Schillaci, o 'senhor ninguém', teve conto de fadas na Copa de 1990

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O comercial da cerveja Old Smithwick, campanha publicitária lançada antes da Copa do Mundo de 2002, mostra amigos irlandeses conversando com dois italianos. Um deles pede licença para apresentar um outro conhecido. Salvatore "Totó" Schillaci aparece sorridente, para espanto das pessoas no bar.

Era uma dupla brincadeira. O atacante fez o gol que eliminou a Irlanda na Copa do Mundo de 1990. Pouco tempo depois ele desapareceu da mídia. Fez poucas aparições públicas e quase não falou com jornalistas.

Schilacci é um dos maiores enigmas da história dos Mundiais. Um conto de fadas do tempo em que o Campeonato Italiano era o mais assistido do planeta e a Itália, que seria sede do torneio entre seleções, entraria como favorita.

O jogador estava no Messina, na Série B, em 1989. Doze meses depois, os jogos da Azzurra seriam batizados como "le notti magiche di Totó Schillacci" (as noites mágicas de Totó Schillaci, em italiano). Ele nem deveria estar lá. Era o sexto atacante na ordem de preferência do treinador Azeglio Vicini. Estava atrás de Vialli, Carnevale, Serena, Mancini e Baggio.

Mais ou menos como Ronaldo seria na Copa de 1994. Foi convocado só para compor elenco. Não para pisar em campo.

"Vamos falar a verdade. Eu já estava feliz da vida por ter sido chamado. Nunca havia atuado pela seleção italiana até a Copa do Mundo. Só estar sentado no banco de reservas, para mim, já era uma honra incrível", confessou Schillaci, anos mais tarde.

A 14 minutos do fim da estreia e com o placar em 0 a 0 com a Áustria no Estádio Olímpico lotado, Vicini sentiu urgência de mudar o ataque. Não quis colocar Roberto Baggio e nunca gostou de Roberto Mancini. Mandou Schillaci entrar.

Não demorou. Cento e vinte segundos mais tarde, Totó fez pela primeira vez o que se tornou sua marca registrada na competição. A comemoração com a corrida enlouquecida, os olhos esbugalhados. A expressão de incredulidade de quem não deveria estar ali e muito menos fazendo gol. No entanto…

Durante aquele mês de junho, Schilacci viveu o sonho. Celebrou, de forma ensandecida, seis gols na Copa do Mundo de 1990.

"Eu não tinha responsabilidades. Era apenas um dos 22. Quando fiz o gol contra a Áustria, minha vista ficou escura e saí correndo, estupefato. Não via nada. Parei porque fui abraçado. Nunca na minha vida eu pensei que viveria aquilo. Fazer gol pelo meu país na Copa do Mundo. Indescritível."

Aquele torneio deveria ser o Mundial do holandês Marco van Basten, do brasileiro Careca, do uruguaio Ruben Sosa. Foi o mais imponderável torneio já organizado pela Fifa. A Irlanda chegou às quartas de final sem ganhar uma partida. Perdeu para a Itália apenas porque Pat Bonner escorregou e por ser mais uma "notte mágica di Totó Schillaci". O tornozelo de Diego Maradona parecia um melão. No entanto, ele e Jorge Burruchaga levaram a Argentina à final, fazendo o Brasil cair pelo caminho.

A Itália perdeu na semifinal diante dos argentinos, em Nápoles, e Schillaci não foi chamado para fazer uma das cobranças na disputa de pênaltis.

"Estava com muita dor no tornozelo. Se tivesse de bater, bateria. Sinceramente, o que tinha a perder? Já tinha anotado cinco no torneio. Se eu desperdiçasse, ninguém teria coragem de dizer que eu era vilão", confessa. Os papéis ficaram com Aldo Serena e Donadoni.

Depois da Copa, Schillaci fez apenas mais um gol pela Itália, em amistoso diante da Noruega. Transferiu-se da Juventus para a Internazionale, onde jogou de menos e se machucou demais. Ficou difícil voltar a ser herói nacional. Estava cada vez mais percorrendo o trajeto do atacante que, quando convocado por Vicini, foi apelidado maldosamente de "signor nessuno" (senhor ninguém, em italiano). Um siciliano que saiu da pobreza, passou longo tempo em ligas amadoras e na Série B, até conquistar o país.

Seria normal que Salvatore quisesse que o conto de fadas durasse para sempre. Mas, a partir de 1992, cada vez mais caiu no ostracismo, menos de dois anos após ter sido o artilheiro do Mundial. Começou a entrar em depressão. As coisas ficaram piores no ano seguinte.

Gianluigi Lentini foi comprado pelo Milan como a maior transação da história do futebol até então: 15 milhões de euros (R$ 79 milhões pela cotação atual) em 1992. Sofreu grave acidente automobilístico no ano seguinte e ficou em coma. Quando a imprensa chegou ao hospital, havia uma mulher deixando discretamente o local, às lágrimas. Todos os dias, ela visitava o jogador, sempre de óculos escuro e usando chapéu. Alguns repórteres estranharam e pesquisaram a história.

Era Rita Schillaci, mulher de Totó.

No ano seguinte, como que para tentar enterrar o passado, foi o primeiro italiano a se transferir para a J-League. Assinou com o Jubilo Iwata. Foi bom para ele. Voltou a ser campeão e reconquistou o que havia perdido na terra natal: o respeito dos colegas, o carinho da torcida e o amor-próprio.

Schillaci pendurou as chuteiras em 1999. Abriu escola de futebol em Palermo e passou anos fugindo da imprensa. Voltou a aparecer no comercial de cerveja irlandesa. Em 2003 aceitaria o convite da TV estatal italiana RAI para participar de "L'isola dei famosi" (a ilha dos famosos, em italiano), a versão local do programa "No Limite". Casado pela terceira vez, passou a aceitar pedidos de entrevistas e se reencontrar com suas noites mágicas de 1990.