'Sem Weintraub, tendência é que essa guerra cultural olavista piore', diz cientista político

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Weintraub anunciou sua saída, nesta quinta-feira (18), em um vídeo publicado em redes sociais, em que aparece ao lado do presidente Jair Bolsonaro (Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Weintraub anunciou sua saída, nesta quinta-feira (18), em um vídeo publicado em redes sociais, em que aparece ao lado do presidente Jair Bolsonaro (Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

A saída de Abraham Weintraub do comando do MEC (Ministério da Educação) não deverá significar uma trégua na guerra cultural olavista do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) no campo da Educação. A avaliação é de Daniel Cara, educador, cientista político e professor da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).

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Weintraub anunciou sua saída, nesta quinta-feira (18), em um vídeo publicado em redes sociais, em que aparece ao lado do presidente Jair Bolsonaro. O ministro não comentou os motivos para sua demissão, mas informou que irá assumir um cargo no Banco Mundial, em Washington, nos Estados Unidos.

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Nos bastidores, tem ganhado força a possibilidade de que o atual secretário nacional de Alfabetização, Carlos Nadalim, assuma o cargo. O nome, segundo Cara, representaria um reforço na implementação das ideias ultraconservadoras personificadas na figura do guru ideológico do bolsonarismo, o professor de filosofia online Olavo de Carvalho.

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“Nadalin é ainda mais capaz do que Weintraub de implementar essa guerra cultural olavista no MEC. Ele é um olavista mais polido e mais privatista que Weintraub. Nadalin não chega a ser um político porque não tem o grau de diplomacia necessário para isso, mas é mais polido que o anterior. E a tendência é que ele tenha uma capacidade maior de implementar essa guerra cultural olavista”, explicou Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, colaboradora do Yahoo!.

Na definição do professor da USP, essa “guerra cultural olavista” vigente é “fazer da política de educação uma estratégia de ampliação e penetração da mensagem ultraconservadora”. “O termo político correto para isso seria uma metodologia protofascista, na qual faz da educação uma máquina de propaganda do governo, sem se preocupar com o direito à educação e ao aprendizado amplo”, completa ele.

QUEDA DESAFOGA CRISE, MAS POR TEMPO CURTO

A saída de Weintraub já vinha sendo especulada em Brasília por ser um dos protagonistas das recentes tensões entre os três Poderes, e faz parte de uma trégua que está sendo construída por interlocutores de Bolsonaro. A relação do ex-ministro com o Congresso também foi uma das justificativas da demissão. 

Weintraub está sendo investigado no inquérito das fake news conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, e também é investigado por declarações racistas em relação aos chineses. Foi dele a fala na reunião ministerial do dia 22 de abril de que “eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando pelo STF”, que tornou-se pública com a divulgação do vídeo pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

A demissão de Weintraub, segundo o especialista, acontece devido à sua “extrema verborragia e por nunca ter sido à altura do cargo”, mas sinalizará um desafogo breve na crise existente no Planalto.

“Ao desrespeitar a liturgia, ficou insustentável. A queda do Weintraub desafoga a crise institucional brasileira por um tempo curto. Em um primeiro momento, vai existir a sensação de que a crise foi controlada, mas isso não deve durar 2 semanas. Em termos educacionais, não vai ter um resultado positivo”, avalia.

Cara acredita que a demissão do ministro poderá ser utilizada politicamente pelo governo como justificativa para alterar o calendário do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020. “Já que não acredita na pandemia do novo coronavírus como um motivo para o adiamento, o governo vai usar a demissão como desculpa para mexer no calendário”.

Weintraub oferecia resistência à mudança de prazo e chegou a anunciar que faria uma consulta pela internet com os inscritos para decidir sobre o adiamento ou não. No entanto, após desgaste no Congresso, voltou atrás e anunciou a mudança na data do Enem. A prova segue sem data definida.

“O que o Brasil precisa é colocar quem de fato participa da Educação à frente do debate educacional. Falta entregar a Educação aos educadores”, finaliza ele.

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