Rumo à glória eterna de histórias improváveis

Mauro Beting
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Lucas Braga marca o terceiro gol contra o Boca na Vila Belmiro - Andre Penner Pool/Getty Images

Não é surpresa alguma os maiores campeões nacionais fazerem a terceira final entre brasileiros de uma Libertadores. O Santos em busca do tetra jamais será surpresa. O Palmeiras em busca do bi, também não.

O campeão da Copa Rio de 1951 dusputar a América no mesmo Maracanã, também não. O bicampeão da Libertadores em 1963 começou sua trajetória também por lá. Como foi no Mundial de 1962. Como seria bi mundial em 1963 também lá.

Mas quem realmente imaginava o Santos e o Palmeiras chegando à disputa máxima em 2020?

Lucas Braga estava com a mulher visitando a Bombonera. Dezembro de 2019. Tiraram uma foto ao lado de cartaz de Carlitos Tévez. Ela disse ao atacante que tinha acabado de ser contratado pela Inter de Limeira para o SP-20: "um dia você vai jogar aqui contra o Boca".

Ele riu. "Imagine! Eu jogando Libertadores na Bombonera?!"

Deu um ano certinho e ele estava jogando contra todo o cartaz de Tévez e empatando com o Boca que depois seria goleado na Vila pelo Santos de Cuca. E de Lucas Braga. Autor do último gol da brilhante semifinal alvinegra.

Torcedor santista por influência do avô João Braga Neto. Reprovado em muitas peneiras. Jogava na várzea até os 20 anos. Quando foi para o Paraná. O clube onde jogava fechou as portas. Ele rodou. Até parar no Santos. Clube do coração que um dia o levou a campo para entrar de mãos dadas com Robinho no gramado da Vila.

Mas Sampaoli não dava bola a ele em 2019. Não fardou. Foi pra Cuiabá. Pensou em largar tudo. Até o convite de Elano para jogar em Limeira. Pouco depois da visita a Buenos Aires. Um ano antes de voltar pra lá como titular do time do coração onde voltou em agosto de 2020 pela impossibilidade de contratações. E acabou virando um senhor reforço aos 24 anos. Classificando o time para a final do Maracanã.

Nem em sonho. Só no Santos.

Fluminense de Duque de Caxias, Pedro Acácio jogava no Canaã da Bahia na Copinha. De lá veio pro Sub-20 do Palmeiras. A terra prometida. Rápido ele foi relacionado para o banco contra o Sport, na Ilha, em um sábado de janeiro de 2021.

Vestiu a camisa 57 pela primeira vez do time do coração. A mesma que ele usou na terça-feira seguinte antes da classificação suada contra o River Plate. Não para jogar como tem atuado muito bem há um ano na base. Mas para torcer como tem feito há 18. Pedro Acácio vestiu a mesma 57 que usou no banco no Recife para receber o ônibus palmeirense no proibido corredor alviverde antes da volta na semifinal.

Quase na chegada ao Allianz Parque ele foi visto fazendo festa pelo seu time do coração e agora profissão. O Cartolouco Lucas Strabko, em reportagem do canal dele no YouTube, o entrevistou como se fosse mais um dos milhares de torcedores por ali. E ele é um dos milhões em todos os lugares.

Mas Pedro é um pouco mais. Menos de uma semana depois de bater palmas para o time dele em qualquer acepção, aos 44min37s de um 4 a 0 sobre o maior rival, Acácio substituiu outro palmeirense de berço - Raphael Veiga, de dois dois quatro gols no Dérbi.

Dezesseis segundos depois, Pedro Acácio recebeu a bola no grande círculo e fez lançamento de 20 metros, no terceiro toque na bola como profissional, para Breno Lopes. Aos 45 minutos redondos, o atacante fuzilou para marcar o quinto palmeirense - bem anulado pelo bandeira pelo impedimento de Breno.

Resumo da ópera: o menino de 18 anos que seis dias antes estava no meio da massa estreou em um Dérbi dando um lançamento de gol em 23 segundos como profissional.

Nem em sonho. Só no Palmeiras.

Lucas Braga vai pro decisão. Pedro Acácio, pra arquibancada.

Nem em sonho eles imaginariam um final de temporada assim.

Mas só eles?

Que santista imaginava tudo que Cuca construiu sem dinheiro e sem contratações? Que palmeirense imaginava tudo que Abel Ferreira (quem?) construiu sem tempo e sob pressão?

Nem em sonho.

Só na final da Libertadores de 2020.