Como smartphones e a conectividade móvel se tornaram fundamentais para a vida de refugiados

Yahoo Notícias
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Por Victor Del Vecchio - @victordelvecchio

Desde o surgimento da espécie humana, pessoas se movem pelo planeta. Hoje, mais do que em qualquer outro momento da história, os fluxos migratórios vêm aumentando em volume e nas distâncias percorridas. Em 2016, o número de deslocados forçados, isto é, pessoas que foram obrigadas a migrar por questões de sobrevivência, alcançou o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial: 65 milhões de pessoas tiveram de deixar seus lares. Hoje a cifra já chega a 70,8 milhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Os motivos desta mobilidade são variados e muitas vezes têm relação com o fato de que há uma série de conflitos armados em andamento ou eclodindo ao redor do globo - e que nem sempre são noticiados no ocidente. Ainda, há situações em que mesmo sem conflitos generalizados, grupos específicos são perseguidos ou vivem na iminência de perseguição, que conforme convencionado pela ONU, pode se dar por motivos de raça, religião, etnia, opiniões políticas e pertencimento a grupos sociais (população LGBTQI+, por exemplo). Há ainda aqueles que se deslocam em razão de mudanças climáticas, desastres ambientais ou por se encontrarem em situações de grave e generalizada violação de direitos humanos.

Leia também

Fato é que nessa empreitada que constitui deixar seu lar para trás e cruzar distâncias e fronteiras, às vezes de mais de um país, até a chegada ao destino final onde se pretende firmar residência, a tecnologia, em especial a conectividade móvel, se torna um fator fundamental não só para garantia de maior conforto, mas também de segurança e acesso à abrigo, alimentação e serviços básicos. Segundo o relatório “Refugiados Conectados”, produzido pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, e pela empresa Accenture, “um dispositivo com conectividade é uma ferramenta de salvação”.

Podemos fazer uma reflexão básica de pensar que o brasileiro médio usa seu smartphone diariamente para se relacionar com pessoas queridas e familiares, verificar a previsão do tempo antes de sair de casa, calcular distâncias e duração de percursos, pesquisar locais onde pode consumir produtos e serviços, entre outras atividades cotidianas. Na dinâmica de quem está em trânsito ou é então recém chegado em outros país, essas necessidades assumem importância ainda maior diante do desconhecimento de pessoas, cultura e da nova realidade local.

Um outro uso muito importante de smartphones feito por deslocados forçados, é aquele com a finalidade de relacionamento com redes de pessoas que também estão em movimento, ou que passaram recentemente por essa situação, e que podem fornecer informações valiosas como rotas seguras, livres de saqueadores, de agentes de segurança que podem vir a extorquir aqueles em trânsito ou ainda, que são justamente os que executam a perseguição motivadora da fuga.

Ainda, se sairmos do cenário do refúgio e pensarmos na mobilidade humana em suas outras formas, como para fins de trabalho, estudo, reunião familiar (pessoas de diferentes nações que constituem família), podemos pensar que a conectividade aumenta as ligações e possibilidades de pessoas acessarem vagas de trabalho, postos em instituições de ensino e até mesmo se relacionarem afetivamente em aplicativos e sites de relacionamento.

No caso de Tiemoko Cisse, nascido no Senegal com dupla-nacionalidade cabo-verdiana, e que aguarda processo de naturalização brasileira, a importância dos smartphones vai além dos exemplos mencionados. A conectividade o auxiliou a encontrar apoio das comunidades senegalesa e cabo-verdiana de São Paulo quando sua carreira de jogador de futebol no Brasil foi frustrada. Foi através delas que o ex-futebolista teve conhecimento de serviços de assistência jurídica gratuita no CIC do Imigrante, localizado no bairro da Barra Funda da capital paulista, onde atua o ProMigra - Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes da Universidade de São Paulo (USP).

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Ainda, Cisse faz de problemas em smartphones a solução para a renda de sua família, formada com a técnica administrativa Kelly Roberta (28), brasileira. Ele possui um empreendimento de assistência técnica para telefones móveis no centro de São Paulo. Tiemoko é um dos exemplos do perfil mais comum de migrantes: que somam à população economicamente ativa do país, movimentam a economia e pagam impostos, e que contraria o mito de que “migrante vêm roubar empregos”. Segundo o empreendedor, ao invés disso, muito em breve irá gerar empregos: “A lojinha está crescendo e precisarei de alguém para me ajudar”.

As necessidades específicas das populações migrantes e refugiadas se somam àquelas ditas “normais” de pessoas que moram em seus próprios países de origem. Isso é reflexo de um mundo cada vez mais conectado e que pode fazer da conexão, mais do que uma forma de sobrevivência, uma forma de inclusão.

*Advogado formado pela USP, Victor Del Vecchio, é também autor e pesquisador. Escreve sobre Direitos Humanos, Migrações, Refúgio e Política Internacional.

Leia também