Meligeni: "Só teve um momento da minha vida em que eu duvidei de ser brasileiro"

Vitor Sérgio Rodrigues e Lucas de Tommaso, Yahoo! Esporte Interativo
Yahoo! Esportes

Dentro de quadra Fernando Meligeni sempre se destacou pela personalidade, além, é claro, do tênis na ponta da raquete. Dava carrinho, se jogava na bola, comemorava, brincava e vibrava intensamente. Longe da vida profissional há nove anos, a única coisa que mudou foi a obrigação de ter que jogar tênis. Assim que encontrou a equipe do Esporte Interativo no Jockey Clube Brasileiro, local da gravação do Via Esporte que vai ao ar no próximo sábado às 09h00 da manhã, Meligeni fez uma piada com a corda da raquete que tinha acabado de arrebentar num bate-bola.

Quando a entrevista começou, ele só não distribuiu raquetadas. De resto, manteve o mesmo espírito contestador e brincalhão. Fininho fez revelações e criticou Nuzman: “Antes dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, foi o único momento da minha vida que eu duvidei em ser brasileiro”, referindo-se ao momento anterior àquela competição, quando o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro disse para ele desistir de competir por não ter chance de ganhar medalha. Já quando perguntado se gostaria de enfrentar Guga numa semifinal de Roland Garros: “Melhor não, eu sempre perdia para ele”, para depois cair na gargalhada.

Meligeni ainda falou da rivalidade entre Brasil e Argentina, de grandes jogos que fez na carreira, sobre o futuro do tênis brasileiro e muito mais. À entrevista completa do “argentino mais brasileiro ou do brasileiro mais argentino de todos” você assiste no Via Esporte, na TV Esporte Interativo, às 09h00 da manhã desse sábado.

Yahoo! Esporte Interativo: Você se incomoda com o fato de que quando você tinha um resultado positivo você era brasileiro e quando o resultado era ruim, te chamavam de brasileiro naturalizado argentino?


Fernando Meligeni: Antes me incomodava muito, mas eu consegui entender que era meio que um direito de solo. Eu sabia que eram dois países com uma rivalidade muito grande, ainda mais por causa do futebol. Era uma coisa meio atípica um argentino querer virar brasileiro. Então, era normal que no começo existisse uma dúvida geral. Mas eu acho que eu consegui tirar esse estigma que me perseguia no início da carreira. Hoje o pessoal tem um carinho muito grande por mim.

Essa rivalidade passa da brincadeira?

Sendo muito sincero, tem três ou quatro porta-bandeiras dessa bobeira atômica. São pessoas que estão na mídia e acabam faltando com o respeito a um país. Eu sou um porta-bandeira muito forte da brincadeira, mas sem perder o respeito. Muitas das pessoas que falam essa besteira na televisão passam as suas férias na Argentina. Na Argentina tem gente ruim, no Brasil tem gente ruim, como em qualquer lugar do mundo. Mas essa rivalidade tem que ficar dentro do esporte. Meu cunhado viu a final da Copa do Mundo de 1994 dentro de um bar na Argentina, e percebeu que 90% das pessoas estavam torcendo para o Brasil. Eu sinto pena do brasileiro que fala mal do argentino e do argentino que fala mal do brasileiro só pra mostrar que é mais brasileiro ou argentino por causa disso.

E mesmo assim você disputou Copa Davis, Olimpíadas e grandes torneios, sempre representando bem o Brasil. Vamos falar dos jogos de Atlanta, em 1996, quando você perdeu na disputa do bronze. O que mudou pra você depois daquela competição?


Mudou em coisa boa ou coisa ruim? (risos). Nas Olimpíadas o que eu mais tinha que responder era: "ué, mas você é um argentino representando o Brasil?". E eu já tinha passaporte brasileiro, disputava a Copa Davis desde 1993 e ainda tinha de responder às mesmas perguntas. Sem contar na grande bagunça que foi antes da Olimpíada.

O Comitê Olímpico Brasileiro não queria me levar, foi super indelicado comigo, sabe... Às vezes as pessoas falam: "ah, mas o Fernando fica dando porrada no COB". Não, não é isso! A única coisa que eu quero é que eles nunca mais repitam isso com algum atleta. Um atleta escutar que não tem chance de medalha é a pior reação que um comitê pode ter. E eu passei por isso. Mais ainda sendo argentino naturalizado na visão dos caras. Como você acha que um atleta se sente nessa hora? Eu vivi os piores momentos da minha vida ao escutar que eu não tinha chance. Foi a única hora na minha vida que eu duvidei em ser brasileiro. Você abandona uma nacionalidade, uma pátria, a família inteira contra e aí o presidente da confederação (comitê) vira e diz que você não merece. É duro.

Isso te motivou em alguma coisa?


É só olhar o Pan (de 2003, em Santo Domingo). Quem me deu a medalha? Ele. Pra mim essa é a grande prova de que as pessoas têm que aprender, têm que evoluir.

Ele você diz o Carlos Arthur Nuzman?


Isso, o Nuzman. Ele teve que me dar a medalha. Com certeza ele não esqueceu isso, porque eu falei na cara dele uma vez. Com todo o respeito, eu cometi um milhão de erros, só que nunca recebi um pedido de desculpas pelo que passei em 96. Parece que eu que sou o bravo, eu que sou o cara que está toda hora querendo cutucar. As pessoas me conhecem e sabem que eu não quero arrumar tumulto. Só que eu olho pro moleque que está vindo aí. Eu olho porque a gente vai ter uma Olimpíada no Brasil. E o atleta tem que ser tratado que nem ouro, porque são eles que representam o nosso país. Se é para cortar, corta, não tem problema nenhum, faz parte. Acho que isso serve como puxãozinho de orelha, mas a gente precisa de um esporte mais forte no Brasil.

Agora falando de tênis, como é que foi disputar a medalha naquelas Olimpíadas contra o Leander Paes?

Cara, na verdade ficou grande. As pessoas me conhecem e sabem que eu não vou tapar o sol com a peneira. Até chegar a briga pela medalha, eu era um jogador. Soltava o braço, era franco atirador, não devia nada a ninguém. Mas na hora que viram e falam: "opa, você pode ganhar medalha", o braço trava, começa a suar. E com o (Sergi) Bruguera, na semifinal, foi assim: eu fiz 6/4 no tie-break do primeiro set e acabei perdendo no final de 7/6, 6/3. Já o jogo contra o Paes foi muito nervoso, porque valia para os dois. A Índia nunca tinha ganhado medalha olímpica e para mim tudo isso que eu falei estava dentro daquele jogo. Mas acabou que eu perdi, e essa situação me ensinou muito. Se não fosse essa derrota eu não teria vencido o Pan, talvez eu tivesse largado os pontos bem antes.


Agora, um fato muito curioso é que você ficou a um passo de enfrentar o Andre Agassi em duas grandes decisões: se tivesse vencido a semifinal olímpica, ele seria o adversário da final; e três anos depois, em Roland Garros, se você tivesse passado pelo (Andrey) Medvedev na semifinal, também pegaria o Agassi na decisão.

Roland Garros foi diferente. Eu realmente achava que dava, porque eu tinha ganhado de gente muito boa. E na hora que veio o Medvedev, falei: "ah, vou ganhar também". E o jogo foi encardido, mas escapou no tie-break. Aquele jogo me machucou. Eu sinceramente não sei o que ia acontecer contra Agassi. A verdade é que quando você vai para um Grand Slam, você se arma pra guerra. Em 1999, eu joguei o melhor tênis da minha vida.

E naquele ano a gente ainda quase teve uma semifinal brasileira. O Medvedev, depois de quase se aposentar, eliminou o Guga nas quartas-de-final. Ia ser fantástico você contra o Guga!

Ia ser bom para o público, né, porque a chance de eu ganhar era mínima. Até por que ele sempre ganhava de mim! (risos). Mas ia ser muito legal!

Você conviveu em boa parte da sua carreira com esse fenômeno que foi o Guga. O que o Brasil precisa fazer para ter uma cara da expressão do Guga de novo? É possível?

Acho que a gente não pode pensar em querer ter um novo Guga. A gente tem que pensar em ter um tênis forte para formar muitos jogadores. Infelizmente, o brasileiro depois que o Guga apareceu só quer um novo Guga. Mas isso não vai acontecer. Se acontecer é uma obra do espírito santo. É o que aconteceu na Suíça, com o surgimento do (Roger) Federer. Para mim, é mais importante você olhar o tênis de maneira geral, com mais   estrutura e mais gente capacitada. Mas isso não é um problema do tênis no Brasil, e sim do esporte. Você vê pouco ex-atleta totalmente engajado com o esporte.
































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