Super Desliga e o rebaixamento de 12 grandes

Mauro Beting
·4 minuto de leitura
Florentino Pérez, presidente da Super Liga FOTO David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images

Super Liga foi uma quartelada do cartel que tentou se formar e foi deformado em menos de 48 horas bizarras, surreais e goleadas pela ganância e pela reação de quem manda e náo desmanda: o torcedor de arquibancada e o do gramado. Mas fica o toque para Uefa e todas as confederações continentais e também para a Fifa: vamos conversar melhor com os afiliados? Abrir mais o jogo em nome dele e dos donos das bolas, e não das boladas?

Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, da Super Liga e, para alguns cada vez menos presentes, também da Liga da Justiça, foi o porta-zurro da bagaça desbaçagada em entrevista na TV espanhola: "O futebol tem que evoluir", aspas do pretenso dono das galáxias.

(Mas não mudar tudo e tirar da reta e da meta quem pode e quem deve sonhar crescer e se desenvolver. Em qualquer campo, ainda mais o de jogo).

Outras aspas de Palpatine Perez, seguidas pelos meus comentários entre parênteses:

"O futebol é o único esporte que é global". 

(Mas não o transforme numa aldeia. Ou numa penthouse com apenas 12 pulseirinhas VIPs).

"Uefa teria que ser mais transparente". 

(Palmas a Perez. Irretocável. Como a Conmebol. Fifa. CBF. Federações estaduais. Clubes. Mídias. Daí criar uma liga pirata com outros seres sombrios...)

"Uefa é monopólio. E não pode ameaçar os clubes". 

(Bingo! Como a Super Liga entrou em campo na meia-noite de uma segunda-feira prometendo começar tudo já em agosto. Não como um monopólio. Mas como um cartel. E sem dar a menor pelota à torcida que virou o jogo e acabou com o primeiro golpe dos cruzados).

"Champions é atrativa só a partir das quartas-de-final". 

(É? Em que planeta? O presidente do clube que conquistou 13 Champions acho que deveria saber muito mais do que o mundo a respeito do torneio que ganha mais do que nenhum outro - e também pelo mérito do próprio presidente, que dirigiu o clube merengue em cinco dos 13 canecos).

"Vamos morrer do jeito que está o dinheiro e a audiência se não mudarmos até 2024". 

(Morrer? Todos? Ou viver com menos? Que precisa mudar, pode ser já na próxima temporada. Melhor. Mas "morrer"? Não é melhor fazer como disse Rummenigge, cartolão do Bayern? Não é melhor antes de mais nada cortar os gastos e investimentos em vez de só brigar e esperar pelo aumento das receitas?)

"A Super Liga veio pra salvar o futebol. Não para salvar os ricos". 

(Próxima).

"Esta é talvez a única forma de salvar o futebol". 

(Então já estamos mesmo mortos).

"A vida muda. Gerações novas vieram. Precisamos dar resposta a essa gente".

(Isso vale para anteontem. Mesmo sem pandemia. Sempre e para sempre. E vale mesmo para o futebol. Mas a resposta foi dada por torcedores, treinadores e atletas dos próprios clubes envolvidos, que mudaram a mentalidade os cabeças do cartel).

"Cada vez é menor o interesse do futebol na juventude".

(Isso é fato. E-sports já invadem o campo de jogo. E não só eles. E não apenas agora).

"Me dá pena o que está está acontecendo com o futebol".

(E dá asco o que a Super Liga pretende. E se tem 350 milhões para dar agora para cada um dos 12 clubes fundadores, que venha a proposta à mesa da UEFA, em outros moldes e meios e midias, se possível).

"Os clubes da Super Liga vão gastar apenas 55% das receitas com os salários". 

(Ótimo. Tentem se acertar para fazer isso desde agora. Sem a Super Liga. Se não por um acordo de poucos cavalheiros, por medidas legislativas e práticas).

"Temos que ser solidários com os patrocinadores". 

(Que tal, então, com os torcedores, com atletas, treinadores, clubes, divisões de base, e com a própria história dos clubes?)

"Faço um trabalho pedagógico para pedir transparência". 

(E também demagógico).

"A Uefa tem que entender que o futebol mudou na Europa". 

(A Super Liga, tanto quanto).

"Nós queremos ser donos dos nossos destinos. Com solidariedade". 

(Já são. E de que jeito sem jeito).

"Toda vez que se quer fazer algo se fala de ricos e pobres". 

(Até quando não se faz nada).

"Os grandes geram dinheiro. Se continuar assim não teremos dinheiro para distribuir".

(Não se discute. Mas o caminho é esse, procurando deixar os grandes ainda maiores, sem concorrência dentro e fora de campo?).

"O mundo precisa mudar constantemente". 

(Para que as coisas permaneçam sempre do mesmo jeito, como já ensinou Tomasi di Lampedusa. A Super Liga conseguiu que o mundo fizesse uma frente ampla solidária em defesa da Uefa e da Fifa. Impressionante!).