Por que os patinetes elétricos estão falindo

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(Foto: Horacio Villalobos/Corbis via Getty Images)
(Foto: Horacio Villalobos/Corbis via Getty Images)

Por Matheus Mans

O modelo de aluguel de bicicletas e patinetes está em xeque. Em janeiro, a startup Grow — que controla as marcas Grin e Yellow — anunciou que iria interromper suas atividades em 14 cidades brasileiras, mantendo a operação apenas em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Já a norte-americana Lime anunciou sua saída definitiva do Brasil, numa retirada global.

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Os motivos apresentados pelas startups são diversos. A Grow afirmou, por meio de comunicado divulgado à imprensa, que está passando por uma reestruturação, mas não divulgou mais detalhes. Já a Lime, que também saiu de outras 10 cidades em todo mundo, foi mais severa em sua decisão: o modelo usado nesses países não era lucrativo.

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A dúvida que fica, com essa mudança no cenário de aluguel de bicicletas e patinetes: será que há espaço para tal modalidade? Há uma forma rentável de operar transportes alternativos?

“É difícil dizer, com certeza absoluta, qual caminho essas empresas irão traçar. Se é que irão se recuperar”, afirma Hélio Bezerra, pesquisador em novas modalidades em grandes centros urbanos. “A grande questão é que o custo para manter um patinete e uma bicicleta, mais gastos de escritório e operação, ficam acima do valor máximo cobrado de usuários”.

Modelo não funciona

Até o momento, o principal modelo utilizado pelas empresas de aluguel de bicicletas e patinetes é a cobrança de um valor fixo e um acréscimo pelo tempo utilizado. Um valor padrão, para bicicletas, é a cobrança de R$ 1 a cada dez minutos de uso. Já os patinetes custam, em média, R$ 3 de custo fixo, mais R$ 0,50 a cada minuto.

No final, é uma conta que não fecha. Por maior que seja a adesão do grande público, acaba ficando no vermelho. À Forbes, Rodrigo Costa, gerente comercial da operadora de patinetes FlipOn, disse que a operação de cada veículo custa R$ 3.200, e a arrecadação mensal, R$ 2.000. Seria preciso 50 dias pra ser lucrativo. Só que os patinetes tem vida útil de 28,8 dias.

O fato da operação mais cara é resultado de algumas tecnologias ainda produzidas em pequena escala no Brasil. As baterias de lítio dos patinetes possuem preços mais altos do que em outros países. Além disso, há uma certa demora na troca de peças dos patinetes.

Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

“Muitas pessoas podem pensar: oras, cobrem mais caro, façam o custo do patinete ser zerado antes da vida útil. Mas não adianta. O valor não pode ficar pesado no bolso”, afirma Bezerra. “Se, no final do mês, o usuário ver que a conta do cartão está muito alta por conta da bicicleta ou do patinete, ele vai mudar o meio de transporte ou comprar uma bicicleta”.

Além disso, a urbanista Helena Petrova, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, acredita que uma questão geográfica também acaba impactando.

“É um modelo que não funcionam em cidades pequenas, onde cada um tem sua bicicleta. Em cidades médias, o valor não pode ser alto. E cidades grandes tem vandalização e mau uso”, afirma. “E as startups erraram ao entrar em todos bairros, em algumas cidades, e depois voltar pra trás. Causou desconforto nos moradores e sensação clara de elitismo”.

Tem futuro?

Para especialistas consultados pela reportagem, o principal ponto levantado é que as empresas precisam entender melhor a realidade do Brasil. “Sinto que os empreendedores só viram que dava certo lá fora e importaram o modelo. Não é assim”, afirma Bezerra. “É preciso pensar em desenvolvimento de tecnologias, facilidade de uso e coisas do tipo”.

Além disso, o pesquisador ressalta que as empresas precisam pensar nos patinetes e nas bicicletas como um meio de atingir algo. E não como o objetivo final de seus negócios.

“O modelo de aluguel de patinetes pode não ter dado certo financeiramente, mas muitas pessoas usavam. Era só dar uma passada na Faria Lima de manhã”, afirma o pesquisador. “As empresas precisam pensar em publicidade nos patinetes, em parcerias com comércios, meios de comercializar aquilo tudo. A bicicleta precisa ser o meio, o caminho. Não o fim”.

Além disso, Petrova lembra que é preciso ter uma expansão mais inteligente e democrática. “Muitas pessoas não usavam pois não podia ir com o patinete até suas casas, até seu trabalho”, afirma. “Sem isso, acredito que mais pessoas usariam. E fazendo parcerias com comércios, para estacionar os veículos, talvez houvesse mais cuidado e organização”.

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