Suicídio é segunda causa de morte entre jovens. O que fazer para reverter dado?

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Colégio Bandeirantes distribuiu broches para conscientizar sobre o setembro amarelo. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo
Colégio Bandeirantes distribuiu broches para conscientizar sobre o setembro amarelo. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo

Estudo divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) nesta segunda-feira (9) fez soar um sinal de alerta para toda a sociedade: o suicídio já é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, perdendo apenas para acidentes de trânsito.

O dado serve de estímulo para que seja feita uma prevenção para reverter esse dado o quanto antes. Mas o que pode ser feito para mudar esse quadro? Para responder essa pergunta o reportagem conversou com a psicóloga, psicoterapeuta e psicopedagoga Karina Okajima Fukumitsu.

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Com pós-doutorado e doutorado pelo Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), Karina também é mestre em psicologia clínica pela Michigan School of Professional Psychology e coordenadora da pós-graduação em suicidologia: prevenção e posvenção, processos autodestrutivos e luto da Universidade Municipal São Caetano do Sul.

Referência no País quando o assunto é suicídio, a especialista afirma que a primeira coisa que devemos fazer quando suspeitamos que uma pessoa próxima pode estar pensando em tirar a própria vida é se aproximar, dizer que está percebendo um afastamento da pessoa e que quer ajudar.

“Não custa nada você se aproximar e dizer que a está notando diferente”, afirmou Karina lembrando que, a partir do momento que nos colocamos disponíveis para ouvir a pessoa que está em uma situação de dor profunda, precisamos estar realmente interessados em ouvir e em acolher os pensamentos daquela pessoa.

Para a especialista, é importante que todos nós sejamos capazes de entender que nem todos os sentimentos são bons de serem vivenciados, mas eles precisam ser acolhidos.

Segundo ela, existem alguns sinais importantes de serem observados para tentar prevenir que um ente querido cometa suicídio. Se a pessoa apresentar isolamento e mudança de comportamento, pode ser um sinal de alerta. Porém, existem casos em que os suicidas verbalizam coisas como: “Queria um botão para fazer com que as coisas sumam” ou “em breve vocês não terão mais trabalho comigo”.

Além disso, a pessoa que está pensando em suicídio pode passar a vender coisas, se desfazer de objetos pessoais, fechar contas em banco, dormir muito ou pouco e até se automutilar. Todos esses comportamentos de destruição são grandes sinais de alerta.

A voluntária Leila Heredia, porta-voz do CVV (Centro de Valorização da Vida), cita os mesmos sinais levantados por Karina e vai além: “Um principal indicativo é que ela deixa de fazer coisas de que gosta de fazer”. Porém, ela afirma que nem sempre esses sinais são tão perceptíveis assim. “É uma situação complexa. O suicídio é multifatorial. Não se deve a uma ou outra causa”, disse em entrevista ao blog.

Leila é uma das pessoas voluntárias que ajudam o CVV. O centro faz atendimentos de pessoas que estão precisando de ajuda para superar pensamentos suicidas por meio do telefone 188. “No CVV a gente acolhe a pessoa, ouve e respeita tudo aquilo que ela está sentindo. A pessoa pode ligar na hora que ela quiser que vai ter sempre um voluntário disponível para ouvir de forma gratuita e sigilosa”, explicou.

“É importante deixar claro que a pessoa que pensa em suicídio não quer morrer, ela quer se livrar dessa dor que, para ela, naquele momento, é insuportável. Essa pessoa precisa de ajuda, precisa ser acolhida e compreendida. Apoio emocional e prevenção ao suicídio ainda são tabus. A gente fala muito pouco sobre isso”, afirmou Leila.

Karina concorda que uma conversa franca com familiares pode ajudar na prevenção. Mas também lembra que as escolas podem fazer sua parte ao perceber comportamentos que acendem um sinal de alerta como, por exemplo, quando notas de um aluno começam a baixar de forma inexplicável.

“Normalmente, a gente pode pedir para que a orientadora possa se posicionar e dizer: ‘Olha, estou percebendo que suas notas estão caindo, que você tem apresentado comportamento diferente’. [É indicado] tentar conversar com o próprio aluno, oferecendo um lugar de escuta, e, se ele nos der a permissão, a gente conversa com a família”, afirmou a especialista.

Segundo ela, é importante que a escola converse com os pais para que o estudante tenha o apoio que merece para sair de uma situação que parece não ter solução. Além disso, Karina diz que a ajuda de outros estudantes é fundamental para perceber colegas que estão passando por um momento difícil. De acordo com ela, muitas vezes, são os próprios alunos que percebem um comportamento alterado de um outro jovem e que relatam para os professores.

Foi pensando nisso que o colégio Bandeirantes, em São Paulo, criou uma verdadeira rede de apoio dentro da comunidade da escola. Estudantes, funcionários, professores e famílias estão todos unidos para tentar acolher todos aqueles que passam por momentos difíceis e de sofrimento.

Marina Schwarz, Enrica Gentilezza e Renata Lourenço fazem trabalho de acolhimento de estudantes no colégio Bandeirantes. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo
Marina Schwarz, Enrica Gentilezza e Renata Lourenço fazem trabalho de acolhimento de estudantes no colégio Bandeirantes. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo

Em entrevista ao blog, a coordenadora Enrica Gentilezza, do departamento de orientação educacional do colégio, afirmou que desde 2014 os professores do colégio fazem um treinamento com especialistas para identificar casos de comportamentos alterados e que, desde 2015, alunos interessados em ajudar também fazem parte do grupo de acolhimento e de ajuda.

“Temos os professores que observam em sala de aula, inspetores de corredor e os próprios colegas nos trazem algumas informações. O ambulatório e os pais também nos trazem informações, diagnósticos e situação de vida”, explicou.

Hoje, o colégio, que tem cerca de 2.600 alunos, tem grupos que cuidam do bem-estar dos próprios colegas. Um deles é o Equipe de Ajuda, que é coordenado pela orientadora de projetos Marina Schwarz. Esse grupo atende do sexto ao nono ano e é composto também por alunos que são escolhidos pelos próprios colegas para fazer parte dessa rede de apoio.

“Em 2015 a gente começou a implantar esse projeto das Equipes de Ajuda, que traz os alunos como parceiros nessas observações. Eles ajudam a identificar o aluno que está em sofrimento, sonolento, mais irritado. Os alunos fazem uma formação para saber como se aproximar, como fazer essa ponte”, explicou Marina.

Segundo ela, essas equipes têm reuniões semanais ou quinzenais para conversar e saber o que está sendo observado. “No caso das Equipes de Ajuda, eles são eleitos pela própria turma com base em valores como empatia, confidencialidade, solidariedade…”, afirmou a orientadora.

A escola tem uma parceria com o Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e eles fazem a formação intensa de todos aqueles que fazem parte da equipe. “Se [os alunos] identificam alguém que está em risco ou em sofrimento, eles falam”, disse Marina.

Segundo ela, a escola quer que os estudantes se sintam confiantes para poder conversar sobre qualquer assunto que quiserem. “A gente vai criando um clima e uma cultura de que se o aluno quiser falar sobre isso [suicídio], ele vai ter espaço”, afirmou a orientadora.

No ensino médio, quem faz um trabalho semelhante ao de Marina é a orientadora educacional Renata Lourenço. Desde 2018, ela representa a Care (Comissão de Apoio Racional e Emocional). Segundo ela, a ideia do projeto veio em uma roda de conversa com alunos quando um dos jovens levantou a questão de existir um sofrimento e uma pressão na fase de vida deles.

Assim, ela diz que foi se desenvolvendo “uma série de atividades com fundamento de escuta respeitosa”. Segundo ela, já foram feitos cartazes, atividades, jogos e apresentações de mágica e música no pátio da escola e até um momento de ioga. “A ideia esse ano é fazer um Care 360, que envolva a todos que não deixe ninguém de fora”, explicou Renata.

Esse projeto engloba, principalmente, manifestações artísticas dos estudantes. Uma das atividades mais recentes foi a pintura de monstros. “Cada um fez seu monstro pessoal”, explicou a orientadora. Depois de prontas, as obras foram expostas no pátio para que o colégio todo pudesse ver as expressões de seus colegas.

Alunos do colégio Bandeirantes fizeram desenhos representados seus monstros internos. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo
Alunos do colégio Bandeirantes fizeram desenhos representados seus monstros internos. Foto: Giorgia Cavicchioli/Yahoo

Renata ajudou a executar um evento emocionante que aconteceu em abril deste ano. Os estudantes quiseram realizar o Primeiro Manifesto pela Vida para relembrar os dois colegas que estudavam no colégio e que cometeram suicídio no ano passado. “Três alunos fizeram um discurso, eles falaram dessa questão da adolescência, a banda do terceiro ano tocou… a gente tentou transformar em um evento positivo e saudável”, afirmou a orientadora.

Essa forma de lidar com o assunto, segundo a psicóloga Karina, é importante para que todos entendam que sempre existe uma esperança para momentos de tristeza. “Se tem vida, tem jeito. Sempre aparece um anjo bom na nossa vida e a gente precisa estar aberto. A melhor forma de prevenção é o acolhimento do sofrimento”, explicou.

Estes adolescentes, certamente, estão sendo anjos bons a vida de seus colegas. Porém, ao invés de asas, eles têm pulseiras da cor azul e amarela para que os outros estudantes que se sentem vulneráveis possam identificá-los no meio da multidão e pedir ajuda.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo também está investindo em ações para sensibilizar outras crianças e adolescentes para entender a dor dos colegas. De acordo com a coordenadora Michele Nepomuceno, do Sistema de Proteção Escolar, a ideia é abordar o tema de acordo com a faixa etária dos alunos e enfatizar a valorização da vida.

“No último dia 10, todas as escolas da rede pararam para discutir e conversar sobre o assunto com o enfoque da valorização da vida. Tivemos jogos colaborativos, gincanas, palestras, roda de conversa... mas não é uma coisa que terminou aí, são ações permanentes”, explicou a coordenadora.

Durante o mês de setembro, a secretaria divulgou vídeos de jovens falando para jovens para tentar incentivar todos os estudantes a se preocuparem com o próximo e se mostrarem abertos para ajudar aqueles que estejam precisando de um olhar carinhoso.

Além disso, Michele diz que professores e funcionários da rede recebem formações para identificar quando alunos estão apresentando sinais de que pensam em suicídio. Quando uma situação é notada, a orientação da secretaria é para que o profissional acolha o estudante. “É importante a atenção ao outro e não minimizar a dor do outro”, afirmou.

“Em determinados casos, é necessário encaminhar para a rede protetiva: UBS (Unidade Básica de Saúde), Conselho Tutelar, Ministério Público, Batalhão da PM (Polícia Militar)... depende daquilo que está acontecendo”, explicou Michele dizendo que a família do jovem também é acionada para que possa também ajudar nessa proteção.

Assista a um dos vídeos divulgados pela Secretaria da Educação:

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