Saída da Ford não foi surpresa e outras empresas podem deixar o Brasil, dizem especialistas

Luiz Anversa
·6 minuto de leitura
Workers of US automaker Ford attend a protest in front of the Ford manufacturing plant in Taubate, Sao Paulo state, Brazil on January 12, 2021. - Carmaker Ford said Monday losses exacerbated by the coronavirus epidemic would see it close its three factories in Brazil, where it has operated for a century, terminating some 5,000 jobs. (Photo by Claudio CAPUCHO / AFP) (Photo by CLAUDIO CAPUCHO/AFP via Getty Images)
Funcionários da fábrica de Taubaté (Foto: Getty Images)

Primeira montadora a chegar ao Brasil, em 1919, a Ford anunciou nesta semana que irá encerrar suas operações no país. Foi uma notícia de grande impacto. Só a fábrica de Camaçari, na Bahia, era responsável por 12 mil empregos - diretos e indiretos. A companhia norte-americana, porém, não vai abandonar o Brasil. O escritório permanecerá em São Paulo, assim como a pista de testes, localizada no interior do estado.

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Se para muitos a decisão causou surpresa e apreensão, para outros, podemos dizer, era “pedra cantada”. “A saída da Ford é algo que vem se desenhando desde antes da pandemia. Veja o caso do fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo. Para mim é um problema interno da empresa, que não se modernizou. As fábricas perderam em competitividade para as concorrentes, principalmente as asiáticas. Mas vale destacar que a Ford não fechou fábricas apenas aqui. Na Alemanha e Austrália unidades da montadora também foram encerradas", diz Juliana Inhasz, coordenador do curso de Economia do Insper.

A visão é compartilhada por Leonardo Trevisan, professor da ESPM. “O anúncio da Ford foi pautado em três coisas. A primeira foi o prejuízo que a empresa teve por aqui nos últimos 12 meses: R$ 108 milhões. O segundo ponto é que estamos apartados do mercado internacional. Estamos muito distantes das cadeias globais mais tecnológicas. E o último fator é que não temos nada de política industrial, principalmente na parte dos automóveis elétricos. Mas é claro que a Ford também perdeu terreno para outras marcas e isso ajudou nesse processo.”

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O cenário tumultuado para se fazer negócios também é apontado como um dos vilões para a saída da companhia norte-americana. A Ford vai concentrar a produção em suas fábricas na Argentina, Uruguai e México para suprir a demanda do mercado latino. Os países têm regimes tributários mais simples que o nosso, o que é um grande chamariz para a indústria. E isso acarreta em uma velha reclamação: dos produtos com baixo valor agregado produzidos por aqui.

“Nesse aspecto, existe sim um motivo para reclamação. O Brasil produz uma parcela ridiculamente pequena dos componentes de um carro. Isso torna o custo muito caro. E com essa taxa de câmbio sensível, o problema piora. A gente tem um ambiente de negócios péssimo. O governo muda a regra no meio do jogo. A forma como acontece não é racional. E não é só para a indústria de automóvel. Uma empresa que entra aqui no Brasil não sabe se as regras tributárias vão ser as mesmas daqui seis meses. Para quem vai investir bilhões no país, se a regra do jogo mudar, toda a projeção muda. As incertezas são grandes no Brasil. E aí as empresas certamente preferem um mercado com potencial menor, mas que você enxerga um horizonte”, analisa a coordenador do Insper.

Para Trevisan, da ESPM, a mudança no perfil do consumidor também ajuda a explicar o movimento da Ford. “A Ford não nos abandonou, foi uma escolha. Está se desaparecendo no horizonte um lucro na venda de carros de R$ 50 mil. Agora isso só acontece com automóveis de R$ 200 mil. E isso só deixa claro nossa brutal concentração de renda. É uma sequência de enganos. Deveríamos fazer um debate mais sério sobre nossos pecados”, provoca o professor, que completa: “Isso tudo tem a ver com câmbio, consumo da população e política industrial do governo. Em nenhum momento se discute competição da nossa indústria, produtividade e tecnologia. Mas aviso: o maior inimigo da indústria automobilística são as Big Techs, como Google e Amazon. O carro pretende ser como um celular no futuro próximo.”

Uma questão levantada nos últimos dias foi a respeito de um empréstimo de R$ 335 milhões que a empresa tem com o BNDES. Para os especialistas, pela história da Ford no Brasil e pelo seu tamanho global, um calote é uma hipótese praticamente impossível. “Espera-se que ela honre seus compromissos. Ela vai continuar comercializando carros, mas não produzir. Ela terá que pagar. Credores não têm culpa dos erros de projeção. Como ela vai pagar? Prazos podem se repensados, condições de empréstimos etc. Mas para encerrar as atividades dessas fábricas, eles terão que pagar impostos, trabalhadores, empréstimos", analisou Juliana Inhasz, do Insper.

“O BNDES tem um padrão internacional na hora de conceder empréstimos. Isso quer dizer que se exige uma maior quantidade de garantias. O banco que mais conseguiu recuperar dinheiro quando o Eike Batista quebrou foi o BNDES. A Ford deve ter dado garantias como prédios e títulos. O banco está bem guardado quanto a isso. A Ford não tem intenção de danificar sua marca no Brasil. E convenhamos: esse valor de empréstimo é um cafezinho paras as receitas globais da empresa. Só no ano passado eles fizeram um plano de 36 bilhões de dólares de redução de custos", diz o professor Trevisan.

O grande temor, a partir de agora, é que outras grandes montadoras possam repetir o caminho da Ford e deixar o Brasil. A Mercedes-Benz fez isso no final do ano passado ao encerrar as atividades da fábrica em Iracemápolis, no interior paulista, onde produzia os modelos Classe C e o utilitário GLA. Outras duas fábricas da empresa no país seguem ativas - a de São Bernardo do Campo, que produz caminhões e chassis de ônibus, e a de Juiz de Fora, que produz cabinas de caminhões.

“Outras empresas podem sair, claro, mas por motivos distintos daqueles da Ford, que era atrasada tecnologicamente em relação aos concorrentes. Podemos ver um movimento de saída por inadequação ao mercado local. A gente sabe que o Brasil não é um país que consome carros caros. A demanda aqui é por modelos mais baratos. Podemos ver montadoras de alto padrão vendo que o país não é o lugar para eles. Outras empresas podem ver que o público, demanda e custo de produção não é para elas. É um movimento natural. No início dos anos 2000 tinha quele ‘oba oba’ de consumo, incentivos e as empresas viram oportunidades. Agora, a concorrência é muito maior e estamos em retração. Logo, as empresas percebem que não é o lugar delas e saem. Não deveria escandalizar. O que deveria escandalizar é a nossa indústria que produz pouco e mal", critica Juliana Inhasz, coordenador do curso de Economia do Insper.

“Temos dois problemas: as alianças globais que as montadoras estão fazendo, como Fiat/Peugeot e GM/Honda, sendo que nesta última as duas pensam até em compartilhar a mesma base de produção em razão dos altos custos. O outro ponto é o tamanho do nosso mercado. No ano passado vendemos 2 milhões de carros até o terceiro trimestre. No México, esse número foi de quatro milhões e o país ainda faz fronteira com os EUA. A questão central é a expectativa. Se reduzirmos demais as expectativas de crescimento teremos dificuldades para oferecer atrativos para empresas sobre o nosso mercado consumidor”, conclui Leonardo Trevisan, professor da ESPM.

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