Vamos à luta, não fugir dela

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Mohamed Abdalrassol, eu não vou ter a pretensão - até pela minha incapacidade - de dizer quem está mais certo no conflito entre a causa palestina e a de Israel. Primeiro por eu não estar aí. Segundo por muitas vezes na história não ter um lado certo e o lado errado. Muitas vezes tem um lado mais certo. Ou um lado menos errado (na maioria delas). Não vou por essa linha por não querer fazer o que já estou fazendo - política.

Mas você só está fazendo política e intolerância ao se recusar a lutar pelo seu Sudão contra o israelense Tohar Butbul (como já havia feito o argelino Fethi Nourine). Ao não competir com um atleta que provavelmente só defende o país que você odeia.

Você não está fazendo o esporte que te levou a Tóquio. O judô que te levou agora a se recusar a duelar contra um adversário só por ele ele ser de um país.

O que ele tem a ver com isso tudo e aquilo nada?

Melhor mensagem em qualquer campo você passaria ganhando a luta muito maior do que o judô.

Você aproveitaria o momento da vitória, se quisesse e se pudesse, para se manifestar a respeito, como cidadão, mais do que como esportista. Fazendo até política. Mas não desonradno o esporte.

Faria o que não puderam fazer tantos atletas norte-americanos em 1980 em Moscou. Quando o presidente democrata Jimmy Carter liderou o boicote da delegação dos EUA e de outros países aos jogos de Moscou. Motivo: a invasão soviética em 1979 do Afeganistão, em mais um triste capítulo da Guerra Fria. Conflito que deixou mais de 400 vítimas de uma geração norte-americana que não puderam disputar a Olimpíada em Moscou. Quase 220 atletas de ponta que não disputariam nenhuma Olimpíada.

O troco veio em 1984, em Los Angeles. Quando a delegação soviética e de países aliados não foi aos EUA, em represália ao boicote de 1980 em Moscou.

Gerações não puderam se enfrentar por motivos extra esporte. Que nada tinham a ver com a disputa leal entre competidores. Por motivos de guerra, fria, morna ou quente, jogaram no front sem armas quem deu a vida por estar lá e não pôde em 1980 e em 1984.

Mohamed, a sua atitude anti esportiva é só política. Insisto: não tenho condição de avaliar o conflito. Creio que ninguém tem. Menos ainda quem (como eu) não sofre na pele e na alma as consequências desse conflito secular. Mas quando você trata o adversário esportivo como inimigo político, inclusive se recusando a enfrentá-lo, você só está armando ainda mais o conflito. Você não desarmou os espíritos. Você aparelhou a intolerância de todos os lados e perdeu a grande chance de pelo esporte passar uma mensagem de entendimento, de paz, e mesmo de competição. Em vez de você derrotar um atleta de Israel, você se apequenou ao sair da "batalha". Que é o que parece você só foi preparado pra isso.

Perdão por entrar numa área que imagino seja muito sensível. Eu não sei das suas dores. Mas imagino que ao generalizar o conflito, você só traz trevas e não a luz.

Trair o espírito olímpico de fugir da luta em nome de um inominável conflito, não vence a batalha, não vence a guerra. Só perde a própria causa e a razão.

A pira olímpica é um fogo que não se apaga e você, imagino sem saber, ateia mais combustível.

Pense nos dois lados da Guerra Fria. Nos atletas que não puderam jogar competir em 1980 e 1984. Por motivos "políticos", foi perdida a grande chance de os atletas irmanarem as nações e os povos, como fizeram os futebolistas de Irã e Estados Unidos na Copa de 1998.

Como os velocistas negros norte-americanos Tommie Smith e John Carlos não aderiram ao boicote de atletas afro-americanos aos Jogos de 1968, no México. Foram pra luta, ganharam suas medalhas, e mostraram ao mundo seu protesto contra o preconceito racial nos EUA.

Melhor ação do que qualquer boicote.

Como foi Jesse Owens em Berlim em 1936 ganhando as medalhas que conquistou na fuça de Hitler. Muito melhor do que um atleta negro não disputar os jogos sob o jugo nazista.

A sua não-luta foi em vão, Mohamed.

Você perdeu a causa. Mesmo tendo as suas razões.

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