Lendária camisa 10 do Brasil, Sissi ficou surpresa com alcance da Copa

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Sissi é única brasileira a integrar o Fifa Legends (David Cannon/Allsport)
Sissi é única brasileira a integrar o Fifa Legends (David Cannon/Allsport)

Sissi do Amor foi a primeira grande camisa 10 do futebol feminino brasileiro. Com duas Copas e duas Olimpíadas no currículo, ela foi artilheira do Mundial de 1999 e é a única brasileira a integrar o Fifa Legends. No Brasil, contudo, ela ainda não tem reconhecimento à altura de seus feitos, e nem mesmo teve direito a um jogo de despedida com a Amarelinha, já que sua sinceridade e seus cabelos raspados desafiavam os padrões de feminilidade impostos às futebolistas no início dos anos 2000.

Destaque de clubes como São Paulo, Palmeiras e Vasco no final dos anos 90, a ex-jogadora rumou para os Estados Unidos em 2001, onde diz ter vivido os "melhores anos de sua carreira”, e decidiu ficar por lá. Ela se aposentou em 2009 com a camisa do Gold Pride, onde também jogaram outras craques como Marta e Formiga, e passou a se dedicar à carreira de treinadora. Hoje, Sissi trabalha com equipes de base do clube Walnut Creek e da faculdade Solano College, na Califórnia.

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Foi por meio do trabalho no clube que surgiu o convite para ir à França disputar um torneio amistoso com suas atletas e acompanhar jogos da Copa do Mundo, e a lendária camisa 10 ficou impressionada ao ver de perto a maior Copa do Mundo Feminina da história em termos de público e visibilidade, mas ela sabe que o sucesso de agora passa pelo trabalho árduo das gerações passadas.

“Eu sonhava [que isso fosse acontecer], acho que todo mundo sonhava. Essa Copa do Mundo está sendo diferente, o pessoal está tendo chance de ver os jogos do Brasil pela TV, o que nunca aconteceu. Isso é bom para o futebol feminino em geral e é uma coisa pela qual a gente já vem brigando faz algum tempo”, disse Sissi do Amor ao blog Deixa Ela Jogar

“Claro que isso não aconteceu da noite para o dia, e ainda tem muita coisa para melhorar. Só espero que essa visibilidade continue e não fique só na Copa do Mundo… Mas realmente eu estou surpresa. Não vou dizer para você que nunca sonhei porque eu sonhava que isso fosse acontecer um dia, então é realmente muito bom para essa nova geração. Infelizmente minha geração não teve essa sorte, mas é fruto de todo esse trabalho que a gente também fez lá atrás.”

A ex-jogadora também falou sobre as mágoas com a CBF, a relação com Marta, herdeira de sua camisa 10, e aproveitou para mandar um recado para a seleção brasileira, que enfrenta a Itália nesta terça-feira (18) em busca de uma vaga nas oitavas de final. Confira abaixo a entrevista completa com Sissi do Amor.

Como foi esse convite para ir à França na Copa?

Nossa equipe de meninas nascidas em 2006 e 2007 foi convidada para disputar um torneio amistoso aqui porque outro time desistiu, então entraram em contato com meu clube para saber que a gente tinha interesse. Elas estão com os pais, cada um pagou seu pacote, e eles pagaram minha passagem. Viemos disputar um torneio amistoso e ver cinco jogos, é um pacote. Vimos a estreia [França e Coreia], dois jogos dos Estados Unidos, Argentina x Japão e China x África do Sul. Infelizmente não tinha nenhum jogo do Brasil no pacote, e já estava tudo organizado, não tinha como mudar. Eu já estava planejando vir para a final, mas acabei vindo para a primeira fase. Se surgir uma chance, talvez eu volte [para as finais], mas talvez eu tenha compromissos com minha equipe, a não ser que seja um convite da Fifa. Como eu sou uma das Fifa Legends, se eles me chamarem, não tenho como dizer não.

E como está sendo ver essa Copa do Mundo histórica de perto?

Ainda bem que eu estou tendo a chance de ver isso. Poder ver os jogos pela TV é uma vitória, mas ainda tem outras coisas que a gente precisa melhorar. Estive na abertura entre França e Coreia do Sul com as meninas que eu treino, nascidas em 2007, e elas não tem noção da importância desse momento. Lutamos há muito tempo para isso acontecer, então quando estou nos jogos só fico lembrando, sabe, passa um filme pela cabeça, mas estou adorando a experiência.

O que mais precisa melhorar no futebol do Brasil?

Eu não gosto de fazer comparações, mas onde eu moro, nos Estados Unidos, o futebol feminino tem seu próprio espaço, é praticado nas escolas, o trabalho de base é forte. Tem que melhorar a estrutura, fortalecer o calendário, colocar jogos de janeiro a dezembro, tem que incluir a modalidade nas escolas… mas vou te falar, depende também da própria CBF. Pode ser questão da cultura brasileira. Tem esse apelo porque a seleção masculina é pentacampeã do mundo, aí a gente fica na sombra do masculino... Mas dá para ver que mudou um pouco. Não está no nível que eu acho que deveria estar, essa geração merecia mais, o talento do Brasil não tem igual. Mas tudo tem que começar lá de cima, pela CBF. Quantas seleções evoluíram e foram fortes para a Copa? Por que no Brasil não pode ser a mesma coisa? A gente vai ficar discutindo isso para sempre. Temos as soluções, mas elas precisam sair do papel, não pode ficar só nas promessas.

Sissi ficou impressionada com repercussão da Copa da França (Reprodução/Facebook)
Sissi ficou impressionada com repercussão da Copa da França (Reprodução/Facebook)

Mais sobre a Copa do Mundo Feminina no Deixa Ela Jogar:

Quais eram as maiores dificuldades da sua época?

Dificuldades que a gente tinha era ter que sair da Granja quando a seleção olímpica ia treinar, não ter uma estrutura com o mesmo suporte, não ter competições o ano inteiro e ter que se mudar por dois ou três meses quando tinha jogo, usar uniformes enormes que eram do masculino… Tem muitas coisas que a gente deixou de lado porque se fosse falar não ia ser convocada, mas minha geração sofreu para caramba. A gente fez tudo por amor. Fez tudo por amor, não por dinheiro, porque a gente não ganhava muito bem, a gente fazia porque realmente gostava do esporte. Procurei focar mais no que eu queria fazer que era jogar, representar o Brasil, e fiz isso da melhor maneira possível. Não posso ficar só me lamentando porque também tivemos momentos bons e eu tive a felicidade de ter jogado Mundial com a seleção, ter jogado Olimpíada, e acho que eu aprendi também a não ficar reclamando muito. Tenho mais que agradecer pelo que o futebol me deu. Se você me perguntar se eu faria tudo de novo, faria, sem problema nenhum.

Como foi sua saída da seleção em 2000, logo após ser artilheira da Copa?

Eu não deixei a seleção. Minha última participação foi em 2000 e eu não fui mais convocada novamente. Não sei te dizer de repente porque, mas as pessoas que comandaram a seleção depois é que podem te explicar direitinho. Não é que eu me aposentei, eles não me chamaram. Achavam que, sei lá, já estava com certa idade, então tá aí uma coisa que até hoje eu guardo mágoa foi o fato de não ter terminado minha carreira da maneira que achava que merecia pelo que fiz pela seleção, pelo que fiz por meu país.

Guarda alguma mágoa da CBF?

No início dos anos 2000, passei três anos jogando na liga profissional dos Estados Unidos e foram meus melhores anos profissionalmente, estava mais madura, no auge. Durante as férias no Brasil, o Renê Simões, que então era técnico da seleção, me chamou e perguntou se eu ainda tinha interesse de voltar a jogar pela seleção. Falei que tinha, e estava certo que eu ia me apresentar na Granja Comary. Já estava com voo já marcado para voltar para os Estados Unidos e ao mesmo tempo no processo para tirar o green card, então tive que contatar minha advogada e dizer que ia ficar mais tempo no Brasil por causa da oportunidade... mas eles mudaram de ideia. Não sei te dizer por que, ele não me explicou, só falou que tiveram reunião com a comissão técnica e acharam que pelo fato de eu não ter participado depois de 2000 e não ter feito nada pela seleção a explicação foi que não seria bom para o grupo. Dei continuidade ao processo do visto, já tinha deixado de lado isso da seleção e recebi novamente uma ligação de que eu deveria me apresentar na Suécia porque a seleção fez alguns jogos lá, então eu tive que de novo falar com minha advogada, mas não podia sair do Brasil, só com permissão. Tive que entrar em contato com a migração e aí me mandaram um e-mail da CBF novamente falando que tiveram uma longa conversa e achavam melhor eu não ir. Foi o momento mais chato para mim. Fechei meu ciclo depois daquele e-mail e preferi focar na minha vida lá nos Estados Unidos. Deixei a seleção de lado. Foi chato, eu preferia que me dessem chance de ir para lá, treinar, depois podiam me cortar, mas nem isso. Mas de repente isso me levou a focar na carreira nos Estados Unidos, a ficar trabalhando lá, então teve o lado bom.

Nunca te explicaram o que aconteceu?

Eu particularmente sei o que aconteceu. Infelizmente quem pode falar ou comentar é o pessoal da CBF. Depois falei com Renê simões durante um trabalho com a Fifa na Suíça. Eu não o conhecia, só de ouvir falar, mas nunca tinha tido a chance de conversar com ele. Quando fui para a Suíça, ele comentou para mim o que rolou, se é verdade eu não sei, porque só ouvi um lado, então preferi deixar para lá. Sabe, se eu fosse continuar vivendo minha vida com raiva, tendo bronca da CBF, não ia fazer bem para mim. Preferi deixar de lado, mas no livro do Renê Simões ele diz que eu não fui porque estava no processo de tirar o green card para os Estados Unidos, e ele sabe bem que a história não foi essa.

Foi por que você estava jogando fora do país?

Havia vários outros jogadores atuando fora do país, a Pretinha, a Roseli, todo mundo sabia o que estava acontecendo na liga americana. Não é possível que a CBF não sabia. Preferi não comentar o que Renê Simões falou para mim porque ia ficar uma coisa muito chata, aí ficou de lado. No futebol tem muita politicagem, eu não gosto muito disso, tem os bastidores que a gente sabe muito bem. Eu acreditei numa parte da versão que ele me deu porque eu conferi e sei o que acontece nos bastidores, mas eu acho que se você é o comandante de uma seleção, é você que de repente tem a carta para convocar quem você quer. Mas a gente sabe que tem outras pessoas que têm o poder e acabam influenciando na decisão.

Já recebeu convites dessa gestão a CBF para estar próxima da seleção?

Eu nunca recebi nenhum convite do Marco Aurélio, a não ser o último convite que eu fui para ser assistente pontual da seleção quando foi jogar em Seattle, em 2016, depois do Mundial do Canadá. Foi a única vez que eu fui chamada para fazer parte de algo na seleção, mas nunca tive nenhum convite antes desse do Marco Aurélio a não ser essa vez.

Qual é sua relação com Marta, que herdou sua camisa 10?

Marta jogou no Gold Pride, time que eu também joguei e fui assistente e auxiliar, mas quando ela estava lá eu não estava mais (Sissi saiu em 2009 e Marta jogou lá em 2010). Marta veio depois, mas não tive a felicidade de jogar com ela. Quando eu estava no Vasco da Gama, eu estava no profissional e ela no juvenil, mas dava para ver que ela tinha talento. Não sei se naquela época ela imaginava, ela deixava as meninas doidas, só conseguiam parar ela na porrada mesmo, entendeu (risos). Mas nosso estilo é diferente. Sempre fui uma jogadora com aquela visão de jogo, não muito de finalizar, sempre fui aquela que acho que hoje em dia tá em falta, fala-se camisa 10 mas é a posição. A gente se falou quando ela jogou em Los Angeles, não vou fizer que é minha amiga, mas não gosto das comparações e não tenho ciúme. Não é à toa que todos sabem quem é Marta hoje. Tenho respeito por ela, admiro, respeito, mas infelizmente, pelo menos do meu lado, não tive a chance de ter jogado com ela. É o que falo, camisa 10 é camisa 10, povo gosta de ficar falando sobre isso, não ligo muito para isso não. Minhas atletas admiram a Marta, são fascinadas por ela, elas respeitam muito o futebol brasileiro. As meninas veem as jogadas das brasileiras no YouTube, os dribles, e pedem para eu ensinar como se faz, por isso queria que elas tivessem tido a oportunidade de ver um jogo do Brasil. Até fizeram um vídeo, que eu mandei para a Tamires, e perguntaram como se fala “boa sorte” em português.

E o que está achando do Brasil na Copa?

Eu não vi o jogo contra a Jamaica, infelizmente, vi apenas alguns lances depois, não consegui acompanhar porque a gente tava participando do torneio justamente nesse dia. Mas fiquei sabendo, procurei saber, é o que te falei, tem muita gente que não está acreditando na seleção brasileira pelos resultados, mas Copa do Mundo é Copa do Mundo. Não consigo ver nenhuma seleção como favorita porque você não sabe o que pode acontecer. Vou te dizer, Brasil pode crescer na competição. Às vezes é bom começar a Copa desacreditado, entendeu, meu grupo já passou por isso e é bom, motiva muito mais. Mas não vai ser fácil não.

Se pudesse estar lá e dar um recado para as jogadoras brasileiras, qual seria?

Acho que o principal vai ser união. É o principal, e as brasileiras são malandras, meu, é o que eu falo, são malandras as meninas. Fato do povo não estar acreditando, união vai ser fundamental. Não tem muito como discutir, você olha assim, talento, mas realmente elas têm que confiar. A união vai ser fundamental. É como a Cristiane falou antes na brincadeira, se tiver que dar porrada mesmo tem que dar, falou brincando, mas acredito. Amistoso é amistoso, Mundial é Mundial. Não vai ser fácil não, mas como a Cris falou, se tiver que baixar a porrada, baixa (risos).

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