Sem respeito a protocolos, Palmeiras é recebido com festa e aglomeração após Libertadores

JOÃO GABRIEL
·6 minuto de leitura
Foto: Mauro Pimentel/Pool via AP
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Com mais de 13 mil novos casos de Covid-19 e 200 óbitos registrados nas últimas 24 horas no estado de São Paulo, o Palmeiras foi recebido com aglomeração na chegada ao Centro de Treinamento (CT) da equipe, na Barra Funda (zona oeste da capital), após o título da Libertadores conquistado neste sábado (30).

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Mais de mil torcedores -a enorme maioria jovens (inclusive crianças), sem máscara e sem respeitar qualquer distanciamento social- se reuniram no local. Por isso, foi montado um cordão com grades de ferro, o clube mobilizou uma equipe de seguranças e parte da avenida Marquês de São Vicente foi interditada.

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Os presentes tiveram de aguardar até a madrugada, depois das 2h, para verem a chegada dos jogadores. Em um ônibus, eles passaram por uma fila de sinalizadores, fogos de artifício e bandeiras até entrarem na casa alviverde.

Inicialmente, o clube havia previsto até um trio elétrico para a festa, mas cancelou os planos. Do lado de fora, foi possível ver um canhão de luz aceso dentro do CT alviverde e uma chuva de fogos nas cores do clube.

Depois, o elenco levou a taça da Libertadores até os portões do centro de treinamento, e foi recebido pelos palmeirenses. A festa, que começou ainda antes da partida, por volta da hora do almoço, nos arredores do estádio, durou a madrugada.

Cantando, tocando e sem respeitar os protocolos sanitários contra a Covid-19, os palmeirenses aguardaram por horas em frente ao CT pela chegada do elenco que venceu o Santos, por 1 a 0, no Maracanã.

Também houve aglomeração no aeroporto de Guarulhos, onde o time desembarcou. Dona da Crefisa, patrocinadora do Palmeiras, Leila Pereira chegou ao centro de treinamento com seu marido bem antes da equipe, por volta de 23h30, e foi aplaudida pelos torcedores no local.

Pouco depois de entrar no local, voltou para o portão, onde foi novamente recebida pela torcida, amontoada, a gritos de "tia Leila" e "Leila eu te amo". A reunião de torcedores do Palmeiras aconteceu mesmo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo prevendo aglomerações para o evento e em tese ter criado estratégias para evitar aglomerações.

Antes da partida, a Polícia Militar de São Paulo se reuniu com as torcidas do clubes e divulgou a chamada "Operação Final da Libertadores". Segundo informou a secretaria, os esforços estavam focados nos arredores do estádio palmeirense, com atenção para a rua Palestra Itália.

No entanto, a decisão foi de não isolar a área antes, durante ou depois da partida. A PM também não informou quantos policiais seriam deslocados para evitar o acúmulo de pessoas. "As equipes ficarão responsáveis pela intensificação do policiamento na área do estádio, nos arredores e principais locais que possam haver aglomeração de pessoas", afirmava a nota enviada pela assessoria de imprensa do órgão.

O aeroporto de Guarulhos, onde o elenco palmeirense chegou após a conquista, por meio da sua assessoria de imprensa, afirmou que a medida que tomaria seria fazer o desembarque do campeão pela pista, e não pelo saguão. O capitão Matheus, da PM, afirmou que a força designou três pelotões para a operação da noite deste sábado, dois no centro de treinamento (onde um trecho da via foi fechado) e um no aeroporto de Guarulhos, onde o time desembarcou.

"A nossa missão é garantir a segurança das pessoas e da delegação. Toda vez que tem situação de aglomeração, o máximo que nós fazemos é dar ciência para a secretaria de vigilância sanitária para ver se eles tomam as providências necessárias", afirmou.

O bancário Edmar Zanatta, 48, foi para os arredores do estádio Allianz Parque após o jogo. Diz que deduziu que haveria festa no centro de treinamento, já que a partida foi em um final de semana. "Eu tomo os cuidados, tenho meu álcool em gel, aqui entre nós [ele e dois amigos] eu fico mais à vontade, mas quando fica um contingente maior, eu ponho a máscara", afirmou.

Guilherme, estudante de 17 anos, foi com a mãe para a frente do estádio após assistirem à partida em casa, com a família. "Nessas horas, não passa pela cabeça. O título é superior à Covid", disse. Renato Trevellin, comerciante de 44 anos, chegou com a família (esposa, um filho e uma filha) por volta das 22h nos arredores do centro de treinamento. Disse que escolheu o local por ser mais sossegado que o estádio, mas que evitará se aproximar dos focos de aglomeração.

"De vir acho difícil de evitar, porque é um título que faz 20 anos que a torcida espera e já era de se esperar [que tivesse festa]. Eu tenho consciência e não vou lá no meio [da aglomeração], mas as pessoas, infelizmente, muitas nem usam máscara", comentou.

A aglomeração na recepção ao elenco dá continuidade a uma série de desrespeitos às medidas de controle da pandemia que envolvem a decisão da Libertadores. Segundo a CET (Companhia Estadual de Trânsito), também houve aglomeração na avenida Marquês de São Vicente, que ficou interditada no sentido Barra Funda/Lapa, após o apito final.

Os arredores do estádio Allianz Parque também estavam tomados por torcedores para ver o jogo e depois comemorando o título alviverde, sem distanciamento social e muitos sem máscara. No embarque do time para o Rio de Janeiro, houve presença de torcida para apoiar o time, nos arredores do aeroporto de Guarulhos.

Antes da partida deste sábado, a vigilância sanitária do Rio de Janeiro atuou em bares e restaurantes que vendiam bebida e alimentos para pessoas em pé, ao redor do estádio do Maracanã. Também dentro do palco da final houve aglomeração nas arquibancadas e foram vistas pessoas sem máscara, principalmente na hora de tirar foto, muitas vezes abraçadas e em grupo.

Não houve venda de ingressos para o jogo, mas a Conmebol (confederação sul-americana) aguardava até 5.000 pessoas no Maracanã, entre torcedores e familiares convidados pelos clubes, representantes de patrocinadores da entidade, jornalistas e funcionários, com a promessa de que medidas preventivas contra a Covid-19 seriam adotadas.

Não foi, porém, o que se viu no Maracanã neste sábado. Os torcedores convidados -cerca de 500, de ambos os clubes-- se aglomeraram assim que entraram no estádio. Em vez de se espalharem pelo local, que tem capacidade para mais de 78 mil torcedores, palmeirenses e santistas ficaram concentrados de um lado das arquibancadas, apenas separados entre si.

Tudo isso acontece quando o país inteiro enfrenta um dos momentos de maior perigo da pandemia, tendo registrado até aqui mais de 222 mil mortes e 9,1 milhões de casos. Aos finais de semana, a cidade de São Paulo, assim como todo o estado, ficam na fase vermelha da quarentena para tentar controlar a pandemia do coronavírus, que registra picos de casos desde o início do ano.

Isso significa que apenas serviços essenciais, como supermercados e farmácias, podem estar abertos. Restaurantes e bares não podem atender o público, apenas podem funcionar para entrega e retirada.

Também para tentar conter a pandemia, tanto o governo do estado, quanto a prefeitura municipal de São Paulo cancelaram o ponto facultativo durante o Carnaval, em fevereiro.

Neste sábado (30), o Brasil bateu recorde na média móvel de novos casos de coronavírus nos últimos seis meses.