Sucesso olímpico, skate é vetado nas ruas do Japão

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TOKYO, JAPAN - AUGUST 05: Danny Leon of Spain competes during the Men's Skateboarding Park Preliminary Heat 1 on day thirteen of the Tokyo 2020 Olympic Games at Ariake Urban Sports Park on August 05, 2021 in Tokyo, Japan. (Photo by Ian MacNicol/Getty Images)
Foto: Ian MacNicol/Getty Images

A popularidade do skate no Japão, país que ganhou 5 das 12 medalhas distribuídas no esporte durante as Olimpíadas de Tóquio, não é perceptível para quem anda pelas ruas da capital japonesa. 

Durante os mais de 30 dias em que a reportagem esteve por lá na cobertura dos Jogos, várias vezes dividiu o espaço de ruas planas e calçadas lisas com ciclistas montados em suas bicicletas. Embora essas características também devessem favorecer os deslocamentos sobre rodinhas, isso não foi observado. Pelo contrário. Em alguns locais públicos, até mesmo em parques, há avisos indicando o veto à prática.

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Com um skate de tamanho reduzido na mão, a estudante Mai Egawa, 20, caminhava perto da estação de Toyosu no segundo sábado (31) das Olimpíadas. Ela, que já surfava, se interessou pelo esporte ao trabalhar no Tokyo Sports Playground. O espaço temporário aberto ao público foi patrocinado pela Nike e montado na mesma região, próximo de várias arenas olímpicas —inclusive a que recebeu as competições de skate. 

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Naquela data, a dupla japonesa Yuto Horigome, 22, e Momiji Nishiya, 13, já havia conquistado as duas primeiras medalhas de ouro do skate na história dos Jogos, ao vencerem a categoria street. Funa Nakayama, 16, levara o bronze. Na semana seguinte, no park, Sakura Yosozumi, 19, e Kokona Hiraki, 12, faturaram ouro e prata, confirmando o domínio do país-sede. 

"Por causa do Horigome, muitos japoneses começaram a andar de skate, como um novo hobby. Acho que isso influenciou outros jovens skatistas, o que é uma boa notícia para nós", disse Egawa, destacando também o feito das mulheres, 4 das 5 medalhistas do país. 

"Questões de gênero são um grande problema no Japão, então as medalhas podem ter uma influência para que jovens garotas se sintam encorajadas a começar uma coisa nova e mantenham seus sonhos de se tornar uma skatista profissional." 

A alguns metros dali, o Tokyo Sports Playground recebia corajosos praticantes que se arriscavam na pista mesmo sob o sol forte do início da tarde do verão japonês. 

Um deles era o americano Devin Annunzio, 28, engenheiro de software que se mudou para o Japão no ano passado. Morador de uma cidade localizada a duas horas de Tóquio, ele constantemente pega o trem para ir até aquele local por dois motivos: a gratuidade, algo raro nas pistas do país, e o ambiente agradável que encontra por ali. 

Entre os praticantes naquele dia estavam várias crianças acompanhadas pela família e adolescentes. Também há sessões organizadas para incentivar a atividade por mulheres. 

"Em alguns skateparks nos EUA, você não se sente bem-vindo, mas aqui todo mundo é bem amigável, mesmo que não se conheça. Meu japonês é ruim, mas é fácil fazer amigos aqui. O skate conecta as pessoas", disse o ex-morador do estado da Geórgia. 

Animado ao falar sobre o local, ele só lamentou o que considera um comportamento mais conservador dos japoneses em relação ao hábito de andar de skate nas ruas. E ainda não se convence de que o sucesso da participação olímpica seja capaz de mudar essa visão. "Eu queria dizer que sim, mas eu sinto que não. Talvez. É difícil mudar a percepção das pessoas sobre coisas que estão aí há muito tempo, mas espero que sim." 

Yuu Kataouda, 20, destacou que andar nesse parque também é uma forma de não precisar lidar com pessoas que se incomodam com os skatistas nas calçadas e ameaçam chamar a polícia, algo que diz ter presenciado várias vezes. 

"O skate se tornou esporte olímpico, mas a imagem do skate no Japão é a de uma atividade para meninos desordeiros", afirmou no ano passado Daisuke Hayakawa, treinador da equipe olímpica japonesa, ao The New York Times. 

O nipo-brasileiro Akira Matsui, 41, trabalhou como consultor comercial e cultural do COB (Comitê Olímpico do Brasil) para os Jogos e viu de perto o sucesso dos skatistas dos dois países. Sobre os japoneses, avalia que eles seguiram com disciplina o objetivo traçado de estrear com sucesso no esporte em sua casa. 

"Nem sempre é permitida a prática do skate em locais públicos, mas a maioria dos skatistas anda. Isso contribui para algumas pessoas enxergarem de forma negativa. Mas a partir do momento em que um atleta conquista uma medalha de ouro para seu país, o impacto é muito positivo e ajuda a mudar a imagem que o skate teve até hoje", afirmou. 

Ele espera que o sucesso esportivo que virou tema de conversa nacional e ganhou destaque na imprensa japonesa reflita em condições melhores para as futuras gerações no esporte. Não só pelos resultados alcançados, mas pela mensagem passada durante as competições. 

"Ficou bem claro, pela postura dos atletas, os valores que o skateboard representa, como empatia e união. Precisa evoluir constantemente em vários sentidos, por exemplo na construção de mais pistas e na adequação da arquitetura das cidades à prática, já que o skate é proibido em diversos lugares públicos", disse. 

Na última terça (10), a reportagem esteve no Miyashita Park, complexo comercial localizado perto do famoso cruzamento de Shibuya. Uma loja especializada no esporte pegou embalo nos Jogos, com as roupas usadas pelas delegações do Japão, EUA, Brasil e França expostas na entrada. Todas fabricadas pela Nike. De acordo com um vendedor, a procura tem sido grande, especialmente os uniformes de japoneses e americanos. 

No andar acima, há um terraço aberto com pista de skate, parede de escalada e quadra para esportes de areia. Os skatistas precisam pagar 500 ienes (cerca de R$ 24) por duas horas de uso e há uma placa indicando vários comportamentos vetados, entre eles praticar sob efeito de álcool, totalmente nu ou seminu. 

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