'Superligas' também não vingaram na América do Sul

Rodrigo ALMONACID
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Daniel Angelici, em 2018, quando era presidente do Boca Juniors

Tiveram modos de atuar distintos e diferenças substanciais, mas o mesmo destino e a mesma finalidade: aumentar a receita dos clubes mais poderosos.

Na América do Sul, várias tentativas de criar uma "Superliga" naufragaram assim como a iniciativa que agitou a Europa nesta semana.

- Liga Sul-Americana de Clubes -

A rebelião mais recente contra a entidade que comanda o futebol no continente, a Conmebol, ocorreu em janeiro de 2016.

Quinze equipes da Argentina, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai e Equador, participantes da Copa Libertadores daquele ano, lançaram a Liga Sul-Americana de Clubes em busca de melhorias em prêmios e direitos televisivos.

A iniciativa também pretendia ter uma cadeira dentro do Comitê Executivo da Conmebol e exigia "mais transparência" na gestão dos recursos, num momento em que o mundo do futebol era abalado pelo escândalo do Fifa Gate.

Os brasileiros entraram depois, assim como colombianos, bolivianos e venezuelanos, em um total de quase 40 times da América do Sul.

Oficialmente os clubes não falavam em formar a sua própria competição e não fechavam as portas a equipes menores, como na abortada Superliga Europeia, embora nos bastidores se dissesse que procuravam se apropriar da organização dos torneios continentais.

“Nunca quisemos competir com a Conmebol pela capacidade de organizar torneios. Por isso digo que erramos com o nome da Liga Sul-Americana, era uma associação de clubes”, explicou o então presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici, líder da Liga, em entrevista à rádio uruguaia Sport 890.

A iniciativa se diluiu em meio a disputas políticas dos clubes, desistências de times e aumentos substanciais de prêmios em torneios da Conmebol.

Tal como acontece hoje com o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, Angelici ficou sozinho.

- Rebelião colombiana -

Em julho de 2020, em meio à grave crise econômica gerada pela pandemia de covid-19, os clubes mais bem-sucedidos da Colômbia -Atlético Nacional, Millonarios e América- lideraram um grupo de 16 times -alguns da segunda divisão- que propôs a criação de uma nova liga no país.

Os promotores da chamada "Nova Liga" basearam sua ideia em "um ato de reforma" das instituições do futebol, com maior controle dos grandes clubes, especialmente na distribuição dos direitos de transmissão pela TV, que na Colômbia é igualitária.

Inspiradas pela Premier League (o Campeonato Inglês), essas 16 equipes queriam convidar mais quatro para formar um torneio de vinte participantes, como é disputado atualmente, segundo a imprensa local.

Adversários da iniciativa, como o tradicional Independiente Santa Fe, ficariam de fora da iniciativa, que buscava o apoio da Federação Colombiana de Futebol.

"O futebol colombiano deve ser modernizado, deve ser reformado, estar no mesmo nível dos (...) países desenvolvidos que promoveram o futebol como um dos espetáculos mais importantes", disse o presidente da Millonarios, Enrique Camacho, ao jornal El Tiempo.

A sedição não durou uma semana. Os promotores do projeto recuaram, embora a ideia de uma mudança radical permaneça.

- 'Clube dos 13' -

O caso do Brasil é diferente. Em 1987, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) alegou que não tinha dinheiro para organizar o Campeonato Brasileiro. Assim, um grupo de 12 grandes e tradicionais times - Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro, Corinthians, Vasco e Santos, entre outros - organizou a Copa União.

Para incluir um representante do Nordeste, foi convidado o Bahia e assim foi fundado o 'Clube dos 13'. Coritiba, Goiás e Santa Cruz foram incluídos em seguida.

“A ideia era, realmente, fazer jogos entre nós e depois criar mecanismos, com o passar do tempo, de acesso e rebaixamento”, disse à época Carlos Miguel Aidar, ex-presidente de São Paulo.

Vendo que a Copa União era uma realidade, a CBF organizou um torneio com as equipes excluídas.

O Sport e conquistou o campeonato organizado pela CBF (conhecido como módulo amarelo, que teve 16 outros clubes) e o Flamengo o venceu o evento do Clube dos 13 (módulo verde).

A CBF propôs um torneio com os dois melhores de cada competição (Sport e Guarani, de um lado, e Flamengo e Internacional, do outro), proposta recusada pelo rubro-negro carioca.

De lá para cá, Flamengo e Sport reivindicam o título de Campeão Brasileiro de 1987. A briga foi parar na Justiça, que em 2017 definiu como vencedor o time pernambucano, embora o time da Gávea continue a se considerar o dono da 'taça das bolinhas', apelido do troféu da competição.

Na temporada seguinte, o Clube dos 13 devolveu à CBF a organização do Brasileirão, mas manteve o poder de negociar contratos publicitários e direitos televisivos.

Em 2000, impossibilitada pela Justiça de organizar o campeonato nacional, a CBF passou para o Clube dos 13 a responsabilidade de organizar novamente a competição - batizada então de Copa João Havelange, em homenagem ao ex-presidente da Fifa.

O Clube dos 13 foi dissolvido em 2011 devido a disputas políticas e econômicas.

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