Sérgio Camargo e a Fundação Cultural Palmares são a representação do desgoverno Bolsonaro

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Sérgio Camargo e a Fundação Cultural Palmares são a representação do desgoverno Bolsonaro
Sérgio Camargo e a Fundação Cultural Palmares são a representação do desgoverno Bolsonaro

Texto / Pedro Borges

O atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, vive um abissal dilema político. Apesar de negar a existência do racismo no Brasil, ou dizer que o racismo aqui é “nutella”, está preso às dinâmicas raciais que o constituem enquanto sujeito.

A sua única agenda é a de atacar as conquistas do movimento social negro, como as cotas raciais e as ações realizadas em Novembro, mês da consciência negra. Assim como outros que negam a existência do racismo, Sérgio está preso às relações raciais. Ele não ocupará o cargo de Secretário de Cultura, não será ministro, ou abordará temas que não aqueles que digam respeito às questões de raça no Brasil.

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A normalidade brasileira permeada pelo mito da democracia racial, sem qualquer tensionamento sobre as desigualdades de raça, é o que permite e naturaliza a existência de uma esplanada dos ministérios quase toda branca. Enquanto essa for a regra, a luta antirracista será necessária.

Quando a normalidade do país deixar de ser a morte sistemática de jovens negros e existir participação real de pessoas negras comprometidas com a melhoria da vida das periferias do país, podemos sim considerar que houve um avanço nas dinâmicas raciais no país. Até lá, negar a existência das desigualdades raciais é perpetuá-las.

Sérgio Camargo também costuma ser atacado por parte de setores progressistas com termos depreciativos e de cunho racista. Quando isso acontece, se manifesta nas redes sociais. Enquanto homem negro, independente de negar a existência do racismo, será prioritariamente atacado a partir do determinante racial. Uma marca traiçoeira do Brasil, país fundado na escravização e morte de africanos e afrodescendentes.

Contudo, quando se posiciona contra a visão de outras pessoas negras, não deixa de se utilizar do marcador racial, ou mesmo de fomentar expressões de caráter racista. Ainda no mês de maio, me atacou dizendo que defendo “bandidos” e cultuo “Marielle [Franco]”.

O presidente da Fundação Cultural Palmares, órgão criado para promoção e valorização da cultura negra, faz ataques nesse tom, que reforçam a criminalização sobre uma comunidade. Nem uma figura pública e de extrema importância para a política nacional, como Marielle Franco, ex-vereadora assassinada no Rio de Janeiro, foi poupada dos ataques.

São reproduções de uma violência racial de quem mais deveria pautar o oposto, a valorização desse trabalho, ou ao menos, se restringir a fazer críticas no campo político. Existe uma diferença gritante entre criticar e atacar. Para as críticas, estamos todos sujeitos, afinal, estamos na esfera pública. Ataques pessoais ultrapassam os limites do debate democrático, algo pouco valorizado pela atual gestão.

Infelizmente, essa tem sido a tônica do atual governo, que se utiliza das redes sociais para atacar a vida pessoal de jornalistas. É uma prática de censura e silenciamento bastante perversa, porque inibe o trabalho desses profissionais.

Não à toa, os ataques de Sérgio Camargo acontecem durante a publicação de uma série de reportagens do Alma Preta sobre a Fundação Cultural Palmares, em que absurdos têm sido revelados sobre o órgão, que vive um acelerado processo de desmonte.

Sérgio Camargo, por fim, é a perfeita representação da improbidade administrativa. Como principal representante do órgão, ele deveria ser um promotor da cultura negra. Ao invés disso, o atual coordenador do órgão nega a importância histórica de Zumbi dos Palmares, uma das figuras reconhecidas pelo livro dos heróis nacionais.

Cabe ao que restou de institucionalidade democrática no país intervir para que Sérgio Camargo deixe o cargo e a Palmares respeite o mínimo do legado histórico da comunidade afro-brasileira.

O discurso atual, de ataque às conquistas do movimento negro, está em total acordo com a presidência da república e com a proposta do atual governo, de retrocessos para a população negra e fortalecimento do mito da democracia racial.

Sem a existência do racismo, não enquanto ato individual ou privado, mas como dinâmica social, não há qualquer possibilidade de reivindicação de direitos. É a isso que se presta a atual gestão da Fundação Cultural Palmares, repito, órgão de promoção e valorização da cultura negra.

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