Sob desgaste, FPF propõe regras mais rígidas para retomar Campeonato Paulista

CARLOS PETROCILO, JOÃO GABRIEL E KLAUS RICHMOND
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SÃO PAULO E SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Uma reunião entre a Federação Paulista de Futebol (FPF) e os clubes do Campeonato Paulista nesta segunda-feira (29) definiu que os cartolas irão novamente ao Ministério Público de São Paulo para defender a continuidade do torneio em meio à fase emergencial do plano de combate à pandemia estabelecido pelo governo estadual. Foi o Ministério Público que, ainda na primeira metade de março, recomendou ao governo João Doria (PSDB) a paralisação das atividades esportivas durante este período. Na última sexta-feira (26), houve prorrogação da fase emergencial até o dia 11 de abril. A FPF fará alterações em seu protocolo sanitário e vai propor a criação de regras mais rígidas para a realização dos jogos, além de diminuir o número de profissionais nas partidas. As mudanças vêm sendo alinhadas desde sexta (26). "O modelo prevê a organização de ambientes controlados, em que os clubes ficarão isolados em centros de treinamento ou hotéis, se deslocando apenas para os jogos", diz o documento, que cita ainda maior frequência de testagens, redução de efetivo de pessoas nos jogos, entre outras medidas de controle. As novas diretrizes preveem ainda que as delegações serão testadas 24 horas antes de entrarem nesses ambientes. Ainda que o documento fale em "bolha like", a concentração não será total. Profissionais colaboradores poderão se deslocar até suas casas -nesse caso, estão previstas testagens diárias. A reunião com o Ministério Público deve acontecer ainda nesta segunda, e a intenção é que o campeonato seja retomado no máximo até 11 de abril. Assim, a FPF espera manter o fim do torneio no mês de maio, como prevê o calendário inicial. A briga contra a suspensão do esporte em São Paulo tem deixado fissuras nos bastidores do futebol paulista. Desde que a medida foi adotada, no meio de março, os dirigentes têm tentado reverter a decisão de João Doria, que acatou o pedido do Ministério Público, em um processo desgastante entre as partes. O ponto mais crítico de tensão se deu no último dia 18, na reunião em que a federação colocou em votação com os dirigentes dos clubes da Série A1 a decisão de ir ou não à Justiça contra as medidas estaduais e conseguir autorização para realizar as partidas do Campeonato Paulista no estado. O encontro marcou uma divisão entre os clubes, com 8 votos a favor da judicialização e 8 contrários, o que deixou o presidente da federação, Reinaldo Carneiro Bastos, em situação delicada. A Ferroviária, clube de Araraquara, mudou seu voto de a favor para contra, resolvendo o embate em 9 a 7 e evitando que Bastos desse o voto de Minerva. O vazamento desse placar irritou o presidente e a federação. Isso porque o acordo até então previa que todas as decisões tomadas nos encontros seriam bancadas coletivamente, sem individualização do assunto. Desde então, presidentes e representantes dos clubes redobraram a cautela sobre suas posições, mesmo aquelas informais, em conversas sigilosas com pessoas próximas. Pessoas presentes nas reuniões recentes da entidade afirmam que o clima ficou mais tenso após a divulgação dos votos. O entendimento da federação e dos dirigentes segue o mesmo, de que os protocolos adotados garantem a segurança na realização das partidas e que o Ministério Público e o governo paulista, que outrora aprovaram esse mesmo protocolo, agora se contradizem ao proibir o esporte no estado. Também há a avaliação entre alguns de que está cada vez mais desgastante para a imagem do futebol paulista a defesa, por diversos meios, da realização das partidas, mesmo que haja segurança. O entendimento é de que a opinião pública tem visto a movimentação com maus olhos. Os próprios presidentes têm sido mais arredios à ideia de conversar com jornalistas desde a votação sobre a judicialização. Algumas mudanças concretas foram tomadas. Por exemplo, para a reunião seguinte, no dia 22 de março, o presidente do Red Bull Bragantino, Marco Abi Chedid, não foi convocado. No seu lugar, foi chamado Thiago Scuro, CEO do clube-empresa. "Não houve animosidade. A decisão da votação foi respeitada, não falei com o Reinaldo [Carneiro Bastos] depois. Não quero criar problema. Acho que temos que achar alternativas, um protocolo alinhado com o MP e o estado", disse Chedid à reportagem. "Foi tudo claro e objetivo, a votação [de judicialização] não passou. Precisa haver um diálogo em respeito às pessoas que morreram, respeito a isso, temos que entender que é um momento difícil do país", completou. "Nós estamos trabalhando em união, sempre conversamos em off entre os presidente e nos comunicamos. Não houve nenhuma animosidade. A relação é harmônica, respeitamos as opiniões, mesmo as contrárias A união agora é primordial para o campeonato. É consenso que há necessidade de terminar, cumprindo os contratos legais que temos", afirmou o presidente do Mirassol, Edson Ermenegildo. Antes, o presidente do Santos, Andres Rueda, sofrera pressão. Minutos após a publicação de uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em que ele defendeu a paralisação do futebol (quando a atividade ainda não estava suspensa), o clube recebeu uma ligação de Reinaldo. À época, a FPF disse que mantinha diálogo constante com todos os dirigentes. A reportagem procurou o Ministério Público, que não confirmou a realização de uma nova reunião nesta segunda até a publicação deste texto.