Suposta quadrilha liderada por gêmeos investigou PM que recusou propina

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A suposta organização criminosa liderada por irmãos gêmeos do Maranhão, acusada de despejar cerca de 60 toneladas de munição no mercado ilegal do país, investigou a vida de um policial militar para entender por que ele não aceitou receber propina para liberar uma carga ilegal de munição.

Indícios dessa investigação foram descobertos pela Polícia Civil e pela Promotoria do Maranhão no celular de um suspeito apreendido durante operação realizada no início deste ano. Dez pessoas foram indiciadas até agora, incluindo o dono do aparelho, Wallison Israel de Carvalho, 42.

Conforme relatório da polícia ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, no celular de Wallison havia uma série de mensagens sobre movimentações da suposta quadrilha. Entre essas conversas, está uma com a própria mãe na qual falam de uma perda sofrida e do policial investigado.

O advogado Marcos Vinícius de Moura Santos, defensor de Wallison, disse seu cliente não é investigado no episódio do Pará e que ele e a mãe apenas comentavam uma notícia publicada pela imprensa. Sobre a investigação do PM, porém, a defesa não faz nenhum comentário.

A conversa reproduzida no relatório trata da apreensão de um caminhão da suposta quadrilha, carregado de munição, realizada pela polícia do Pará em 15 de abril de 2021. Os dois falam sobre a apreensão, com fotos do veículo e de caixas de munições apreendidas pela PM do Pará.

Inicialmente, os policiais encontraram cerca de 7.000 munições dentro do caminhão-baú, escondido entre os canos. Posteriormente, a perícia descobriu outras 20 mil munições em fundo falso.

"Mãe, descobriram o cofre do caminhão. Motorista teve prisão decretada. Munição demais", afirmou o suspeito para a mãe, conforme relatório.

Entre essa troca de mensagens entre mãe e filho, que continuou ao longo de dias, Wallison volta a trazer informações sobre o prejuízo no Pará e o porquê de o motorista não ter conseguido se livrar da fiscalização policial.

"Olha aí, mãe. Esse foi policial que prendeu [sic] o caminhão dos meninos. Eh, oficial. Tenente. Foi falta de sorte. 13 mil reais esse satanás ganha. Eles não recebem suborno. Francinaldo Barroso Quaresma", diz.

A conversa de Wallison é ilustrada com uma foto do PM, abraçado à mulher dele, e por isso o suspeito diz para mãe "olha aí", para destacar a imagem.

Quaresma é o tenente da PM do Pará que comandava a equipe responsável pela apreensão do caminhão, em Altamira, no Pará, e que não aceitou R$ 15 mil oferecidos para deixar o caminhão seguir em frente.

"Porém, a quantia não foi aceita, segundo Wallison, porque quem estava na viatura policial era um oficial militar. Caso fosse um policial de patente inferior, teria aceitado o suborno", diz trecho do relatório da polícia que classifica como "audácia" a investigação dos suspeitos sobre o PM.

O advogado Marcos Vinícius de Moura Santos afirmou que "Wallisson não é parte nesse processo [do Pará], não era proprietário da carga, muito menos do caminhão, quiçá empregador do motorista".

"O diálogo apenas reproduz o que se noticiava à época dos fatos pelos meios de comunicações. Dito isto, qualquer associação da conversa a oferecimento de propina trata-se de conjecturas desprovidas de nexo causal. Deve-se ressaltar, ainda, que a mera cogitação do crime não pode ser punida", afirmou em nota.

De acordo a investigação maranhense, o caminhão apreendido no Pará pertencia aos irmãos de Wallison, os gêmeos Wander e Wanderson Israel Batista, apontados como os chefes da suposta organização criminosa. O motorista tinha em dinheiro e cheque cerca de R$ 39 mil.

Essa apreensão de caminhão com carga ilegal, ainda segundo o relatório, foi uma das registradas pela polícia nos últimos anos e indica como a suposta organização conseguiu escoar cerca de 60 toneladas de munição para o mercado ilegal ao longo desses anos.

Conforme a Folha de S.Paulo revelou, a polícia e a Promotoria maranhenses investigam a suposta organização liderada pelos gêmeos, com a possível participação de um sargento do Exército responsável pela fiscalização de produtos controlados e de um representante regional da CBC.

O suposto esquema utilizava, segundo a apuração, oito empresas (sendo sete de munição) abertas em nome de laranjas para aquisição de armas e munições de forma legal que acabavam repassadas ao mercado clandestino.

Um dos laranjas usados pelo grupo é o carregador Clayton Batista da Silva, 45, que transporta frutas e verduras em um carrinho de mão na região central de Imperatriz. Segundo a polícia, ele soube que era dono de empresas em março passado, durante operação.

QUARESMA

À Folha de S.Paulo, Quaresma confirmou que é ele mesmo a pessoa da foto, provavelmente retirada do Facebook. O PM também confirmou que, na época, o salário dele girava era torno de em R$ 13 mil, o que indica que os suspeitos investigaram o salário dele no portal da transparência do governo.

Disse, também, que nunca ficou sabendo que a suposta organização criminosa havia feito pesquisas sobre ele. O tenente acrescentou que a apreensão da carga ocorreu porque o motorista do caminhão ficou nervoso quando viu a equipe da PM. Ao receber voz de prisão, o suspeitou ofereceu o dinheiro para ir embora.

"Ofereceram R$ 15 mil. Era uma carga grande. A promessa foi em dinheiro. Geralmente, eles falam. 'Só ligar para o meu patrão para liberar o dinheiro'", disse o PM, que afirma já ter recebido outras propostas de suborno. "Para mim, já ofereçam outras vezes. Agora, situação pesada mesmo, essa daí foi a primeira vez."

Embora tenha sido apontado como o responsável pela prisão e apreensão da carga de munição, Quaresma disse que a recusa foi feita pelos policiais subordinados. "Quem estava no momento de prisão mesmo eram outros dois policiais que não ganham nem metade do que eu ganho. Foram eles que não aceitaram. Só mantive o mesmo posicionamento."

Sobre o fato de ter a vida vasculhada pela suposta organização criminosa, Quaresma disse que sempre fica atento, precavido, porque tem uma profissão de risco e que os criminosos agem na "covardia". Esse fato, disse ele, não vai mudar seu modo de agir.

Os advogados dos gêmeos Wander e Wanderson Carvalho afirmam que a investigação traz uma visão "unilateral", sem que tivessem a oportunidade de esclarecer oral e documentalmente, "as apressadas conclusões que redundaram na formulação do indiciamento".

"Inobstante, seguiremos na forma do devido processo legal, sempre invocando o direito que a ele assiste, assim como a todo cidadão brasileiro, no sentido de comprovar a legitimidade e correção de suas condutas, tendo presumida sua inocência até que sobrevenha sentença penal condenatória com trânsito em julgado", disseram em nota os advogados Daniel de Faria Jerônimo Leite e Tharick Santos Ferreira.