'Sou uma menina de muita fé', por Ketlen Wiggers, do Santos

Fábio Lázaro
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Eu só sei que não sou mais a garota que aos 15 anos de idade marcou o primeiro gol pelo Santos, por causa do RG. Mas me sinto a mesma pessoa, a mesma menina. Se não me lembrarem que eu tenho mais de 100 gols pelas Sereias da Vila, é capaz que eu nem lembre. Eu nem sei porque sou assim. Simplesmente sou. E, na boa, não mudaria por nada.

São 13 anos no futebol. Devo a ele tudo. E quando eu digo tudo, é tudo mesmo. Vai além da minha profissão, das minhas conquistas e realizações profissionais, mas ele faz parte da minha identidade e todos os caminhos que a minha vida tomou em 28 anos.

Desde pequena eu arrancava a cabeça das bonecas para fazer de bola. Na escolinha, a Tia Irene já separava uma roupinha especial pra eu jogar futebol. Eu era a única menina da família e minha mãe me vestia como a princesinha da casa. E ai da Dona Rosileia se fosse me buscar e eu não tivesse com os lacinhos no cabelo e o vestidinho impecável. Era uma força tarefa pra me vestir novamente. Mas sempre dava certo.

Se eu planejei alguma coisa? Nunca. Minha vida é baseada na fé. Talvez por isso eu não compreenda a dimensão que eu atingi pelo Alvinegro. A minha história já está escrita por Deus, e por isso que sempre fui a mesma menina, crente que a trajetória que sigo já estava traçada por algo maior que eu.

Rio Fortuna

“Tem uma história engraçada, quando a gente foi jogar a final estadual do futsal, que era o campeonato mais importante nosso, todo mundo me conhecia pela faixa de cabelo e a camisa número 10 que eu usava. Então, quando a gente foi jogar, o meu treinador falou que o técnico adversário sabia que eu era a craque do time. Tinha uma prima minha que jogava comigo. Aí o técnico disse pra minha prima colocar a faixinha e a camisa 10 e eu usaria a camisa dela no jogo. Só assim pra gente ganhar, porque todo mundo iria marcar ela e eu ficaria livre. Deu certo, quando o treinador do outro time reparou, gritou que estavam marcando a loirinha errada, mas nisso eu já tinha feito uns cinco gols. Ganhos de uns 6 a 0 e fomos campeãs”.

Em uma cidade de apenas quatro mil habitantes, no interior de Santa Catarina, tudo é uma família e todos se conhecem. Tem o tio da padaria, a tia da banca de jornal e eu era a craque do futebol local. A cidade parava pra me ver jogar. Nem o prefeito perdia um jogo meu. Era muito gratificante.

No Município todo, eram apenas umas 15 meninas que jogavam bola, só tinha uma escola e era por ela que eu treinava três vezes por semana, só uma no campo, o resto era em quadra de salão. Até cheguei a ser sondada por um colégio particular, em uma cidade vizinha, mas quis permanecer em Rio Fortuna.

Categorias de base? Nunca nem vi. E é incrível acompanhar a evolução do futebol feminino brasileiro hoje, com a formação das meninas mais novas, clubes grandes, como o Santos, investindo em estrutura. No meu tempo não tinha nada disso. Apenas a cara, a coragem de jogar futebol e, é claro, a fé. Essa nunca me faltou.

Abençoada pelos Santos

Em um dia qualquer meu irmão abriu uma revista na página que mudaria a minha vida. A minha mãe começou a ler uma reportagem do então técnico das Sereias, o Kleiton Lima, que hoje é o meu segundo pai. No fim da matéria, estava o contato dele e a informação de que haveria uma peneira para novas atletas para o time feminino do Santos. Dona Rosileia não titubeou. Para ela não tinha empecilho de idade. Eu nem 15 anos tinha, mas a minha progenitora já via algo em mim. Meu Porto Seguro também foi a minha primeira olheira e até hoje é a minha empresária.

E eu fui pra Baixada Santista. Quase 900km de estrada e a certeza da passagem só de ida. Não me perguntem de onde vinha essa segurança. A resposta está no inexplicável.

Eu nunca tinha feito um teste como jogadora. Passei de primeira, então nunca conseguirei imaginar como seria minha frustração caso o resultado fosse negativo. E prefiro nem pensar, apenas desfrutar esse caminho louco que moldou o meu caráter.

Não é que eu seja desligada. Muito pelo contrário, eu sou muito focada, levo a sério o futebol. Mas é que eu deixo as coisas simplesmente acontecerem. E elas acontecem. Sempre foi assim. E eu agradeço a Deus por isso, pois me faz ser quem eu sou.

Sempre fui Santos

“Foi um sonho realizado, porque eu via o Santos desde criança, ouvia as histórias do Pelé e Coutinho, jogadores que tinha mais conhecimento. E quando você cresce ouvindo essas histórias do Santos, principalmente que vieram da minha vó, da torcida dela, realizar esse sonho é algo maravilhoso, parece que é inacreditável tudo o que eu vivo e tô vivendo, porque não foi um sonho só meu, alegria não é só minha, mas é compartilhada com a minha família”.

E tudo aconteceu tão ao natural, que eu ultrapassei a marca do Pelé e nem notei. Sim, o mesmo das histórias da minha vó. E mais, estou atrás apenas de Coutinho como atleta mais nova a marcar um gol pelo Santos, com 15 anos. Eu literalmente debutava do jeito que sempre sonhei. Sem valsa nem príncipe. Apenas eu e a bola.

No início de 2020, o pessoal do Memorial das Conquistas me procurou. Meu sogro foi atrás dos documentos na Federação Paulista de Futebol, e não é que eu tinha ultrapassado o Pelé?!

E fui mais além, santificada pelo Santos, na terra do Rei, acabei jogando com a Rainha. Era 2010, eu já tinha 17 para 18 anos, jogaria a minha primeira Libertadores e do nada começo a conviver com a Marta. Muito louco isso. Mais bizarro ainda foi saber que o meu gol na competição foi com passe dela. E, na boa, pode ter certeza que essa assistência não foi a única que a Estrela deu pra mim. Todos os dias ela me puxava pra perto, me fazia ganhar confiança. Pensa, você está frente a frente com a sua ídolo todos os dias. Eu ficava atônita. Ela reparava e me trazia pra perto. Como isso me deu confiança. Então, quando ela me deixou na cara do gol, a parte mais difícil já tinha passado, o peso nas pernas não existia mais. Eu fiz o que sempre fiz. O que faço até hoje. Gol.

Atualmente eu sei o peso que esse tento tem na minha carreira. Está na prateleira como um dos mais importantes dentre o 100. Mas no dia, adivinhem, eu deixei o destino se encarregar.

Outras famílias

Lembram quando eu falei que o Kleiton Lima foi o meu segundo pai? Na época que passei na peneira pra jogar pelo Santos, não tinha com quem ficar. O futebol feminino ainda estava bem abaixo no Brasil e minha mãe teria que voltar para Rio Fortuna.

“No começo, a minha mãe veio junto em algumas semanas comigo, até eu me adaptar. Depois eu acabei morando com o meu treinador, o Kleiton (Lima), e a família dele. Eles me abraçaram como filha mesmo, sabiam da dificuldade que eu teria de adaptação, por ser uma cidade grande e eu vir do interior. Minha mãe conversou com eles, pra saber se eu poderia me hospedar lá, e acabou que eu fiquei três anos”.

Até que o Santos encerrou o projeto do futebol feminino. No auge. Após conquistarmos todos os títulos possíveis em um ano. Eu já senti que o caminho era esse. Saí antes. Fui para o Flamengo. Mas quando o martelo bateu, foi muito difícil. Contudo, hoje sei que esse hiato foi importante. Para a modalidade. Para o Santos. Para mim. Que pude explorar outros lugares. Passei por Suécia, Estados Unidos. Treinava em Boston, dentro da Universidade de Harvard. Jogava para 15 mil pessoas assistir. Era um mundo novo. Mas voltei ao Brasil. Joguei em times sem estrutura, que não tinham comida, que eu tinha que lavar o meu próprio uniforme. Vivi os dois extremos, e hoje consigo valorizar o que levo comigo. Até porque, já estava tudo escrito…

...até a minha lesão no púbis, em 2012. Estava na Seleção Brasileira de base, em São Paulo, sozinha. O Dr. Ricardo Eid comandou os procedimentos. Quando reparei, já estávamos nos conhecendo melhor. Não estou brincando. Não foi nada planejado. Pelo menos não da minha parte, rs. Aconteceu. Era pra acontecer.

Hoje, ele, médico do esporte, além de ter sido o responsável pela minha cirurgia, é o meu noivo. Ou seja, a bola sempre se encarregou de tudo.

A bola segue se encarregando

Voltei ao Santos em 2015. Tinha que retornar. Era a mesma menina. Com o pesinho de uma bagagem a mais que eu nem sentia. Mal sinto até hoje. Sigo extrovertida, brincalhona. Moleca de tudo.

Fiz 100 gols pelas Sereias, fui homenageada, passo pelo muro do CT Rei Pelé e vislumbro a minha cara lá. Não por mim, mas pelo futebol feminino. Imagina que legal seria ter as meninas que fizeram história pelo Santos em um local reservado para atletas que atingiram feitos realmente importantes?

“E é isso que eu gostaria, que a gente se tornasse referência no esporte. Isso seria um reconhecimento do Santos, das diretorias e também dos torcedores. E o fato dos torcedores pedirem você no muro é porque eles te reconhecem como referência. É algo não só pra mim, mas pra outras meninas, pro futebol feminino ganhar esse reconhecimento na modalidade também”.

E ainda tenho muito o que conquistar. Me disseram que eu já estou com 28 anos, mas eu sigo me sentindo a menina de 15 marcando o primeiro gol. Que se tornou 100. Se tornará 101, 102, 103… feitos não só individuais, mas coletivos. Ajudando o time que eu amo e me levando além. Para onde? Não sei. As coisas acontecem naturalmente. Já estão escritas. E eu só sigo jogando futebol.

Ketlen
Ketlen

(Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo)