Técnico paraguaio fica no Coritiba por honra e está perto da Série A

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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Gustavo Morínigo, 44, já vivia o melhor momento como técnico do Coritiba -na liderança da Série B do Campeonato Brasileiro- quando surpreendeu o empresário Régis Marques Chedid, responsável por levá-lo ao clube em janeiro.

Ele informou que não aceitaria mais nem sequer ouvir propostas para treinar outras equipes até o término da competição. Nem mesmo se elas chegassem da Europa, maior sonho da carreira.

A decisão foi motivada por uma espécie de dívida de honra com o presidente Renato Follador, que morreu em 3 de julho deste ano, aos 67 anos, por complicações da Covid-19.

Morínigo assumiu a equipe a oito rodadas do fim da Série A 2020, na última colocação, em janeiro deste ano. O rebaixamento era inevitável. Ele conta que Follador bancou sua permanência mesmo pressionado após a queda e uma campanha criticada no Campeonato Paranaense -eliminação ainda na primeira fase- pela certeza do acesso.

"Minha família é humilde, mas me ensinou muitos valores. São valores que acompanharam toda a minha carreira como jogador, como treinador, e que nunca quebrei. Prometi a ele que trabalharia muito pelo acesso, então vou honrar até o fim. Avisei para meu representante que não vou falar com ninguém", diz à reportagem.

"Foi como um golpe a sua partida, pois foi uma pessoa que confiou muito em mim. O melhor que posso fazer pelo clube e pela família dele é cumprir minha palavra", completa.

O antigo dirigente viu no técnico paraguaio mais do que uma aposta com curto prazo de validade no país. Ele queria dar ao clube, após a saída de cinco treinadores em 2020, um novo propósito no começo de sua gestão, iniciada neste ano.

"O perfil que procurávamos era o de um técnico jovem de mentalidade, acostumado com tecnologia, que tivesse um modelo de jogo proativo e, acima de tudo, que fosse um profissional de equipe. Nosso projeto é de longo prazo", falou Follador à época.

"O Coritiba foi diferente. O clube me apresentou um projeto bem armado e para ser cumprido a largo prazo. Não gosto de promessas que não tenham fundamentos, que não são sérias", explica o paraguaio.

Ex-meio-campista com passagens por Nacional, Guaraní, Cerro Porteño, Libertad e seleção paraguaia, Morínigo foi apresentado quase como um desconhecido no Brasil. Mas já tinha um currículo de respeito.

Em 2014, conduziu o modesto Nacional do Paraguai a uma campanha histórica na Libertadores. Terminou como vice-campeão, derrotado pelo San Lorenzo na final.

Um ano antes, o segundo da carreira, já havia levado o time ao título do Campeonato Paraguaio com cinco rodadas de antecedência. Foi eleito o melhor técnico do país em 2012, 2013 e 2014.

"O Nacional é o norte para todos os meus trabalhos. Eu terminei a carreira no clube, e 80% dos jogadores do time eram amigos meus. Foi difícil falar a alguns que não continuariam, mas sempre de forma muito honesta e transparente consegui criar relações de confiança incríveis a ponto de, mesmo após minha saída, eles me ligarem para desabafar, para falar sobre a vida", conta.

O trabalho pelo clube, entre 2012 e 2015, foi encerrado quando o profissional foi convidado a assumir a coordenação das categorias de base da Associação Paraguaia de Futebol (APF). Ele queria ensinar.

Passou ainda pelo Cerro Porteño antes de voltar às seleções de base paraguaias. Em 2019, pisou no Brasil para disputar o Mundial sub-17 ainda como um desconhecido.

Morínigo raramente expressa tom mais enervado e carrega o desejo de ensinar e de ver melhoras no futebol. Ele escreve sozinho, sem auxílio de nenhum profissional das letras, um livro sobre ideias próprias de metodologias de trabalho. Ainda não há data para a publicação.

"Sou muito reservado. Tenho quatro filhos e uma saudade enorme da minha família, mas uma convicção que me ajuda bastante no dia a dia", afirma.

Como diretor dos times de base do Paraguai, foi o responsável por dois projetos respeitados no país. O primeiro deles, a criação de uma copa, com moldes semelhantes aos da Copa do Brasil, chamada de Copa Paraguay, disputada desde 2018, apenas em formato eliminatório.

Além disso, exigiu a adaptação de medidas no tamanho do campo, do número de jogadores e das dimensões das traves para criar métodos de disputa mais adequados para crianças em processo de formação no futebol.

"Essas sugestões me orgulham. Minha formação foi se fazendo no dia a dia. Senti uma necessidade de fazer isso, de devolver algo ao futebol", explica.

Natural de Coronel Blas Garay, no interior, mudou-se ainda pequeno para Assunção. Seu pai era militar e é apontado como sua principal influência no relacionamento que tem hoje com jogadores. Tata Martino, com quem trabalhou no Olimpia, foi outro nome importante.

"Meu pai era muito exigente, acredito que foi a maior influência para a minha seriedade. Ele me levantava às 4h, logo cedo, para fazer as coisas com a minha mãe. Precisei trabalhar muito com a família, sou o mais velho dos irmãos", lembra.

"Tata me levou a viver o melhor momento da minha carreira. Aprendi muitas coisas com ele sobre como controlar um grupo, mas digo também que aprendi muito o que não fazer com os que não trabalharam tão corretamente", acrescenta.

Comandado por Morínigo, o Coritiba caminha rumo ao acesso na Série B mais concorrida dos últimos anos, com Vasco, Botafogo, Cruzeiro, Guarani, também campeões nacionais, e outras tradicionais equipes.

Sob o seu comando, o time já lidera há 16 rodadas, desde a 17ª. Desde então, apesar de ameaçado, jamais foi desbancado da primeira colocação. Chegou a abrir cinco pontos de vantagem na 26ª rodada. Hoje, a diferença para o Botafogo, o vice-líder, é de dois pontos.

"Claro que o título é o ideal, todos queremos, mas o foco principal é voltar à primeira divisão. Vamos olhar esse objetivo e depois pensar no maior", promete.

Nesta quarta (3), às 18h30, os alviverdes recebem o Operário em Curitiba.

Morínigo é mais um treinador paraguaio a escrever história no Brasil. Conquistaram títulos nomes como Eduardo Carbô, campeão paranaense pelo Athletico em 1943, Aurélio Munt, campeão pernambucano pelo Náutico em 1945, Fleitas Solich, multicampeão por Flamengo e pelo Bahia nas décadas de 1950, 1960 e 1970, e Rafael Bría, campeão paraense pelo Paysandu em 1957.

Nos gramados, Romerito, pelo Fluminense, e Gamarra, com passagens por Internacional, Corinthians, Flamengo e Palmeiras, também brilharam. Na primeira divisão, há ainda o técnico Gustavo Florentín, contratado em agosto pelo Sport.

"Tenho um foco pessoal de chegar à Europa um dia. Quero chegar para ter êxito e sei que, para isso, preciso estar muito preparado. Gosto muito do futebol italiano, acompanhei muito de menino, é um objetivo pessoal que nunca perdi", conta.

O sonho de Morínigo pode levar o Coritiba ao terceiro título de Série B da sua história e o técnico à prateleira dos nomes almejados no país. Mais do que isso, a dívida de honra a Follador será cumprida.

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