'Se fosse em Higienópolis, seria diferente', diz padrinho de jovem pisoteado no Paraisópolis

Familiares lamentaram a ação da PM que resultou na morte de 9 jovens e adolescentes. (Foto: AP Photo/Andre Penner)
Familiares lamentaram a ação da PM que resultou na morte de 9 jovens e adolescentes. (Foto: AP Photo/Andre Penner)

“Olha para o parceiro que tá do seu lado e diz assim: você tá proibido de morrer”, diz a postagem de Gustavo Xavier, 14, posando com um amigo em frente ao baile DZ7, em Paraisópolis, em outubro.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

A frase é um trecho de um funk de MC Cidinho. Dois meses depois da postagem Gustavo seria o mais jovem entre as vítimas do episódio no qual, durante uma ação policial, nove pessoas morreram pisoteadas.

Leia também

O adolescente havia ido pela terceira vez escondido da família ao baile funk da favela, conhecido como DZ7. Na noite de sábado (30), ele saiu mais uma vez com os dois amigos para o baile mais famoso da cidade.

Um dos últimos a ver o rapaz foi o primo, Arthur Sá, 16. "Ele disse que ia no baile. Eu falei: 'Não vai, Tu, tá dando um monte de polícia por lá'", conta. O jovem teria respondido que iria pois nem sempre a polícia aparecia para acabar com o baile.

Padrinho do rapaz, o ascensorista Roberto Oliveira diz que a família só descobria depois que o rapaz não voltava para casa que ele havia ido ao baile. Era só nessas ocasiões que o jovem dava motivo para ser repreendido.

"Vão dizer: 'ah, agora é bom. Ah, agora é santo'. Ele era bom, não é à toa que está onde está", diz Oliveira, para quem o rapaz, sem malícia, acabou não sabendo a hora de escapar do cerco policial ao baile. 

Leia mais sobre o caso

Oliveira afirma que há muito preconceito de classe em relação a jovens pobres que, assim como Gustavo, buscam o lazer nesses bailes. Isso se reflete, diz ele, na forma como autoridades tratam o caso também.

"Se fosse lá, como é mesmo?, Higienópolis, o tratamento seria diferente", diz. "Como disseram os Racionais MCs, da ponte para cá é diferente", completa ele. Por cautela em relação a eventuais represálias, ele evita falar o que pensa sobre a atuação da PM. 

Oliveira conta que, na manhã de domingo, a família se organizava para procurar o jovem que ainda não havia voltado para casa. "Aí vimos ele nas imagens que foram divulgadas, em que ele estava caído no chão. A gente queria ter esperança, mas já havia muito medo de que ele estivesse morto", disse. 

Gustavo morava com a avó e a mãe, cercado por tias e primos, no Capão Redondo, no extremo sul da cidade. 

O padrinho e familiares se referem a Gustavo como um menino, que, pelo riso fácil, era conhecido como "risadinha". "Ele não bebia, não cantava, não dançava, só dava risada. A gente pensava: o que ia fazer em baile?", lembra a tia, a doméstica Maria Ivonete Sá. 

Segundo ela, Gustavo estudava e fazia alguns bicos, como ajudante em um mercado. "Era só de vez em quando, para comprar as coisas dele. Mcdonalds, roupa de marca, essas coisas", afirma. 

Primo de Gustavo, com quem cresceu, Giovani Sá, 15, diz que o maior sonho do adolescente era comprar um Gol. "Aquele quadrado, do modelo antigo, sabe?"

O CASO

Uma ação policial em um baile funk na madrugada de domingo (1º) terminou com nove pessoas mortas por pisoteamento e outras 12 feridas, na favela de Paraisópolis (zona sul de SP). 

O tumulto aconteceu em evento com mais de 5 mil pessoas. Imagens e relatos indicam que a multidão acabou encurralada pela polícia em vielas estreitas -alguns tropeçaram e acabaram mortos. Jovens afirmaram que a ação foi uma "emboscada".

A Polícia Militar afirma que ainda não é possível saber se a ação ocorreu de maneira correta, que algumas imagens divulgadas sugerem abusos e que tudo será investigado. 

A corporação sustenta, porém, que a confusão começou após uma perseguição a suspeitos em uma moto, com quem trocaram tiros. 

Segundo a polícia, a fuga se deu por 400 metros e depois os suspeitos entraram no meio do baile ainda disparando. "Criminosos utilizaram pessoas no pancadão como escudos humanos", disse o tenente-coronel Emerson Massera, da PM. 

Na noite de domingo, centenas de moradores de Paraisópolis tomaram as ruas da favela e arredores para protestar contra o episódio.

Durante a manifestação, os moradores cantaram um trecho de um funk clássico. "Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci", entoaram. 

Em parte do trajeto, encontraram com policiais e o clima ficou mais tenso. "Assassinos, assassinos", gritavam. No entanto, não houve conflito.

Leia também