Do sofrimento na base à completude no Inter: D'Alessandro abre o coração em carta ao The Players' Tribune

Nathalia Almeida
·4 minuto de leitura

Existem jogadores que triunfam, mas não marcam época.
Existem, também, os jogadores que constroem uma bela conexão com o clube que defendem, mas pela falta de taças, não se eternizam no rol dos maiores.

Aqueles que conseguem reunir tudo isso - tempo, identificação, conquistas, liderança pelo exemplo e amor pelo clube -, ocupam a prateleira mais alta: são lendas. Atemporais.

Para o torcedor do Internacional, 'atemporal' é um adjetivo que cai muito bem em D'Alessandro. A simbiose entre clube e o lendário camisa 10, construída ao longo de 516 partidas oficiais, se consolidou em uma das histórias compartilhadas mais bonitas do futebol brasileiro.

O camisa 10 foi um dos destaques da conquista da América em 2010 | Buda Mendes/Getty Images
O camisa 10 foi um dos destaques da conquista da América em 2010 | Buda Mendes/Getty Images

Em carta ao The Players' Tribune, o craque argentino, que adotou o Brasil como seu país e a camisa colorada como sua segunda pele, descreveu a sua trajetória no Internacional com duas palavras de enorme significado: pertencimento e empatia.

"Os colorados abriram muito mais do que as portas do clube para mim. Cara, em Porto Alegre passei por uma experiência profunda e coletiva de pertencimento e empatia. A sintonia com os colorados aconteceu naturalmente. Foi amor à primeira vista. O mais importante é que eu senti uma paixão pura e verdadeira em cada um dos 516 jogos em que tive o privilégio de vestir vermelho e branco. Nós sentimos. Às vezes eu não precisava falar nada. Só de olhar as arquibancadas eu entendia o sentimento colorado, o espírito guerreiro do Clube do Povo".

No Beira-Rio, eu me consagrei como jogador. Melhor ainda, eu me realizei como ser humano.D'Alessandro, ao The Players' Tribune

D'Ale se despediu do Colorado ao final de 2020 | Pool/Getty Images
D'Ale se despediu do Colorado ao final de 2020 | Pool/Getty Images

Mas a história de glórias com a camisa vermelha só seria possível pela persistência de D'Ale e pelo apoio incondicional de sua família, em especial de seu pai, Eduardo. O início no River Plate não foi nada fácil para o garoto argentino que sonhava em ser como Rubén Paz, camisa 10 do Racing na reta final dos anos 70: as dificuldades financeiras e as 'portas fechadas' na base dos Millonarios quase o fizeram desistir da carreira no futebol, destino impedido pelo apoio constante de seus pais.

"Ao meu pai, também devo a perseverança na busca pelo meu desejo de ser jogador. Por diversas vezes eu voltei para casa decidido a desistir, mas ele e a minha mãe, Gladys, ofereceram apoio e me convenceram a continuar na luta. Não foi fácil. Desde pequeno, nada veio de graça ou sem esforço para mim. O meu pai suou muitas horas como taxista e depois como mecânico para conseguir comprar as minhas chuteiras. A nossa casa era bem apertada, então a sala também servia de quarto para mim e para o meu irmão, Marcelo. Levarei para sempre na memória a imagem das nossas camas ao lado da mesa de jantar. Ao longo da minha formação nas categorias de base do River Plate, onde iniciei aos 9 anos, quase nunca fui titular. O motivo? O meu tamanho. Praticamente todos os técnicos usavam a mesma justificativa para me deixar no banco de reservas. Chorei muito. Muito"

Craque, herói e campeão: D'Ale é atemporal no Colorado | Getty Images/Getty Images
Craque, herói e campeão: D'Ale é atemporal no Colorado | Getty Images/Getty Images

Do primeiro gol em Gre-Nais à conquista da Libertadores da América de 2010, as memórias doces e também as amargas - pois futebol não é feito apenas de vitórias -, acompanharão D'Ale para sempre. Mas uma delas parece preencher lugar especial no coração do ídolo:

"A surpresa veio logo na minha chegada, que lembro até hoje. Era noite de inverno quando o avião pousou. Eu estava ansioso pelo primeiro contato com a torcida colorada e já pensava nas fotos e autógrafos que distribuiria no salão de desembarque. Até que... ¡No me lo puedo creer! Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos insistiam em me mostrar. Centenas de colorados estavam no aeroporto para me recepcionar! Loucura o esforço que fizeram para me sentir bem-vindo desde o meu primeiro dia na cidade."

No Gigante do Beira-Rio, o armador que sofreu no início de sua carreira pela baixa estatura, se mostrou gigante como sua casa. Na bola e no coração.

Para ler a carta de D'Alessandro na íntegra, confira o The Players' Tribune.