Fora do BR, futebol fem. é valorizado por marcas

<em>Women’s Super League terá patrocínio recorde (Tom Flathers/Manchester City FC via Getty Images)</em>
Women’s Super League terá patrocínio recorde (Tom Flathers/Manchester City FC via Getty Images)

O Campeonato Brasileiro Feminino começou no último sábado sem um único patrocinador, mas essa realidade destoa do que vem ocorrendo com países e marcas mundo afora. Na Inglaterra, por exemplo, a Superliga Feminina (WSL) acaba de fechar uma parceria histórica com o banco Barclays. Um dos principais apoiadores do futebol inglês passa a patrocinar o torneio feminino, e com valores inéditos: 10 milhões de libras (cerca de R$ 50 milhões).

A competição passará a se chamar Barclays FA Women’s Super League. O acordo vale por três anos e caracteriza o maior patrocínio já tido pela modalidade no Reino Unido. Segundo informações da imprensa inglesa, a parceria vai colocar à disposição um fundo de 500 mil libras anuais (R$ 2,5 milhões) para ser distribuído entre os 11 clubes que disputam a competição — atualmente, há subvenção da Football Association (FA). O acordo também prevê apoio a mais de uma centena de escolinhas de futebol feminino pelo país para fomentar a formação de novas atletas.

Outras marcas têm dado demonstrações de que veem potencial no futebol feminino. Também na Inglaterra, onde as entidades e os clubes fazem esforços massivos para fortalecer a modalidade, as marcas de bebida Lucodaze, Gatorade e Budweiser recém fecharam acordos de patrocínio com a seleção inglesa, Manchester City e Tottenham, respectivamente.

O City, por sinal, tem dado exemplos muito positivos de como valorizar a equipe feminina, promover o interesse de torcedores e o consequente aumento dos anunciantes. Nesta semana, o clube publicou no Twitter uma foto do elenco oficial reunindo todos os atletas, homens e mulheres. Afinal, um patrocinador só vai se interessar pela equipe se o próprio clube o fizer primeiro.

Mas voltando às marcas, a Nike seguiu o exemplo da Visa, que em dezembro tornou-se a primeira empresa a apoiar competições femininas europeias depois que a Uefa decidiu separar os direitos de patrocínio do futebol masculino e do feminino. A fornecedora de material esportivo ainda promoveu eventos para lançar os uniformes das 14 seleções que vestirá na Copa do Mundo da França em junho. Entre elas está o Brasil, que pela primeira vez terá uma Amarelinha para chamar de sua.

A Adidas, por sua vez, anunciou que suas atletas campeãs do Mundial receberão exatamente o mesmo prêmio em dinheiro que os franceses vencedores receberam em 2018, na Rússia.

Falando em Copa, a edição da França atraiu um número inédito de patrocinadores. Além das seis marcas ligadas a todas as competições da Fifa (Adidas, Coca-Cola, Hyundai-Kia, Qatar Airways, Visa e Wanda), outras seis empresas vão pagar para expor suas marcas no Mundial feminino: a empresa de telecomunicações francesa Orange, o grupo industrial Arkema, a cooperativa Crédit Agricole, a companhia elétrica EDF, a agência de empregos Proman e a ferroviária SNCF.

E a situação no Brasil?

A boa notícia por parte das empresas veio do Grupo Boticário, que lançou a campanha “Com Você Eu Jogo Melhor” e anunciou que vai parar as operações para assistir aos jogos da seleção no Mundial. É uma tradição que a maioria das empresas segue durante os jogos da seleção masculina, mas que nunca foi feita para prestigiar o time de Marta e companhia. A ideia é valorizar a modalidade, atrair torcedores e incentivar outras empresas a fazerem o mesmo.

No ramo do patrocínio, contudo, o panorama não é bom. Apesar dos esforços da CBF, que ampliou o calendário e fechou uma parceria com o Twitter para transmitir alguns jogos, o Brasileirão atualmente não passa na TV nem tem patrocinadores fixos. Em edições anteriores, SporTV, TV Brasil e Fox Sports chegaram a exibir os jogos, mas desde o fim do patrocínio da Caixa, no ano passado, a competição ficou sem espaço na telinha e coube à própria CBF transmitir as finais por sua conta no Twitter. Com pouca exposição, há menos interesse das marcas em se associarem ao campeonato.

Segundo o diretor de competições Manoel Flores, a entidade segue na busca por patrocinadores. “A gente tem dois caminhos para a CBF conseguir abater um pouco desse custo que é altíssimo para colocar essa três competições [Série A-1, A-2 e sub-18] de pé. Um caminho é direito de transmissão. O outro caminho é patrocínio”, disse ao blog Dona do Campinho.

“Estamos olhando os dois, só que o patrocínio tem muito a ver com a transmissão. A transmissão fechamos com o Twitter, estávamos finalizando negociações com TVs abertas, estamos também finalizando negociações com plataformas que agregam. A ideia é a gente conseguir transmitir o maior volume de jogos possível, quiçá, todos os jogos da competição”, explicou o dirigente, acrescentando que o processo é lento e que algumas definições devem ser tomadas nos próximos dias.

Em um ano tão promissor para o futebol feminino, há todo um trabalho a ser feito para garantir mais estrutura para o jogo delas. A exemplo do City, isso começa nos clubes, que devem valorizar as atletas, chamar a torcida e ajudar a criar uma identificação com a equipe.

No Brasil, tais medidas ganham ainda mais importância em um momento em que vários “times de camisa” estão montando equipes femininas para atender às normas da CBF e da Conmebol. Há exemplos positivos por aqui, mas também equipes que sofrem com descaso ou problemas financeiros. O Sport, por exemplo, dispensou a equipe feminina um mês antes do início do Brasileirão alegando falta de dinheiro e precisou remontá-la às pressas para evitar uma sanção da CBF. Um bom patrocínio à competição poderia evitar esse tipo de problema.

Para despertar o interesse do público e dos anunciantes também é preciso divulgar as competições delas: a mídia deveria dar mais espaço para os jogos, resultados e conquistas do futebol feminino. E à CBF, cabe seguir pensando em maneiras de melhorar a estrutura dos torneios. Só assim serão valorizados, atrativos às marcas e fortalecidos financeiramente.

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