Neto resgata autoestima do basquete feminino, que luta para ir à Olimpíada

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(Foto: Divulgação CBB)
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Por Alessandro Lucchetti (@Alessandrolucc)

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Mesmo cansada após o treino do Vera Cruz Campinas, no ginásio da Ponte Preta, Patty Teixeira abre um sorriso amplo assim que é indagada sobre o efeito da chegada do técnico José Neto à seleção feminina de basquete. “Sempre ouvi falar bem dele, mas conhecer pessoalmente é diferente. Nossa Senhora, é um cara maravilhoso, humilde, trabalhador e de bom caráter. Ele colocou na nossa cabeça que podemos”, derrete-se a ala.

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E o que a seleção feminina pode? Neto iniciou o trabalho em maio. Em agosto, deu fim ao jejum de títulos nos Jogos Pan-Americanos. A última vez em que o Brasil subira ao degrau mais alto do pódio havia sido em Havana-91. No final de setembro, a equipe conquistou o bronze da AmeriCup, o nome marqueteiro da velha Copa América, ficando atrás de Estados Unidos e Canadá. Nas duas edições anteriores, o Brasil havia amargado o quarto lugar. Em 2015, atrás de Canadá, Cuba e Argentina; em 2017, canadenses, argentinas e porto-riquenhas medalharam. Os EUA não disputaram aqueles dois torneios. O grande objetivo agora é a vaga olímpica em Tóquio. O basquete feminino brasileiro ficou fora dos Jogos pela última vez na edição de Seul-88.

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Antes de Neto chegar, o pessimismo grassava. Afinal de contas, o Brasil andava amassando o aro. O quarto lugar na Copa América impediu a equipe de disputar a Copa do Mundo de 2018, realizada nas Ilhas Canárias, Espanha.

Algumas vozes mais críticas na imprensa, vacinadas pelos maus resultados anteriores, identificaram um certo oba-oba depois da AmeriCup e entoaram um discurso mais cauteloso. Fizeram questão de salientar que Argentina, Colômbia, Porto Rico e Paraguai têm ligas amadoras. Ou seja: bater esses adversários, como ocorreu em San Juan de Porto Rico, não seria lá grande coisa. Cabe ponderar que os danos causados por esse amadorismo ficam um pouco diluídos graças à contratação de atletas desses países por equipes de ligas profissionais. Três das 12 argentinas que foram ao Pan de Lima, por exemplo, jogam nas ligas espanhola e italiana; e a armadora Melisa Gretter é colega de Patty no Vera Cruz, de Campinas.

Por meio da assessoria de imprensa da equipe campineira, Meli, como é carinhosamente chamada, diz que o basquete argentino feminino está buscando formas de contornar os problemas decorrentes do amadorismo. “A liga da Argentina não é profissional, mas, já há alguns anos, estamos trabalhando de uma forma diferente, principalmente nas seleções, e isso contribui para que nosso nível suba. Também já faz um tempo que nos esforçamos para deixar o país e atuar em clubes do exterior, para que possamos continuar crescendo neste esporte”.

Meli fraturou um dedo da mão direita nas finais da LBF, e está fazendo tratamento em seu país. A talentosa armadora, revelada pelo Ben Hur de Rafaela, Santa Fé, aposta que a contratação de jogadoras estrangeiras também possa contribuir para o progresso da liga argentina. “A luta pela profissionalização é constante, e a falta de patrocinadores não ajuda. Há alguns anos batalhamos para que a Liga Nacional continue a ser realizada. É permitida a contratação de estrangeiras, e isso pode contribuir para elevar o nível das jogadoras argentinas”.

O sorteio do Pré-Olímpico das Américas, que será em novembro, acabou colocando Brasil e Argentina no mesmo grupo B, ao lado de Colômbia e Estados Unidos. Para que a seleção brasileira obtenha vaga para o Pré-Olímpico Mundial, terá que ser uma das duas melhores equipes do quadrangular. Como são favas contadas que os EUA ficarão com uma das vagas, Brasil, Argentina e Colômbia vão se acotovelar pela outra. A competição será em Bahía Blanca, a terra de Manu Ginóbili. Meli e a ala-pivô Ornella Santana, também às voltas com fratura manual, correm contra o tempo para se recuperarem bem.

As duas equipes mais bem-sucedidas em Bahía Blanca vão se juntar a outras 14. A Federação Internacional de Basquetebol (Fiba) promoverá um sorteio, distribuindo as 16 equipes em quatro grupos. Os três primeiros colocados de cada grupo obterão vaga olímpica – essa afirmativa é válida apenas para os grupos que não contiverem EUA (campeões mundiais) ou Japão (país-sede), já previamente classificados. Ou seja: num grupo em que as norte-americanas estejam presentes, haverá apenas duas vagas em jogo. Esses quatro quadrangulares classificatórios para os Jogos serão em fevereiro.

Identidade

“À primeira vista, pode parecer fácil, porque haverá 14 equipes buscando dez vagas. Mas há muitas seleções boas: Austrália, China, Espanha, República Checa, Canadá, apenas para ficar em algumas. É fundamental o sorteio: não podemos cair na chave dos EUA ou na do Japão”, diz Adriana Santos, gerente técnica do basquete feminino na CBB.

Adriana celebra a chegada à seleção feminina de Neto, que se tornou conhecido por um público mais amplo nacionalmente graças à conquista de quatro títulos do NBB pelo Flamengo. Vários jogos foram exibidos em TV aberta. “Conversamos bastante com ele. Não tenho como negar que não tínhamos uma coisa boa para oferecer a ele. Era um momento delicado do basquete feminino. E sei que ele foi muito desencorajado por pessoas que o aconselharam a não aceitar. Mas ele é um cara vencedor, e gosta de desafios”, diz a dirigente, que foi campeã do Mundial de 1994 ao lado de Paula, Hortência e Janeth.

Segundo a dirigente, o basquete feminino precisava de uma sacudida. “O basquete evolui muito, não se pode ficar parado no tempo. A gente agradece aos treinadores antigos, que deram toda a sua contribuição, não poderemos jamais descartar o que fizeram. Mas evoluir é preciso”.

Adriana afirma que o basquete feminino do Brasil havia perdido, nos últimos anos, a sua identidade. “Ninguém mais sabia dizer como jogava a nossa seleção. Era um time de bom ataque ou um time que apostava no contra-ataque? Como era a nossa defesa? Acho que, com o Neto, criamos uma cara. A grande mudança é que a equipe agora defende muito bem, de forma aguerrida, forte. E temos pivôs muito boas”.

(Foto: Divulgação Flamengo)
(Foto: Divulgação Flamengo)

Por variados motivos, Clarissa, Damiris e Érika se ausentaram da desastrosa campanha brasileira na Copa América de 2017. Naquela competição, o treinador da seleção foi Carlos Lima. Com a volta das referências, o volume de jogo nacional cresceu.

Neto faz uma avaliação comedida de seus primeiros meses de trabalho. “Quando jogam com seus times completos, Estados Unidos e Canadá estão bem acima das demais seleções do continente. Nossa expectativa era jogar de maneira mais digna contra essas duas potências. Quanto às outras equipes, temos que ser dominantes. Atingimos essas metas na AmeriCup”, diz o treinador, que foi auxiliar de Lula, Moncho Monsalve e Rubén Magnano quando esses técnicos comandaram a seleção masculina.

Em sua carreira de treinador, iniciada em 2002, Neto jamais havia dirigido uma equipe feminina. Tendo isso em vista, foi cauteloso ao entrar nesse universo. “Fiz questão de conversar com todas as pessoas que são referência na modalidade: Paula, Hortência, Janeth, Miguel Ângelo da Luz, Maria Helena Cardoso, Barbosa, entre outros. Eu estava entrando no mundo que eles construíram, e é importante respeitar o meio e a cultura”, diz o técnico de 48 anos, paulista de Itapetininga.

O treinador diz que abriu todos os treinamentos para colegas treinadores. Segundo ele, a ideia é formar um grupo de estudos e manter aberto um canal de comunicação. Quanto aos resultados em Porto Rico, Neto afirma que o Brasil deu alguns passos à frente.

“Na seleção norte-americana, praticamente todas as jogadoras são da WNBA, o que as coloca em outro nível. Já o Canadá, além de ser forte, ficou um mês se preparando na Europa, disputando amistosos. É algo que, dadas as condições financeiras da CBB, não temos a menor condição de fazer. São incomparáveis os volumes de recursos. Uma vez que a diferença é tão grande entre essas duas potências e o Brasil, tratamos de aplicar nossa metodologia e testá-la. Comparando o Brasil ao Canadá em jogos contra os Estados Unidos, pontuamos mais do que elas (o Brasil perdeu para os EUA por 89 a 73, enquanto o Canadá foi superado por 67 a 46). Na semifinal com o Canadá (derrota brasileira por 66 a 58), jogamos de igual para igual. E temos que admitir: as jogadoras canadense estão bem acima das nossas tecnicamente”.

Na opinião do treinador, o basquete feminino brasileiro só crescerá de forma consistente se houver um processo de trabalho bem direcionado, envolvendo os clubes e suas categorias de base. “A quantidade de praticantes é bem menor, em comparação com o masculino. Precisamos apostas nas gerações futuras, melhorar a qualidade técnica”.

E por quantos anos Neto pretende capitanear esse trabalho?

“Eu não iria aceitar um contrato com vigência apenas até a Olimpíada de Tóquio. Não seria justo comigo, porque comecei a trabalhar há poucos meses e estou enfrentando seleções que têm técnicos que estão em seus cargos há quatro anos. Por esse motivo, meu contrato está em aberto. Posso sair a qualquer momento também”.

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