Técnico supera próprio preconceito para liderar futebol feminino do Chile em Tóquio

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TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) - José Letelier, 55, recorda-se quando sua filha adolescente, hoje com 26 anos, disse querer jogar futebol. "Perguntei por que ela tinha de praticar um esporte que era para homens", lembra ele à Folha.

O ex-goleiro gosta de contar essa história sempre que pode. Serve como penitência para o preconceito que carregava e exemplo aos que ainda pensam assim. Hoje, ele é um dos responsáveis pela geração de ouro do futebol feminino chileno que estreia na Olimpíada de Tóquio nesta quarta (21), às 4h30 (horário de Brasília), contra a Grã-Bretanha, em Sapporo.

"Meu preconceito era totalmente errado. Estou há cinco anos na seleção chilena, e são cinco anos em que o futebol feminino evoluiu, as jogadoras evoluíram e eu também evoluí, como profissional e pessoa."

A trajetória profissional de Letelier é mais marcante entre as mulheres do que nos tempos em que foi goleiro do Colo Colo, a equipe mais popular do país, e do Alianza Lima, do Peru. Ainda que seja a única pessoa da história do futebol sul-americano a ter conquistado a Copa Libertadores masculina e feminina, venceu o campeonato em 1991 apenas como terceiro goleiro do time chileno. Já em 2012, levou, como técnico, a equipe feminina ao título. Também ganhou dez vezes a liga profissional.

Com a liderança em campo da goleira Christiane Endler, que até o mês passado estava no Paris Saint-Germain, Letelier conduziu o Chile pela primeira vez à Copa do Mundo da modalidade. O time caiu na fase de grupos do torneio realizado na França, em 2019. Em abril deste ano, após levar a melhor em playoffs contra Camarões, obteve a inédita classificação para a Olimpíada.

"Quando conseguimos a vaga, disse que essas jogadoras realizaram algo inesquecível pelo futebol chileno e pela minha vida. Tenho um orgulho delas que não posso colocar em palavras", diz Letelier.

A classificação para os Jogos de Tóquio foi turbulenta. A federação chilena teve dificuldade para levar as atletas à Turquia e à Hungria, onde aconteceriam as partidas, devido ao fechamento das fronteiras, fruto da pandemia de Covid-19, que acabou por forçar o adiamento da Olimpíada em um ano.

As dificuldades para a modalidade no Chile são as mesmas de outros países sul-americanos, mesmo no Brasil. Com algumas exceções, os times não têm estrutura, existe grande desigualdade financeira em relação às equipes masculinas e problemas para revelar talentos. Os clubes mantêm apenas as categorias sub-17 e profissional. Não existe trabalho de base.

"Este é o nosso maior problema, o de renovação. Elas precisam começar [a jogar] mais cedo", afirma Letelier, que ressalta vantagens do futebol feminino em relação ao masculino. Segundo ele, os confrontos têm menos simulações de falta e mais preocupação em jogar futebol.

O treinador fica reticente, porém, ao comentar a acusação da qual foi alvo. Em setembro de 2019, a Associação Nacional de Jogadoras de Futebol Feminino apresentou uma denúncia por suposto "comportamento indevido" com uma atleta. Não foi revelada qual jogadora era a responsável pela queixa.

Atletas da seleção, como Christiane Endler e Yanara Aedo, defenderam Letelier em público. Dois meses depois, a associação decidiu que a denúncia era infundada. "Não quero falar sobre isso. É um assunto encerrado, e a verdade prevaleceu", resume o treinador.

Depois da Grã-Bretanha, o Chile enfrentará o Canadá no sábado (24) e o Japão no próximo dia 27, pelo Grupo E. As duas equipes mais bem posicionadas avançam para as quartas de final.

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