Vice brasileiro há 20 anos, São Caetano se afundou e agora volta ao Paulistão

Victor Rocha
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SAO CAETANO DO SUL, BRAZIL:  Players of the Sao Caetano, celebrate with goal keeper Silvio Luiz (1) after finishing the penalties against Penarol of Uruguay, 14 May 2002. AFP PHOTO/Mauricio LIMA Jugadores del Sao Caetano festejan la victoria junto al arquero Silvio Luiz (1), luego de finalizar los penales frente al Pe?arol de Uruguay, el 14 de mayo de 2002, durante el partido de vuelta disputado en el Estadio Anacleto Campanella, en Sao Caetano do Sul, a 25 km de Sao Paulo, Brasil, valido por las cuartos de final de la Copa Libertadores de la AmTrica. Sao Caetano venci= 2-1 en el tiempo reglamentario y despuTs 3-1 en los penales. AFP PHOTO/Mauricio LIMA (Photo credit should read MAURICIO LIMA/AFP via Getty Images)
Jogadores do São Caetano comemoram classificação na Libertadores de 2002 (AFP PHOTO/Mauricio LIMA/Getty Images)

Há 20 anos, o São Caetano era vice-campeão brasileiro. O campeonato de 2000 só teria a final disputada no início do ano seguinte, em três jogos entre o Azulão e o Vasco Gama. Hoje, o São Caetano figura na quarta divisão e terminou a Série D de 2020 no último lugar em seu grupo. O que aconteceu para a derrocada sem precedentes? E nos tempos de glória, qual foi a combinação de fatores que fez o time dar tão certo e alcançar o protagonismo nacional? Conversamos com algumas grandes figuras da história do clube do ABC paulista para relembrar detalhes e tentar entender os percalços que culminaram no atual momento.

O ex-volante Fabinho, que atuou no Corinthians, Cruzeiro e Santos, é o atual coordenador técnico do São Caetano. Ele foi formado nas categorias de base do clube e surgiu naquele time que fez sucesso no início do século. "O São Caetano me tirou da várzea, sou eternamente grato ao clube". Ele é responsável por liderar o projeto do Azulão na campanha no Campeonato Paulista 2021, após título da Série A2.

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“Deu tudo errado e conseguimos o título. O clube teve a base saqueada no ano passado e não conseguimos honrar os compromissos. O lado financeiro estava muito ruim e o ambiente conturbado politicamente. Os jogadores ficaram apenas pelo lado profissional. Para os que não tinham uma boa condição, a permanência ficou insustentável.”

Diferentemente do que foi no ano passado, Fabinho conta que um dos maiores méritos do time vice-campeão brasileiro por dois anos seguidos no início dos anos 2000 era o bom ambiente.

“O ambiente no São Caetano naquela época era excelente. Muito propício para o desenvolvimento dos atletas. Havia ajuda por parte dos mais experientes e companheirismo entre todos. A diretoria passava tranquilidade e recebíamos a cada duas semanas”, relembra. Grandes nomes do São Caetano na época, Adhemar e Dininho, contam algumas histórias do time que era temido pelos rivais, especialmente os grandes de São Paulo.

Há 20 anos, a chance de conquistar o Brasil

O Campeonato Brasileiro de 2000, chamado Copa João Havelange, reuniu times das séries A, B, C, totalizando 116 participantes. Estes, foram divididos em quatro módulos. O formato de disputa foi complexo: o módulo Azul contou com equipes da primeira divisão e algumas da segunda. Já os módulos amarelo, verde e branco tiveram clubes das séries B e C, com os dois últimos possuindo apenas times da terceirona. O Azulão disputou o Módulo Amarelo e foi quem mais pontuou na primeira fase. Na segunda, passou por CRB, Náutico, Paysandu e, na final, pelo Paraná. Assim, ganhou o direito de disputar o mata-mata principal do campeonato. Nas oitavas de final, enfrentou o Fluminense. Após empate por 3 a 3 no Parque Antártica, o time do ABC Paulista calou o Maracanã com a vitória por 1 a 0, graças a um golaço de falta de Adhemar.

“Aquele gol ficou marcado para todos. Para mim foi algo tremendo”, conta Adhemar, artilheiro do Brasileirão daquele ano, com 22 gols. Para o atacante, o técnico Jair Picerni, que tinha acabado de voltar do futebol português, foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso do time.

“O Jair teve grande mérito naquele time. Ele tinha trabalhado em Portugal e veio com uma grande bagagem de lá. Ele inclusive conta que, quando treinou o Nacional da Ilha da Madeira, o Cristiano Ronaldo foi o gandula do time” (O Nacional foi o segundo clube de Cristiano nas categorias de base, que ficou por lá de 95 à 97, dos 14 aos 16 anos. Picerni comandou o clube de 96 à 98).

“Ele veio com uma ideia de 4-3-3 que é muito usado hoje, com dois pontas. Na época, a maioria das equipes jogava no 4-4-2 ou 3-5-2. O nosso jogo era bem ofensivo. Para defender, muitas vezes nos fechávamos num 4-4-2. Viramos sensação com o conceito tático que o Picerni trouxe de Portugal”, explica.

O time-base era: Silvio Luiz; Japinha, Daniel, Serginho (Dininho) e César; Adãozinho, Claudecir e Ailton; Esquerdinha, Adhemar e Wágner.

“Jogávamos com o Wagner pela direita, eu pelo meio flutuando e, na esquerda, o César e o Esquerdinha voavam. O meio aliava forte poder de marcação e alta qualidade de jogo, com o Claudecir e o Adão. A defesa era muito sólida e segura”, relembra Adhemar.

O ex-camisa 18, que chegou a atuar até como meia, faz uma leitura interessante sobre o comportamento dos centroavantes atualmente e comenta como conseguia aproveitar os espaços para marcar gols:

“No papel eu era o centroavante, mas jogava quase como meia muitas vezes. Eu aproveitava para recuar e utilizar o espaço entre as costas dos volantes e os zagueiros. É um espaço que pode ser muito bem aproveitado pelos atacantes para enganar a marcação. Hoje, vejo que os atacantes ficam muitas vezes presos entre os zagueiros tomando porrada sem necessidade. Tem que chutar no gol também. A bola não entra sozinha!”

Nas quartas de final, o São Caetano passou pelo Palmeiras e, nas semifinais, pelo Grêmio. A grande final foi contra o Vasco da Gama. Após empate por 1 a 1 no Parque Antártica, o segundo jogo foi o fatídico episódio em São Januário em que uma grade de proteção das arquibancadas cedeu, causando o ferimento de 150 pessoas. A partida foi suspensa e um terceiro jogo foi marcado para o Maracanã. Fabinho lembra que a equipe entrou meio “aérea” após presenciar o lamentável acontecimento. O Vasco levou o título com a vitória por 3 a 1.

Ex-jogador do clube, fabinho hoje comanda a renovção (AD São Caetano)
Ex-jogador do clube, fabinho hoje comanda a renovção (AD São Caetano)

Ambiente positivo e salário em dia fizeram a diferença

Segundo jogador que mais vestiu a camisa do São Caetano, com 323 jogos, ficando atrás apenas do goleiro Silvio Luiz, Dininho jogou no São Caetano de 1998 à 2005. Foi campeão paulista pela agremiação e estava no grupo que foi vice dos Brasileiros de 2000 e 2001 e da Libertadores em 2002. Hoje, estuda para ser técnico e pretende tirar a licença B de treinador na CBF. Na campanha que levou o Azulão de volta à elite do Paulistão, foi auxiliar técnico de Alexandre Gallo.

“São coisas que só acontecem com o São Caetano mesmo. O time venceu a A2 devendo salário e desorganizado na parte administrativa, com ordem de despejo. Mesmo assim, conseguimos ganhar o campeonato. Após o término dessa competição, todo mundo saiu”, explica o também ex-jogador de Palmeiras e Flamengo.

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Esse contexto era totalmente diferente de quando o time brigava pelos maiores títulos do cenário nacional.

“Antes, no começo dos anos 2000, a condição financeira era ótima. O bicho era compatível com os times grandes. O São Caetano tinha fama de bom pagador, ao contrário de hoje. Por isso, muitos jogadores de nome optavam pela segurança que teriam no clube. Chegávamos a ter bichos de 5 ou 10 mil, que era bastante coisa na época. A cada 15 dias, o salário estava na conta.”

O entrosamento também foi um ponto forte na opinião de Dininho.

“O clube sempre mantinha a base de atletas pois dinheiro para segurar os jogadores. Com isso, havia um entrosamento muito grande. A diretoria também estava sempre buscando atletas jovens e de qualidade em times menores. Eu, por exemplo, cheguei do Mirassol em 98. Em 2000, chegamos na primeira divisão.”

A união do grupo também foi destacada por Adhemar, que contou que os jogadores costumavam chegar quase duas horas antes dos treinos.

“O grupo era muito fechado e unido. Conversamos que aquilo era uma oportunidade de ter destaque e aparecer para o mundo do futebol. Era um time de operários que se comprometia ao extremo. O treino costumava começar às três. A maioria dos atletas levava os filhos para a escola e já ia para o treino. Quem chegava mais tarde estava lá 13h30. Ficávamos quase duas horas conversando sobre o time, adversários, na academia ou batendo bola. Fazíamos por prazer, sem peso algum. Ao final do treino, jogadores que precisavam trabalhar fundamentos específicos também aproveitavam este tempo para isso. Os volantes treinavam viradas de jogo, comandados pelo Adãozinho, que não errava uma. Ele falava muito da bola no ponto futuro”, relembra o histórico atacante do Azulão.

Pedra no sapato dos grandes

“Quando o Cruzeiro foi campeão brasileiro em 2003 fazendo 100 pontos, o único time que eles não conseguiram vencer foi o São Caetano. Vencemos uma e empatamos outra contra eles”, relembra Adhemar.

Realmente, o Azulão era uma pedra no sapato dos times grandes. Especialmente os de São Paulo. Em levantamento exclusivo do Yahoo! Esportes, verificamos que, nos cinco anos de auge do clube, de 2000 à 2004, o Azulão teve ótimo aproveitamento contra os grandes da capital.

Quando disputou o Campeonato Brasileiro de 2000, o São Caetano tinha acabado de subir para a primeira divisão do Campeonato Paulista. Nas quartas de final da Copa João Havelange, ganhou do Palmeiras por 4x3 no Parque Antártica e empatou por 1x1 em casa, garantindo a classificação para as semifinais. No período analisado, o clube teve mais vitórias do que derrotas contra o Corinthians (seis vitórias e três derrotas) e São Paulo (quatro vitórias e duas derrotas). Contra o Tricolor, teve eliminação dos donos da casa em pleno Morumbi, pelo Paulistão de 2004.

Ao todo, pelo Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista, Torneio Rio-São Paulo, Libertadores e Copa Sul-Amerciana, o Azulão enfrentou os grandes de São Paulo 48 vezes, entre 2000 e 2004. Foram 20 vitórias, 13 empates e 15 derrotas.

Briga entre mecenas e presidente histórico

O clube sofreu com seguidas más administrações e passou a ter fama de mal pagador no mercado. Com isso, a contratação de bons jogadores ficou cada vez mais difícil. Por isso, Fabinho destaca que o principal objetivo do momento é deixar as contas em dia.

“Está difícil contratar hoje em dia com pouco dinheiro. Estamos trabalhando com os pés no chão com foco primeiramente em honrar os vencimentos. Contaremos com parcerias com empresários e ajuda de alguns clubes para adquirir atletas de qualidade. A meta é conseguir montar um time competitivo para o Paulista.”

Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia e grande investidor do clube, anunciou sua saída após desentendimento com Nairo Ferreira – presidente do São Caetano nos últimos 25 anos. No fim de 2019, o mandatário se afastou do clube a pedido do grupo de Klein, que ficou com o comando. No período de 11 meses, segundo Nairo em entrevista ao globoesporte.com, o clube atrasou salários de jogadores e funcionários por mais de seis meses e passou a dever também para fornecedores, bancos e imobiliárias.

O herdeiro se defende dizendo já ter investido milhões na agremiação e nunca ter pego um centavo de volta. Em depoimento à reportagem do UOL, seu único filho, Phillip Klein, afirmou que seu pai teria doado R$ 500 milhões ao São Caetano. Ele foi investidor do time desde a época de destaque no cenário nacional. Saul Klein afirma que os administradores lesaram o clube e aumentaram seus patrimônios, citando Nairo Ferreira e Genivaldo Leal, antigo diretor de futebol. As acusações são mútuas. O fato é que o São Caetano terá que se virar com as próprias pernas a partir de agora.

“Eles (Nairo e Saul) tiveram um desentendimento grande e o pessoal da gestão na época acabou se perdendo. O reflexo veio na Série D (o clube ficou em último no seu grupo e chegou a ser goleado por 9 a 0 para o Pelotas). Perdemos vários jogadores por não pagar impostos e salários. Não conseguimos segurar os problemas políticos do clube como fizemos na A2. Respingou na equipe e culminou nos resultados que tivemos”, afirma Fabinho.