Sérgio Camargo tem um papel central na política genocida de Bolsonaro, dizem integrantes do Hip Hop

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Sérgio Camargo tem um papel central na política genocida de Bolsonaro, dizem integrantes do Hip Hop
Sérgio Camargo tem um papel central na política genocida de Bolsonaro, dizem integrantes do Hip Hop

Texto / Pedro Borges I Edição / Simone Freire

No dia 17 de abril, o atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, disse que não apoiará artistas do hip hop que “enveredam pelo caminho do crime, da apologia das drogas e da putaria, ou se deixam usar como capachos da esquerda”.

O posicionamento do atual coordenador do órgão público gerou revolta entre os membros da cultura hip hop, entre elas Lauana Nara, MC e ativista, e Tainá Rosa, ativista e professora de História.

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As duas mobilizaram uma carta com tom de exaltação ao papel desempenhado pela cultura hip hop para o conhecimento sobre a história de resistência da comunidade negra e condenou as manifestações públicas de Sérgio Camargo.

Em entrevista ao Alma Preta, as duas defenderam a importância da cultura Hip Hop para a juventude periférica, em especial a negra, na construção de uma identidade positiva.

“Existem várias formas de exterminar um povo, uma delas é invisibilizando sua linguagem. O hip hop nos faz ter orgulho de ser da periferia, do nosso jeito de falar, andar. Autoestima negra em um país racista é muito perigosa. Talvez seja essa a maior contribuição do hip hop para o Brasil, trabalhar a vida da juventude negra de forma a nós emancipar”, relatam.

As duas também criticaram o posicionamento de Sérgio Camargo, que compõe, segundo elas, um governo com discurso e prática alinhados ao processo de genocídio negro. “Sérgio Camargo faz aquilo que os brancos seriam massacrados se fizessem. Ele tem um papel central na política higienista e genocida do governo Bolsonaro. Mina por dentro um órgão e suas políticas públicas centrais para o enfrentamento ao racismo. Mas o trabalho dele é temporário. Não existe lugar para ele nesse governo”, afirmam.

De acordo com dados da Nielsen’s Year-End Report, um dos principais relatórios sobre o consumo de música nos EUA, desde 2017 o hip hop supera em popularidade o rock. Naquele ano, o gênero criticado por Sérgio Camargo representava 24,5% do mercado de música dos EUA, contra 20,8% do Rock. Segundo a plataforma Spotify, o gênero rap foi o mais ouvido em 2015 por quem vive em São Paulo (SP), maior cidade do país, e Brasília (DF), capital política. O gênero também ficou em segundo lugar em Goiânia (GO).

O hip hop surgiu na década de 1970, na cidade de Nova York, no bairro do Bronx, Estados Unidos, como um movimento cultural entre jovens jamaicanos, latino-americanos e afro-americanos. Os cinco pilares da cultura são o MC, DJ, Graffiti, B-Boy, e o Conhecimento.

O movimento ganhou força nos EUA e no Brasil com letras de enfrentamento à violência contra a juventude negra, em especial aquela causada pela polícia. Em São Paulo, o ritmo ganhou popularidade nacional com o surgimento dos Racionais MC’s, considerado o maior grupo de rap do país.

A equipe de reportagem do Alma Preta entrou em contato com a Fundação Cultural Palmare. Solicitamos um posicionamento do órgão sobre a cultural a cultura hip hop e uma descrição de quais seriam os representantes da cultura hip hop para o presidente Sérgio Camargo. O Alma Preta também questionou o órgão se o posicionamento do presidente da instituição não criminalizava a cultura hip hop . Não houve retorno até o fechamento desta reportagem.

Confira a íntegra da carta das ativistas:

Pega a visão, Sérgio Camargo!

Somos Mc's, grafiteiros e grafiteiras, Djs, B-girls e B- Boys, somos da criação improvisada, somos da cultura hip hop e usamos nossa arte para denunciar as opressões e as realidades que vivemos diariamente nas favelas, becos, vielas e aglomerados do país.

A Fundação Cultural Palmares, recebe o nome de um lugar de uma luta histórica para o povo negro: o Quilombo dos Palmares, terra de Zumbi, símbolo nacional contra a escravização de pretos e pretas. As lutas palmarinas trazem um legado importante para os negros e negras do país.

Nossas lutas de hoje contra o encarceramento em massa, os assassinatos dos jovens negros, o descaso do poder público nas favelas reverbera a luta palmarina. É por esse legado que repudiamos a difamação contra as manifestações culturais das comunidades periféricas, como o rap e a cultura hip hop.

Somos a cultura viva, preta, favelada e insubmissa, que desafia os poderosos com nossos corpos e nossa arte.

Somos o picho no alto do prédio da Avenida Paulista, mostrando ao mundo, que existimos e (re) existimos apesar de toda turma reacionária e genocida.

Para enegrecer, você não nos representa! Não representa a riqueza e a diversidade da população negra do país!

A cultura hip hop há mais de quatro décadas reconhece sua ancestralidade e suas raízes, cê fraga?! Temos nosso dialeto, formas horizontes de organização e sobrevivência para milhares de filhos e filhas das quebradas deste país.

Hip Hop é estado de espírito e estilo de vida!

O enfrentamento ao racismo, à exclusão social, ao encarceramento em massa, ao genocídio da população negra, ao machismo, à lgbtfobia e pela descriminalização das drogas são algumas de nossas muitas pautas, pois são questões que atravessam nossas vidas!

Ainda hoje, as pessoas negras no Brasil são vistas como criminosas. Essa é uma das principais estratégias deste crime chamado racismo no país. A cultura hip hop é combativa. Criminalizá-la é criminalizar todo um povo.

Antes de querer investigar nossas vidas pregressas, ouça nossas letras, observe o recado do picho. Se tiver condições, análise o grafite no muro. Sinta a cultura negra pulsar.

Nossa "vida pregressa" é ancestral. São os escritos potentes de Abdias Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo e tantos outros e outras que contam em palavras nossas trajetórias negras. Conheça um terreiro de Candomblé e peça aos Orixás agô por ter se aliado à Bolsonaro e seu projeto de extermínio.

O papo aqui é reto!

Sérgio Camargo, a aproximação com a leitura, arte e cultura negras, as batalhas de freestyle vão te ajudar a enegrecer o olhar. O hip hop salva vidas nas favelas brasileiras, fortalece a autoestima do povo preto, unifica as periferias do país.

Todas as quebradas cantam Negro Drama. A qualidade da letra e a sofisticação dessa poesia cantada, somos nós como exemplos vivos e traduzidos na rima por Mano Brown e Edi Rock. Nos reconhecermos em cada frase.

A juventude negra canta hoje “fogo nos racistas” de Djonga, jovem preto que fortalece vários corres na favela da Serra, em Belo Horizonte, fazendo o que o poder público insiste em não fazer. Insiste em não assistir com políticas públicas à quem vive ali. Essa rima não é violenta, não é uma ameaça; é uma denúncia contra o racismo e o genocídio. Essa rima é um grito agudo de que estamos fartos e fartas do extermínio dos nossos jovens, como reflexo da construção histórica do racismo brasileiro.

Se seu desejo é investigar, Sérgio, comece pelas rachadinhas, laranjais de desvio de dinheiro público, ligações com as milícias criminosas e o avião com drogas que rondam as proximidades do governo que você íntegra. Investigue a falta de recursos para a cultura negra, a persistência do racismo no Brasil.

Seja realmente útil para 56% da população brasileira. Respeite e proteja o legado da Fundação Palmares!

Mulheres Negras Sim!

Lauana Nara, ativista, lutadora pelos direitos humanos, MC, mãe de Caio Zulu e Odara Chantal.

Tainá Rosa, cria do Alto Vera Cruz/BH. Professora de história, Iluminadora, Artivista da cultura e mãe do Gabriel.

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