aos outros que nos ajudem. Mas, no processo de preparação das nossas capacidades de autodefesa, precisaremos da ajuda dos EUA ou de outros países com a mesma mentalidade para prover as armas de defesa necessárias, colaborações de segurança ou em discussões sérias sobre como podemos nos preparar melhor para um cenário militar.

Qual a probabilidade de uma guerra em Taiwan se tornar uma Terceira Guerra Mundial?

J. W. - É difícil pensar nessa situação hipotética. A esperança da população em Taiwan ou de líderes sérios de democracias é que não devemos deixar uma guerra acontecer nesta parte do mundo. E, se houver uma guerra, será um desastre para Taiwan. Mas a China também sofrerá, porque não estamos desprotegidos, e as democracias vão encontrar uma maneira de aplicar sanções para que Pequim sofra as consequências de suas ações.

Um ângulo possível são as consequências econômicas de um conflito aqui. Muito se fala sobre a indústria de semicondutores, e Taiwan produz 63% da fabricação global --para semicondutores de alta qualidade, 91%, 92% do total no mundo. Se a cadeia de suprimentos de semicondutores for interrompida, haveria um grande impacto na economia global.

Se voltarmos para o início da pandemia de Covid, montadoras nos EUA, na Alemanha e no Japão fizeram cálculos errados pensando que a demanda de novos carros iria diminuir e, por isso, pediram uma quantidade menor de chips e semicondutores. Mas as vendas subiram, e houve uma séria falta de peças do tipo que vêm de Taiwan. Ou seja, a melhor maneira de evitar a interrupção da cadeia de suprimentos de semicondutores é fazer com que a comunidade internacional diga para a China não invadir Taiwan.

O senhor vê a repressão aos protestos em Hong Kong como um ponto de virada ou até mesmo um chamado de alerta para os esforços de Taiwan em se defender?

J. W. - Não descreveria Hong Kong como um chamado de alerta para Taiwan. A situação que começou em 2019 e levou à imposição da Lei de Segurança Nacional foi um alerta para muitos outros países. Os chineses querem usar Hong Kong como uma vitrine para atrair os taiwaneses a aceitar o arranjo de "um país, dois sistemas", mas pesquisas de opinião do governo mostram que entre 75% e 80% da população se opõe a isso. As ações da China em Hong Kong fizeram a população taiwanesa acreditar que as promessas chinesas não são confiáveis.

Eles prometeram que nada mudaria dentro de 50 anos, que Hong Kong desfrutaria de um mercado aberto e de um sistema político semidemocrático, além de imprensa livre. Tudo isso se foi. Mas temos algumas diferenças fundamentais. Já que você está aqui, é fácil observar: temos eleições democráticas e livres, a presidente foi eleita e Taiwan é tão livre que você pode de fato criticar o governo. Você está no prédio do Ministério das Relações Exteriores, nós emitimos passaportes, emitimos vistos, temos uma moeda local, o que é um símbolo forte de soberania. Tudo isso mostra que Taiwan é bem diferente de Hong Kong.

Em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro viajou a Taiwan, o que gerou grandes expectativas de uma mudança nas relações com o Brasil. Ele foi eleito, mas, quatro anos depois, nada mudou. O que o senhor espera do presidente eleito Lula?

J. W. - O novo presidente é de esquerda, e por isso não esperamos muito dele em termos de mudanças nas relações, mas os elos culturais e econômicos continuarão.

Raio-x | Joseph Wu, 68

Ministro das Relações Exteriores, é doutor e mestre em ciência política pela Ohio State University e pela University of Missouri-St. Louis, respectivamente, ambas nos EUA. Antes de chefiar a chancelaria, foi chefe de gabinete da presidente Tsai Ing-wen e secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional.

O jornalista viajou a convite do Ministério de Relações Exteriores de Taiwan.