Tabu durante muito tempo, depressão entre esportistas deixa as sombras

Déborah CLAUDE
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Nesta foto de arquivo de 7 de dezembro de 2019, a francesa Beryl Gastaldello se prepara para competir na semifinal feminina dos 50m costas no Campeonato Europeu de Natação de piscina curta em Glasgow

Tema tabu há muito tempo entre os atletas, a depressão aos poucos vai saindo das sombras. Cada vez mais pessoas dizem que se sentem mal, também um sinal de melhor gerenciamento dos problemas psicológicos, algo necessário para passar por uma pandemia de covid-19 que parece não ir embora no curto prazo.

A nadadora francesa Béryl Gastaldello, de 25 anos, mergulhou em uma forte depressão em 2018. "Caí muito, muito lá em baixo. Não tinha mais controle sobre meu corpo. Recebi medicamentos prescritos", confidenciou ela há alguns meses.

Esse depoimento de uma atleta na metade de sua carreira, com chances de participar dos Jogos Olímpicos de Tóquio, ainda é bastante raro.

O tenista australiano Nick Kyrgios, de 25 anos, revelou recentemente sua "situação triste e solitária" enquanto lutava contra a depressão causada pelo ritmo avassalador do circuito ATP. O jogador de basquete americano Kevin Love também tornou pública sua ansiedade e depressão.

Mas na maioria das vezes é após a aposentadoria que os atletas falam sobre a situação que viveram, como o multi-medalhista olímpico Michael Phelps.

"Eles se abriram muito, os atletas concordam em falar um pouco mais do que sentem. São humanos, não robôs", disse à AFP Cécilia Delage, psicóloga esportiva que acompanha jogadores de futebol do Lens, mas também saltadores e esquiadores.

"Esportes de elite não rimam especialmente com a saúde mental", lembra Makis Chamalidis, também psicólogo esportivo. "Sentindo-se em uma missão", eles podem oscilar entre "os extremos" e ir da "onipotência" da vitória para o "'sou péssimo'" do fracasso, explica ele.

O fim de uma carreira ou uma lesão que dura muito tempo também podem ser momentos difíceis.

No INSEP, instituto francês do esporte e da performance, onde crescem os campeões em potencial, a equipe de psicólogos tem aumentado nos últimos anos.

"Temos cada vez mais pedidos de apoio de atletas com uma dupla dimensão: ajuda psicológica e de rendimento", explica Anaëlle Malberbe, uma das cinco psicólogas. "Os treinadores são mais abertos sobre esse assunto", diz ele.

"O freio é: 'você é um atleta de alto nível, não tem o direito de falhar'. Isso é falso", descreve. O jogador de rúgbi da Nova Zelândia, John Kirwan, que sofria de depressão, deu a seu livro o título: "All Blacks Don't Cry" (Os 'All Blacks' não choram).

Transtornos de ansiedade, episódios depressivos, problemas de comportamento alimentar, vícios... "o atleta pode encontrar os mesmos problemas que todo mundo", explica Malherbe.

Dentro da população, uma pessoa em cada cinco sofre ou sofrerá de depressão durante a vida.

Desde 2006, atletas de elite fazem uma entrevista psicológica por ano, duas se forem menores de idade, como parte do acompanhamento médico.

- Risco de excesso de treinamento -

Existem esportes que são mais duros psicologicamente?

"Existem esportes onde há uma carga de treinamento forte, como natação, ginástica, tênis de mesa", explica Malherbe, com risco de "overtraining" (ou treinamento excessivo), a variante do 'burn out' o desgaste profissional entre os atletas.

"Chutar uma bola não é o mesmo que contar os ladrilhos ao nadar 15 km por dia", aprofunda Chamalidis, citando a "solidão" dos "esportes de repetição".

O nadador francês Yannick Agnel, vítima de um 'burn out', disse no ano passado que lamentava não ter se beneficiado de apoio psicológico suficiente.

"No futebol, há muitos jogadores e poucas vagas, encontramos jovens que investem muito em seus treinos e não conseguem", explica Delage.

Um ponto positivo, diz ela, é o fato de os psicólogos do esporte agora serem "identificados como uma necessidade e integrados à comissão técnica", o que permite a prevenção.

Chamalidis também menciona a vida agitada dos treinadores, “que viajam muito, longe das famílias, espremidos como limões (...)" resultando "numa vida pessoal nem sempre muito equilibrada".

Com a crise da Covid-19, os atletas profissionais foram colocados à prova. Desde o final de novembro, Malherbe observou "mais problemas depressivos menores" entre os atletas, assim como no restante da população devido a competições com periodicidade irregular, um "vínculo social limitado" e, talvez também, parentes afetados pelo vírus.

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