Soteldo, Brenner, Pato... Interesse dos jogadores pela MLS vai muito além de dinheiro

Lucas Humberto
·8 minuto de leitura

A Major League Soccer (MLS) está em ascensão. Alguns anos atrás, poucos torcedores concordariam com tal afirmação. Afinal, a liga norte-americana de futebol era vista como destino de jogadores aposentados ou com problemas físicos. Kaká, por exemplo, amplamente conhecido pelo público brasileiro, estreou no torneio quando já não estava na sua melhor condição.

Mas esse cenário mudou, e muito, nos últimos anos. Atualmente, atletas cada vez mais jovens escolhem Estados Unidos e Canadá como seus destinos no esporte de alto rendimento. Três negociações específicas chamaram atenção da imprensa nos últimos meses: Brenner da Silva, 21 anos, deixou o São Paulo e rumou ao FC Cincinnati, Alexandre Prato, 31 anos, está no Orlando City e, mais recentemente, Yeferson Soteldo, 23 anos, escolheu defender as cores do Toronto FC, após dois anos e meio no Santos.

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Além dos nomes citados, há 25 jogadores brasileiros na competição, sendo que 21 deles possuem 30 anos ou menos. Segundo informações do Transfermarkt, a média de idade dos atletas que estão na MLS é 25,6 anos. A mesma estatística, relativa ao Campeonato Brasileiro, chega à marca de 25,7.

O venezuelano, ex-Peixe, deixou evidente seu desejo de participar do campeonato nacional. Durante entrevista ao ge, ele ressaltou: "Eles contam comigo para brigar por tudo e ser um dos jogadores da franquia. O Canadá é um país lindo, e a MLS cresceu de forma impressionante. Tenho certeza de que muito em breve será uma das ligas mais poderosas do mundo. E quero fazer parte dessa história".

As motivações do atleta vão além do fator econômico. Seu desejo pela disputa da MLS está diretamente relacionado ao crescimento exponencial da competição. Contudo, será que existe algo mais? Instigados pelo questionamento, resolvemos investigar com profissionais internos do torneio.

Estilo de vida norte-americano e investimento na juventude

Morar bem faz diferença na escolha de qualquer jogador. Ricardo Moreira, diretor de futebol do Orlando City, explica que esse fator não pode ser desconsiderado como um atrativo. Assim, o último dado do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede parâmetros de saúde, educação e renda de cada país, apontou que Canadá está na 16ª posição, seguido pelos Estados Unidos, na 17ª colocação. O Brasil, por sua vez, aparece em 84º lugar. A estatística é referente ao ano de 2019 e considerou 189 nações.

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Se a qualidade de vida parece caminhar de vento em popa, o torneio nacional de futebol também: "A MLS tem se consolidado cada vez mais como uma liga forte, competitiva e com bastante visibilidade – o marketing ao redor do produto, a quantidade de países para os quais os jogos são transmitidos e a não rara manifestação de clubes europeus sobre o crescimento da liga. Nós somos constantemente abordados por scouts e executivos de clubes europeus que estão aqui conhecendo nossa estrutura, vendo nossos jogos, abordando a respeito de jogadores, algo que antes era quase que restrito ao forte mercado mexicano mas que agora é global", explica Moreira.

O diretor de futebol ainda ilustra que a chegada de atletas mais jovens não é mera tendência, mas sim um movimento estratégico: "Fortalecer a liga, rejuvenescer, revender. Nós mesmos [Orlando City] temos 6 jogadores sub-23 que são presença constante em suas seleções nacionais. Existem regras na liga que fomentam esse movimento, há um incentivo para que os clubes invistam em jovens valores, como nos casos de Brenner e Caio."

Brenner em ação pelo FC Cincinnati. | Ira L. Black - Corbis/Getty Images
Brenner em ação pelo FC Cincinnati. | Ira L. Black - Corbis/Getty Images

Jovens promessas do futebol, no entanto, não deixam a liga norte-americana somente mais competitiva, eles a tornam mais conhecida. "Em regra geral, a liga já é bastante popular nos outros países sul-americanos exatamente em razão dos jovens e bons valores que vieram jogar aqui". O diretor cita três nomes como exemplo: Ezequiel Barco (argentino, 22 anos), Diego Rossi (uruguaio, 23 anos) e Jhegson Mendez (equatoriano, 24 anos).

Organização que inspira grandes nomes

Já olhou sua agenda e simplesmente não soube por onde começar? Acontece frequentemente com jogadores e técnicos no futebol brasileiro e europeu. Com calendários abarrotados de competições e viagens, muitos atletas sofrem lesões no decorrer da campanha. A MLS não é isenta de contusões. Não há como ser. Mas seus profissionais irão encontrar rotinas mais brandas e uma organização que preza pelo alto nível técnico.

Bruno Costa é head de scouting do San Jose Earthquakes. | Arquivo pessoal
Bruno Costa é head de scouting do San Jose Earthquakes. | Arquivo pessoal

É isso que explica Bruno Costa, head de scouting do San Jose Earthquakes. Ele destaca que a qualidade dos comandantes vem melhorando muito e cita alguns nomes: Frank de Boer, atual técnico da Seleção Holandesa e com passagens pelo Atlanta; Tata Martino, ex-Barcelona, Seleção Argentina e Atlanta, que hoje está no time nacional mexicano; além de Thierry Henry, que ficou um período no Montreal Impact, e Guillermo Schelotto, ex-Boca Juniors e LA Galaxy.

Os grandes nomes não são restritos ao passado. Pelo contrário, Matías Almeyda, eleito melhor treinador da CONCACAF em 2018, hoje está no comando do San Jose. Bob Bradley e Bruce Arena, dois últimos técnicos da Seleção Americana, estão na beira dos gramados do Los Angeles FC e New England Revolution, respectivamente. "Metodologias e modelos de jogos diferentes. Isso atrai os jogadores", destaca Bruno.

Matias Almeyda no comando do San Jose. | John Todd/ISI Photos/Getty Images
Matias Almeyda no comando do San Jose. | John Todd/ISI Photos/Getty Images

Ele também comenta sobre a questão do calendário e realidade organizacional: "São no máximo 44 jogos na temporada, sendo 34 partidas na fase de classificação, mais playoffs, CONCACAF e a Copa Interna." O head explica que os atletas são pagos a cada 15 dias e frequentam centros de treinamentos de alta qualidade. Esses são apenas alguns fatores, segundo Moreira, que contribuem para que o Brasil seja o quarto país com mais representantes em ação na MLS, atrás somente de Estados Unidos, Canadá e Argentina.

"Vendo agora o crescimento da MLS, com o nível de atletas jovens sul-americanos que estão vindo, só faltava o Brasil começar esse fluxo. E começou com a vinda do Caio Alexandre, destaque do Botafogo, e do Brenner, destaque do São Paulo no último Brasileiro. E agora a chegada do Soteldo, que foi contratado pelo Toronto. Mesmo sendo um atleta venezuelano, ele vinha disputando o Campeonato Brasileiro nos últimos dois anos. Então, isso mostra cada vez mais que os olhos hoje estão voltados para MLS", defende Bruno.

O resultado não poderia ser outro: as estatísticas, hoje, respondem à ascensão da competição. Bruno Costa explica que a MLS é o torneio que cresce mais rápido em comparação com as outras ligas norte-americanas e, atualmente, possui 3º maior público.

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Intercâmbio de conhecimentos

Não é incomum ouvir jogadores e técnicos, sobretudo estrangeiros, comentando sobre equívocos na organização do calendários de competições brasileiras. Se falta uma boa estrutura, sobra paixão dos torcedores. E esse intercâmbio de fatores foi comentado pelos nossos entrevistados.

"A MLS é uma liga formada por clubes-empresas, com modelos de gestão muito organizados. No San Jose temos o dono do clube, um board de quatro ou cinco pessoas que fazem reuniões com executivo de futebol e com CEO do time. O CEO é responsável por toda parte administrativa e o executivo é responsável por todo departamento de futebol. Então essa facilidade de você ter uma comunicação muito mais transparente, direta, sem tanta interferência externa, como a gente acompanha muito pelo modelo político que temos no futebol brasileiro, é um fator muito positivo", explica Bruno.

Diego Rossi e Jordan Harvey em ação pelo Los Angeles FC. | Alex Menendez/Getty Images
Diego Rossi e Jordan Harvey em ação pelo Los Angeles FC. | Alex Menendez/Getty Images

Ele, no entanto, ressalta que há muito que se aprender com a competitividade e paixão do brasileiro pelo esporte, além da nossa conhecida formação da base. "O futebol brasileiro está sempre formando grandes jogadores e é importante a gente pegar um pouco do que é feito para implementar no futebol dos Estados Unidos. É uma via de mão dupla que acaba beneficiando os dois lados", completa Costa.

Ricardo Moreira, por sua vez, evidencia a importância da questão estrutural, mas destaca que no quesito paixão pelo futebol, os brasileiros ainda são referência: "De maneira ampla, os clubes da MLS tem estrutura de centro de treinamento, equipamentos e estádios que são compatíveis ou melhores que os times do mais alto padrão europeu, além do investimento no desenvolvimento dos profissionais e no respeito, e tempo, ao trabalho", analisou, para depois concluir:

"Pra mim esse é o principal: tempo para desenvolver o trabalho, os projetos, desde que com suas etapas bem definidas e com a responsabilidade pelos resultados. Algo que temos que aprender é a paixão que o brasileiro tem pela principal competição de futebol do país. Acredito que é algo orgânico, que se cria, que está naturalmente aumentando, mas que ainda não faz jus ao que temos, ao que vivemos no Brasil."

Experiência e grandes jogadores

Aos poucos, a MLS atrai grandes nomes e especula gigantes do futebol mundial. Gonzalo Higuaín, atual jogador da Inter Miami, aparece entre os atletas com mais experiência internacional no torneio norte-americano. Contudo, ele não é o único. Blaise Matuidi, campeão mundial em 2018 pela França, também está no time de David Beckham.

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Matias Almeyda, atual treinador do San Jose, em entrevista ao 90min em espanhol, opinou sobre uma aspecto ainda pouco comentado sobre a liga norte-americana: "Acho que todos os jogadores que querem ter uma vida normal, que não querem furar fila no supermercado porque são famosos, ou não querem ir ao banco e furar fila, podem jogar aqui". Ele ainda completa: "Todos os jogadores que querem ser normais escolhem este lugar",

Gonzalo Higuaín em ação pelo Inter Miami. | Cliff Hawkins/Getty Images
Gonzalo Higuaín em ação pelo Inter Miami. | Cliff Hawkins/Getty Images