As semelhanças do São Paulo de Aguirre com o Tricolor de Muricy tricampeão brasileiro

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Aguirre durante partida do São Paulo na Sul-Americana (Marcello Zambrana/Agif/Gazeta Press)
Aguirre durante partida do São Paulo na Sul-Americana (Marcello Zambrana/Agif/Gazeta Press)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

O São Paulo de Diego Aguirre nesta edição do Campeonato Brasileiro tem evidenciado algumas semelhanças com um passado vitorioso do Tricolor do Morumbi. Trata-se da equipe tricampeã brasileira em 2006, 2007 e 2008, comandada pelo ex-treinador e hoje comentarista Muricy Ramalho. Sem querer comparar jogadores e menos ainda sacramentar que tais conformidades farão o time de 2018 heptacampeão nacional, vale ressaltar, porém, que o fato do São Paulo voltar a ser competitivo dentro das quatro linhas carrega alguns elementos que nos remetem a um dos períodos mais gloriosos da história da agremiação paulista.

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A característica mais forte do time atual que lembra o do tricampeonato é a firme defesa. Desde que chegou ao clube, Aguirre demonstrou grande preocupação com o tema e proporcionou maior sustentação para o setor defensivo. E se hoje o time conta com Arboleda, Anderson Martins e Bruno Alves em ótima forma, entre 2006 e 2008 o São Paulo teve nomes responsáveis por dar segurança à meta tricolor que ficaram na história, casos de Fabão, Miranda, Alex Silva, Breno e André Dias, que passaram ao longo das três campanhas.

Outro fator que se assemelha em algumas situações durou até pouco tempo atrás: o uso de um zagueiro na lateral direita, fortalecendo a marcação no setor e liberando mais o lateral-esquerdo. Éder Militão, agora no Porto, se estabeleceu na direita assim como Alex Silva e Breno foram deslocados àquela posição em situações distintas em 2007 e 2008. A que se ressaltar, contudo, que o São Paulo de Muricy ficou conhecido pelo esquema com três zagueiros, que permitia mudanças táticas na defesa e o avanço massivo dos laterais. Aguirre tentou implantar o 3-5-2 no Tricolor, mas até o momento tem privilegiado a linha de quatro jogadores atrás. É provável que a troca de Militão pelo recém-chegado Bruno Peres, um lateral de ofício, mude um pouco a característica do time.

Mas além de uma zaga firme e de alta qualidade, algo que marcou os times Muricy era o senso de coletividade dos atletas das demais posições. Todos ajudavam: Jorge Wagner, Leandro, Dagoberto, Aloísio, Borges, dependendo da época, voltavam para marcar, davam carrinho etc. Coincidência ou não, a entrega em campo é uma das maiores virtudes do time de Aguirre, valorizada sempre pelos jogadores em entrevistas.

É só ver, por exemplo o quanto que Everton se doa, muitas vezes marcando o lateral adversário para que Rojas, do outro lado, tenha mais liberdade – antes de ir para a Arábia Saudita, Marcos Guilherme corria feito um louco rumo ao ataque e também à defesa. Ainda assim, Rojas já travou lance decisivo na área tricolor, Nenê tem demonstrado muita vitalidade também na recomposição e apenas Diego Souza destoa um pouco dessa característica, já que sua contribuição se dá mais quando o time está com a bola, seja em gols ou em passes.

Contra-ataque e bola aérea: marcas vistas hoje e ontem

E se a luta para retomar a bola é intensa com Aguirre assim como era com Muricy, outra característica sobressalta nas duas equipes a partir do momento em que a bola é recuperada: o contra-ataque rápido e mortal. Tanto é que o treinador uruguaio tem afirmado repetidamente que se trata de um time de resposta. Se hoje Rojas e Everton são os velocistas, antigamente essa missão ficava para Leandro e Dagoberto, por exemplo. Diego Souza faz o papel de pivô e goleador, assim como Aloísio e Borges também o fizeram. A maior diferença está no meio, dependendo da época. O time de 2006, com Mineiro, Josué, Souza e Danilo, era muito mais técnico do que o que foi campeão em 2008, que contou com Hernanes e Richarlyson, que faziam às vezes de meias, com Hugo mais avançado.

Já o time de 2007 era o mais pragmático, com uma defesa praticamente intransponível e uma resiliência para controlar o jogo, além do instinto implacável para fazer os gols e decidir as partidas mesmo nas situações mais adversas. A equipe de 2018 parece ter um meio-campo inferior aos demais, até por ainda estar em formação devido às negociações de Petros e Cueva e à lesão de Jucilei, que voltou na última partida após 20 dias fora. Além disso, o São Paulo de Aguirre se mostra mais um time de transição e menos de posse de bola, fazendo com que retenha pouco a redonda no meio, o que acaba se assemelhando um pouco com o estilo de jogo dos dois últimos títulos do Tricolor de Muricy.

Já a bola aérea foi uma verdadeira marca registrada do São Paulo tricampeão brasileiro. Cruzamentos, faltas e escanteios renderam muitos gols nas três campanhas campeãs. E essa também é uma característica evidente do Tricolor de 2018, muito incentivada pelo atual treinador. Praticamente um terço dos gols tricolores nesta edição do Brasileiro (até a 18ª rodada) saíram a partir de cruzamentos na área com a bola rolando ou a partir de faltas e escanteios. Se incluir a cobrança de falta direta no gol e a cobrança das penalidades, a bola parada e alçada na área são responsáveis por praticamente metade (14) dos 31 gols até aqui.

E se na época o São Paulo tinha um jogador como Jorge Wagner para colocar a bola na cabeça do centroavante e dos zagueiros em escanteios, faltas e cruzamentos, agora os são-paulinos contam com o veterano Nenê, que não apenas cruza bolas como poucos, mas também voltou a dar alegria aos torcedores saudosos de Rogério Ceni quando o árbitro apita falta perto da área adversária.

Até mesmo os números da campanha atual, em comparação com os daquele período, revelam muita proximidade. Analisando os jogos até a 18ª rodada do Brasileiro, a defesa atual só sofreu mais gols do que a de 2007 (16 a 9), enquanto que o ataque é o segundo, um gol a menos do de 2008, que possuía 31 tentos na época. Já em pontuação, os comandados de Aguirre alcançaram 38 pontos, superando as três campanhas do time de Muricy. Em vitórias são 11, mesmo número de 2007.

Agora resta que as semelhanças dentro de campo se concretizem também na sala de troféus do Morumbi. Para isso, no entanto, é necessário que o São Paulo de Aguirre siga demonstrando constantemente as qualidades daquela equipe de Muricy e busque também as suas próprias soluções e caminhos para superar as adversidades deste campeonato e derrotar adversários como Flamengo, Grêmio, Internacional e Atlético-MG, que estão na cola do líder, revelando desafios talvez ainda maiores do que os que foram superados no passado.

Na área com Nicola – Peixe gasta demais com comissões

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