Pronúncia do nome colocou zagueiro brasileiro na história do futebol britânico

Colaboradores Yahoo Esportes
·3 minuto de leitura
Scheidt durante amistoso pelo Celtic (David Rawcliffe/EMPICS via Getty Images)
Scheidt durante amistoso pelo Celtic (David Rawcliffe/EMPICS via Getty Images)

A contratação foi notícia no noticiário noturno da BBC, o mais assistido da Escócia, naquele dezembro de 1999.

"Celtic anunciou que seu novo jogador será chamado de Rafael. Graças a Deus por isso", finalizou a apresentadora, depois de breve descrição do jogador..

>> Ouça o 'Segunda Bola', o podcast do Yahoo com Alexandre Praetzel e Jorge Nicola

Rafael Scheidt era um nome conhecido no Brasil no final do século XX e início de XXI. Havia sido campeão gaúcho, Brasileiro e da Recopa Sul-Americana com o Grêmio e convocado para a seleção brasileira. Mas sua aquisição pelo gigante escocês o tornou figura lendária no futebol do país. Não pelos motivos certos.

O sobrenome Scheidt remete a uma pronúncia popular no norte da Inglaterra e na Escócia para a palavra "shit". Significa “merda”. A manchete do The Herald, diário de Glasgow, no dia seguinte foi um trocadilho irresistível para a imprensa local: Barnes contrata Scheidt.

John Barnes era o técnico da equipe.

"Eles (os dirigentes) não me explicaram muito bem o assunto. Meu pai não gostou muito de eu mudar de nome, mas não vi problema nenhum. Depois que eu fiquei sabendo do problema. Eu achava que ia dar a resposta em campo, então não liguei", lembra o ex-zagueiro, hoje em dia empresário de jogadores.

Scheidt não dominava a língua inglesa. Neste caso, felizmente. Os programas de humor deitaram e rolaram com a pronúncia. As torcidas adversárias, especialmente do Glasgow Rangers, também.

"Essa questão do nome se tornou folclore, mas a verdade é que eu tive muito azar na Escócia", completa ele.

Um dia antes da estreia, Scheidt foi internado com apendicite. Demorou quase um mês para voltar aos treinos. Quando estava prestes a enfim entrar em campo, sofreu choque em um treino com atacante reserva e teve nova lesão. Nos primeiros seis meses no Celtic, atuou por apenas 90 minutos. A estreia aconteceu em 3 de janeiro de 2000, contra o Dundee United, pela liga local.

Ele teve azar também por ser contratado em um momento conturbado para o Celtic. John Barnes já estava com os dias contados.

"Eu não o conhecia. Nunca o havia visto jogar. Kenny (Dalglish, ex-atacante que fazia parte na comissão técnica) disse que ele era um zagueiro da seleção brasileira e o Rangers estava fazendo investimentos em jogadores. Nós tínhamos de responder", afirma o treinador, 21 anos depois.

Scheidt foi adquirido após análise de vídeos das suas atuações pelo Grêmio. O Celtic chegou a divulgar que o zagueiro tinha 16 partidas pela seleção brasileira, mas depois corrigiu para três. As outras 13 haviam sido pela equipe olímpica.

O clube escocês pagou 5,5 milhões de euros para comprá-lo. Hoje em dia seriam R$ 35,8 milhões. O salário do reforço era de 25 mil euros por semana (R$ 162,5 mil na cotação atual).

"Outras equipes da Europa estavam interessadas. Teve uma história de sondagem do Milan. Mas o Celtic foi rápido e fechou negócio", disse Scheidt.

Suas atuações decepcionaram, o que tornou as piadas ainda mais maldosas. "Rafael is Scheidt" (Rafael é Scheidt, com trocadilho por causa da pronúncia do sobrenome) foi uma das manchetes publicadas.

No final de 2000, o brasileiro tinha jogado apenas 10 vezes e John Barnes havia sido substituído pelo irlandês Martin O'Neill. O novo comandante foi sincero com Scheidt: não planejava utilizá-lo.

Para tentar diminuir o prejuízo, o Celtic aceitou emprestá-lo por dois anos para o Corinthians, onde o zagueiro foi campeão paulista, do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil. Pelo acordo, no final de 2002, ele teria de voltar para a Escócia.

"Eu estava disposto a provar que poderia ser um bom jogador para o Celtic. Queria mostrar isso, mas não tive chance", afirma ele.

O defensor foi negociado com o Atlético-MG.

"Nós queríamos fazer uma grande contratação. Nem pensamos na questão do nome, mas quando percebemos, já ficou claro que seria difícil ele ter sucesso por causa das piadas. Seria complicado para Rafael de qualquer jeito porque o clima era ruim no clube. Ele seria criticado de qualquer jeito", finaliza Barnes.