Surpresas da Copa do Brasil, América-MG e Cuiabá apostam em gestão empresarial

CARLOS PETROCILO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Únicos dois representantes de fora da elite nacional nas quartas de final da Copa do Brasil, América-MG e Cuiabá têm em comum a boa campanha na Série B do Campeonato Brasileiro (estão na zona de acesso à Série A) e a aposta em modelos de gestão empresariais para o futebol. No clube mineiro, as tomadas de decisão são responsabilidade de quatro membros do conselho de administração. O da capital mato-grossense é comandado pela família Dresch, de empresários do ramo da borracha. Se guardam semelhanças, as agremiações também possuem várias diferenças entre si. O América nasceu em 1912 e está conduzindo agora o seu processo de conversão para o formato clube-empresa. O Cuiabá já surgiu com essa configuração, em 2001. O principal desafio de mineiros e mato-grossenses nesta temporada é brigar pelo acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. A boa campanha na Copa do Brasil, porém, já trouxe visibilidade e dinheiro. A classificação às quartas de final -quando o América eliminou o Corinthians e o Cuiabá passou pelo Botafogo-- rendeu para cada vencedor R$ 3,3 milhões pagos pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Nesta quarta (11), o time verde-amarelo enfrentará pela primeira vez em sua história o Grêmio, às 19h, pela ida das quartas, na Arena Pantanal. "É um dinheiro que não estava previsto, mas que vai ajudar bastante no orçamento anual do clube", diz Cristiano Dresch, vice-presidente do Cuiabá. América e Internacional jogam às 21h30, no Beira-Rio. Marcus Vinícius Salum, presidente do conselho de administração do clube mineiro, diz que estava previsto no orçamento deste ano uma premiação da CBF por classificações somente até a terceira fase do torneio, algo em torno de R$ 2,7 milhões. Minutos depois de passar pelo Corinthians, o perfil do time fez um post nas redes sociais cobrando a recompensa financeira pela vaga nas quartas: "Alô, CBF! Faz a TED". "Estamos vivendo um ano com perdas de receitas, poucas vendas de atletas, queda de receitas com patrocínio, matchday e gastamos mais com hospedagem e viagens", afirma Salum. A proposta de conversão para o modelo empresarial foi aprovada pelo conselho deliberativo em julho, sob o argumento de que, sem um investidor, o América viverá sempre entre acessos e rebaixamentos. Os americanos acreditam que precisam de, no mínimo, R$ 150 milhões anuais para colocar fim à gangorra entre as Séries A (2016 e 2018) e B (2017 e desde 2019). "O América consegue ter hoje, na Série B, um orçamento de R$ 30 milhões. Na Série A, aumentaríamos para R$ 80 milhões. Parece bom, mas não é compatível porque há muitas despesas, parcelamentos, categorias de base, futebol feminino. Não consigo ser competitivo assim", diz Salum. Para se converter em clube-empresa, os mineiros contrataram a empresa de auditoria e consultoria EY. Primeiro, foi feito um estudo para montar uma estrutura de governança e um levantamento de valores da marca e de ativos do clube. Atualmente, o trabalho é de prospecção de investidores. "O futebol vive um momento de transformação nos últimos anos que é a correlação de gestão financeira, performance e visibilidade. Veja o Manchester City, o PSG, o Chelsea, o RB Leipzig hoje na Champions e antes dos seus investidores", diz Pedro Daniel, diretor-executivo da EY. O América continuará com o mesmo CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa), constituído na Receita Federal em 1969, e como associação privada sem fins lucrativos. O clube e o investidor constituirão uma empresa separada com a finalidade de administrar o departamento de futebol. Com isso, o nome do time, suas cores e o distintivo, além do patrimônio, permanecerão sob domínio da agremiação. O Cuiabá foi criado em 2001 por Luiz Carlos Tóffoli, o ex-atacante conhecido como Gaúcho, morto em 2016 aos 52 anos, vítima de um câncer de próstata. Com dificuldades financeiras, Gaúcho baixou as portas em 2007. A família Dresch, que já havia patrocinado a equipe desde a sua fundação, vislumbrou a possibilidade de buscar lucro com o futebol no momento em que a capital do Mato Grosso foi confirmada como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Assim, resolveu assumi-lo em 2009. "A gente busca ser bem rígido com as despesas e gastar o mínimo possível no operacional do clube, mas sem prejudicar o trabalho em campo", afirma o vice-presidente Cristiano Dresch, que evita falar de dinheiro. "Nenhum clube da Série B é superavitário, no máximo consegue empatar. Para buscar o acesso não consegue só com as receitas tradicionais." A diretoria apostou no técnico Marcelo Chamusca, 56, que tem acessos à Série A (Ceará, em 2017), Série B (Guarani, em 2016) e Série C (Salgueiro, em 2013). A performance de Chamusca e Lisca, comandante do América-MG, despertaram o interesse do Cruzeiro, mas ambos recusaram o convite para assumir o time, perto da zona de rebaixamento à Série C, antes da contratação de Luiz Felipe Scolari. Marcelo é irmão de Péricles Chamusca, atualmente no Al-Faisaly (Emirados Árabes) e que conquistou a Copa do Brasil à frente do Santo André numa decisão contra o Flamengo, em 2004, numa das grandes zebras da história da competição. O Cuiabá está em sua segunda participação na Série B. Ficou na oitava posição em 2019 e atualmente é o terceiro colocado, com os mesmos 36 pontos do vice-líder América-MG. No sábado (14), às 21h30, eles se enfrentam pela 21ª rodada do campeonato.