Você já se perguntou porque não há surfistas negros?

Buttons é símbolo no Havaí. Por que ele não é a figura do surfista? (JEFF DIVINE)
Buttons é símbolo no Havaí. Por que ele não é a figura do surfista? (JEFF DIVINE)

Por Emanoel Araújo

A Abolição da Escravatura é uma data que tem tudo a ver com o surfe.

Afinal, o dia 13 maio é uma referência para falarmos sobre liberdade e quem já esteve sobre uma prancha sabe que essa palavra é a melhor definição para o que se vive naquele momento.

Caso você seja apenas um espectador, já percebeu que a presença de negros é inexistente. Já se questionou o porquê disso?

“Se você estiver no tour, verá que é quase 100% branco. Há um surfista negro para cada 100 brancos surfando ou até mais”

- Kelly Slater, 11 vezes campeão do mundo

‘Fantasmas’ mórmons e surfistas africanos

Como já mostramos aqui, parte da história do surfe começa no Havaí. O arquipélago ficou famoso pelas ondas a partir dos relatos de Thomas Cook, que descreveu havaianos como donos do “prazer supremo enquanto o homem era conduzido rápido e suavemente pelo mar”. Do outro lado, os havaianos receberam os visitantes com estranheza. O excesso de roupa e a cútis branca criou a crença, entre os nativos, de que os ingleses eram fantasmas.

Tanto respeito aos ‘mortos-vivos’ teve seu preço. Nas décadas seguintes, mórmons catequizaram a população local e os proibiram de surfar ou realizar qualquer tradição. Somente um século depois, californianos importariam o que era feito por havaianos e o transformaram em uma forma de vida (e de negócio também). O estereótipo que eternizou os surfistas da indústria do cinema são Robert August e Mike Hynson, protagonistas do clássico filme The Endless Summer.

A primeira parada do filme, por coincidência, foi na África. O ‘Velhíssimo Continente’ também faz parte do nascimento do surfe. Ainda no século XVII, surgiram em Gana relatos de primitivos surfistas. Quando o diretor Bruce Brown rodou a película na cidade de Accra, sequer imaginava que a praia de Elmina, a poucos quilômetros dali, havia sido palco da primeira história sobre surfe na África.

“Eles se uniam para surfar, em pedaços de madeira ou pequenos fardos de juncos [gramíneas], e pegar velocidade abaixo de seus estômagos; o qual é uma diversão para seus espectadores”

- Michael Hemmersam, escritor alemão (1679)

Divididos pelos oceanos, havaianos e ganeses tinham como atividades diárias estar na água. Se você não conhece a história dos africanos no surfe é porque parte dela, infelizmente, foi levada pelos navios negreiros. Daí em diante, o jogo de difamação de escravagistas e racistas foi cruel a ponto de impedir negros no surfe.

“Negros não sabem nadar”

O fim da escravidão poderia soar como uma nova era. Assim como os brasileiros, afro-americanos saíram da vida de servidão direto para exclusão. A expansão dos EUA para o oeste e a construção de Los Angeles deram ares de liberdade a uma nova nação que se erguia. Como citamos, o lifestyle trazido do Havaí fizeram da praia um oásis para todo mal. Na verdade, nem todo.

Enquanto brancos podiam visitar as praias, clubes ou lagos, a lei Jim Crown proibia “pessoas de cor” de utilizar qualquer um desses locais. A justificativa se baseava em uma teoria infundada de que negros, biologicamente, não conseguiriam nadar. Reflexos desse pensamento ecoam até hoje: apenas 2% dos 330 mil nadadores registrados nos EUA são negros.

A escala é a mesma quando colocamos o tema no mar. Após a abolição, apenas cinco praias – em todos os Estados Unidos – eram destinadas aos negros. Uma delas, estava em Los Angeles. Inkwell tinha acesso permitido e partiu de um jovem marinheiro fazer história. Nick Gabaldon surgiu como uma referência em meio a tensão racial.

Com o sucesso dos movimentos dos Direitos Civis (1968), todos poderiam visitar a praia que quisessem. Em 1974, o surfista e fundador da Black Surfing Association, Tony Corley, escreveu uma carta à revista Surfer. A publicação falava sobre a dificuldade de encontrar um negro na água. A primeira resposta era positiva e mostrava que havia mais um no lineup. No entanto, a segunda resposta o fazia lembrar dos racistas que sempre o impediram de surfar. A imagem abaixo é o ódio racial desenhado.

Resposta recebida por Tony Corley (Reprodução)
Resposta recebida por Tony Corley (Reprodução)

TRADUÇÃO:

Tony “NIGER” Corly,

Fique fora da água, animal preto. Nem comece um movimento Pantera Negra Clube de Surfe. O mar é para humanos, e não para vodus. Vocês são animais que não deveriam ser permitidos na água nem na África. Se você começar um Clube de Almas de Negões, teremos problemas com você, seu idiota.

Apesar de todo o ódio, a paixão pelas ondas tem, timidamente, vencido todo o pensamento racista. Não à toa, o ano de 2018 foi marcante ao WCT. A entrada de Michael February marcou a presença do primeiro negro sul-africano na elite do surfe. Com 25 anos, ele não viveu a época do apartheid, período que as praias com maior correnteza, piores ondas e zona com incidência de tubarões eram destinadas às “pessoas de cor”.

Placas indicando surfe apenas para pessoas brancas na Cidade do Cabo, África do Sul (Reprodução)
Placas indicando surfe apenas para pessoas brancas na Cidade do Cabo, África do Sul (Reprodução)

Conhecido como a segregação mais duradoura e cruel do século, a África do Sul foi palco da resposta mais efetiva do surfe ao racismo. Com boas ondas e eventos tradicionais de surfe, o Gunston 500 (Cidade do Cabo) era uma espécie de etapa mundial. Não houve dia épico de surfe ou pontos na competição que mudassem a ideia dos surfistas profissionais. O campeonato foi boicotado desde seu início até 1994, ano que marcou o fim do apartheid.

Com exemplos como esse, o Yahoo Esportes deixa o recado da primeira linha desse texto. O surfe é sobre liberdade. O mar foi feito para todos e, dentro dele, fica impossível diferenciar brancos e negros. Basta olhar a foto abaixo para saber que não há diferença nenhuma. Liberte-se de seus preconceitos.

No fim das contas, são todos surfistas.

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