Técnicos aprovam restrição para demitir no Brasileiro, mas fazem ressalvas

ALEX SABINO E LUCIANO TRINDADE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vasco, Botafogo, Goiás e Coritiba seriam atingidos de forma direta se uma regra recém-estabelecida para o Campeonato Brasileiro já valesse na temporada passada. Os quatro rebaixados para a Série B fizeram duas ou mais contratações de técnicos durante o último torneio. Isso não acontecerá em 2021. Caso um time demita o treinador que começou a competição, poderá contratar apenas mais um profissional para o cargo. Se mandar um segundo técnico embora ao longo do campeonato, precisará pôr no lugar alguém que já seja seu funcionário por pelo menos seis meses. Os técnicos terão a possibilidade de pedir as contas apenas uma vez para dirigir outra equipe na disputa. Se forem demitidos, não sofrerão limitações, assim como os clubes estarão livres das restrições em caso de pedido de demissão de treinadores. As regras, que valerão para as Séries A (após aprovação por 11 dos 20 times) e B (18 favoráveis), têm como objetivo dar estabilidade e foram aprovadas com restrições por técnicos ouvidos pela reportagem. Todos passaram por pelo menos uma das quatro equipes que caíram para a segunda divisão. "O futebol brasileiro já tomou outras decisões boas que caíram em solo infértil. O futebol brasileiro é um solo infértil. A ideia é interessante, mas teria de ser acompanhada por outras. É uma decisão fragmentada e não sistêmica. O problema não é só treinador. E o calendário? Enquanto isso não mudar, não creio que nada fará grande diferença", diz Paulo Autuori, que deixou o comando do Botafogo no início de outubro do ano passado e treinou o Athletico. Depois dele, passaram pelo time carioca Bruno Lazaroni, o argentino Ramón Díaz (que não comandou a equipe, na prática, em nenhuma partida) e Eduardo Barroca. O Botafogo terminou na lanterna. "É uma tentativa, um caminho para tentar qualificar não só a escolha [do treinador] como a tomada de decisão de trocá-lo. Poderia ser feito de maneira diferente. Todo empregador tem direito de decidir pelo profissional que quer, se deseja mudar ou não. Mas haveria outras formas para se fazer isso. Teria de obrigar, por exemplo, a poder contratar outro treinador apenas quando pagasse tudo o que deve ao anterior", defende Bruno Lazaroni. Outros fazem a mesma ressalva. Se CBF e clubes desejam moralizar as escolhas e trocas de treinadores, deveriam se preocupar com o pagamento da rescisão. Um dos comandantes do Vasco na última temporada, Vanderlei Luxemburgo questiona até mesmo se a decisão anunciada está nos limites da lei. "Tomara que aconteça, porque já estamos buscando isso há muito tempo. Mas não é exequível. Não sei se funciona. A Constituição não permite cercear o direito de ninguém [de trabalhar]. Vai ser obrigatório indenizar o técnico que saiu antes de chegar o outro?" pondera ele, um dos três treinadores a comandarem o Vasco no último Brasileiro. O clube, que terminou a competição em 17º, também teve Ramon Menezes e o português Sá Pinto ao longo da competição. "Eu vejo com bons olhos a medida, mas se trata de um ano atípico", afirma Ramon. Ele teme que esta seja mais uma temporada com risco de ficar apertada e restrita pela pandemia da Covid-19. Isso aumentaria as dificuldades de clubes e técnicos. Desempregado que se diz "desesperado" para voltar a trabalhar, Ramon ressalta um aspecto que outros colegas de profissão também consideram benéfico na medida aprovada pelos clubes: dirigentes e treinadores terão de pensar e planejar melhor antes de tomarem decisões. "O presidente, gestor e executivo de futebol precisam estar muito preparados para a tomada de decisão e qual o tipo de profissional desejam buscar. Há uma cobrança muito grande em cima dos treinadores. E os gestores?", questiona. "Vai chegar um momento em que a pressão feita pelas redes sociais, nas manifestações de torcidas organizadas, será diminuída. Até dentro do próprio clube será estimulado o profissionalismo, em um ambiente que é rigorosamente político. A mudança [de técnico] não pode mais acontecer em reunião de conselheiros, em grupos de WhatsApp, com muita gente palpitando", reclama Ney Franco. O treinador foi um dos quatro nomes do Goiás, 18º no último Brasileiro. Demitido após a quarta rodada, foi substituído por Thiago Larghi. Depois chegou Enderson Moreira, que não durou até o final da competição e foi trocado por Augusto César. Mudar de equipe é algo com que Eduardo Barroca se acostumou. Além do Botafogo, ele comandou o Coritiba, rebaixado na penúltima posição. Depois passaram pelo time Jorginho, Rodrigo Santana e o paraguaio Gustavo Morínigo. Barroca identifica e faz ressalvas com relação a alguns efeitos colaterais, como possível demissão em massa após os estaduais e antes do início do Nacional. Mas entra na opinião geral de que a ideia pode dar mais estabilidade à categoria e obrigar que os dirigentes tenham mais responsabilidade na troca de técnicos. "Pode gerar a vontade dos clubes quererem entrar zerados no Brasileiro. Os clubes e os técnicos terão de aprofundar mais suas escolhas. E terão de investir mais em auxiliares fixos de qualidade, já que eles podem assumir a equipe. É preciso observar como serão esses movimentos", avalia Barroca. "É preciso que se crie filtros que tragam benefícios para que os processos tenham lógica e não sejam, como em alguns casos, comandados de fora para dentro", completa.