Saiba quem foi Justin Fashanu, o 1º jogador de futebol a se declarar gay

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Chegou o momento em que Brian Clough perdeu a paciência. Ele havia convencido a diretoria do Nottingham Forest a pagar 1 milhão de libras (R$ 7,5 milhões na cotação atual) em um atacante, uma fortuna para o início dos anos 1980.

O lendário técnico inglês dera a camisa 9 para o garoto de 19 anos. Mas Justin Fashanu, jogador que anos depois revelaria publicamente ser homossexual, não fazia gols.

"Se você quer comprar carne, vai ao açougue. Se quer pão, encontra na padaria. Então, por que vai a essas boates de pederastas?", irritou-se o técnico, após ouvir diversos relatos de que seu comandado frequentava boates gays da pequena Nottingham. Clough, então, decidiu mandá-lo treinar afastado dos outros atletas do elenco profissional.

Fashanu foi o primeiro nome de uma liga de expressão a declarar sua homossexualidade enquanto ainda era profissional. Isso aconteceu em 1990, aos 29 anos. Já estava em final de carreira por causa de persistente lesão no joelho. Por 100 mil libras esterlinas (R$ 750 mil pela cotação atual), ele vendeu a entrevista na qual falou sobre o assunto para o tabloide The Sun.

Na semana passada, o jogador australiano Josh Cavallo se declarou gay em uma postagem nas redes sociais. Detonou uma avalanche de mensagens de apoio no mundo da bola. Mas entre as ligas mais importantes do planeta, Fashanu continua caso único.

Ele morreu aos 37 anos, em 1998. Enforcou-se na garagem de sua casa. Era procurado pela polícia dos Estados Unidos como suspeito no caso de estupro de um adolescente. No dia anterior, telefonou para Eric Hall, o agente que havia intermediado suas conversas com o The Sun, e deixou uma mensagem. Assegurava ter nova história que poderia vender ao diário.

Sua explosão no futebol aconteceu em 1980, aos 18 anos, quando atuava pelo Norwich e fez um gol contra o Liverpool tão bonito que acabou eleito pela BBC o melhor da temporada. Foi o que o levou ao Nottingham Forest, então uma força europeia, bicampeão do torneio hoje chamado de Champions League, a contratá-lo.

"Clough não gosta de mim", confessou a amigos antes mesmo de ser afastado.

Estava certo. No livro "Provided You Don't Kiss Me" (sem lançamento no Brasil), o autor Duncan Hamilton sinaliza que a principal fonte de exasperação do treinador com seu atacante era a falta de gols, não o fato de ser gay. Foram apenas três pelo clube.

A vida de Justin Fashanu foi repleta de rejeições. Entregue para adoção aos quatro anos junto com o irmão mais novo, John, cresceu criado por uma família de classe média. Os dois eram os únicos negros no bairro.

Talentoso e forte fisicamente, encontrou-se no futebol. Mas ele tinha um problema em campo. Não sabia se impor, era introvertido demais. Nas palavras de jogadores que atuaram com ele, o atacante era simpático, carismático, muito educado, mas essas características não garantiam nada com a bola rolando.

Isso nunca foi problema para seu irmão. John faria muito mais sucesso no esporte. Seria em 1988 campeão da Copa da Inglaterra com o Wimbledon. Um elenco tão cheio de histórias inacreditáveis que ficou eternizado pelo apelido The Crazy Gang (A turma maluca, na tradução do inglês).

Em viagens já como profissional, Justin assustava os colegas de elenco. Tinha pesadelos aterradores. Dava socos, quebrava janelas, esmurrava paredes e gritava enquanto dormia. Também tinha de aguentar as ofensas dos torcedores adversários. Justin Fashanu era um prato cheio para torcedores racistas e homofóbicos dos anos 1980.

"Eu ouvi muitas coisas por ser negro. Mas as ofensas que Justin teve de suportar... Sinceramente, não sei se aguentaria", diz o lateral Viv Anderson, ex-companheiro de Fashanu no Forest.

Pouco depois de ser afastado no Forest, o Southampton se interessou pelo atacante. Foi uma bênção para ele e para Clough. Não deu certo. Liberado para o Notts County, sofreu pancada no joelho na primeira partida da temporada 1983/1984. Nunca mais foi o mesmo jogador. Peregrinou por outras equipes. Foi dispensado pelo Brighton, então na segunda divisão, em 1987, com o argumento de que não tinha mais condições físicas para ser jogador profissional.

Fez testes em outras cinco equipes. Foi reprovado em todos os exames médicos.

Enquanto ainda tentava voltar a jogar, o que conseguiu eventualmente, decidiu aceitar a oferta do The Sun para falar de sua sexualidade.

Não foi a única vez que recebeu dinheiro do diário, segundo seu irmão. A desconfiança de que Justin fabricava histórias para receber pagamentos fez vários amigos se afastarem, além de seu familiar, o que foi um baque para o jogador.

"Justin sempre está em busca de atenção. Quando questionei o motivo para vender histórias para jornais e envolver outras pessoas, ele me dizia que isso o colocaria de volta nas manchetes", queixou-se John. Ficaram sete anos sem conversar.

O atacante decidiu que precisava de um novo começo, e este apareceu no convite para emigrar para os Estados Unidos. Não jogaria mais, mas ensinaria futebol em Maryland, estado americano, em 1998.

Um dia, um garoto de 17 anos, identificado como DJ, foi até uma delegacia denunciar o ex-atacante. O jovem disse que foi a uma festa na casa de Fashanu e que este teria se aproveitado de seu estado alcoólico para manter relações sexuais com ele.

Uma dupla de policiais foi à casa de Justin, que estava tranquilo, segundo os relatos da época. Negou ter tido qualquer relação sexual com DJ. O professor deixou claro que não teria nenhum problema em passar pelo teste do polígrafo, aparelho que registra reações fisiológicas durante um interrogatório.

Justin foi questionado se era gay. Respondeu que não.

Ao voltar para a delegacia, o policial fez uma pesquisa sobre o nome de Fashanu. Descobriu que ele havia mentido sobre a sexualidade. Poucas horas depois, foi novamente à residência do suspeito. Não havia ninguém. Ele havia voltado para o Reino Unido. Poucos dias depois, o ex-jogador se matou.

Justin Fashanu deixou um bilhete em que afirmava acreditar ser impossível ter um julgamento justo nos Estados Unidos -na época, ser gay no estado de Maryland era considerado crime. Confirmou ter tido uma relação com o menor de idade, mas que essa havia sido consensual e que fora chantageado logo depois.

"Um dia antes de cometer o suicídio, ele me telefonou. Fiquei dizendo 'alô. Alô!', mas ninguém falava nada. Imaginei que poderia ser Justin, mas não tinha certeza. Pensei: 'ah, deve ser ele de novo...'. se recorda John, que depois virou apresentador de TV. Ele afirma ter se arrependido por não tentar entrar em contato com o irmão mais velho.

A história de Justin Fashanu virou livros, documentários e séries. E seu legado vem à tona nas raras vezes em que um jogador de futebol assume a homossexualidade, como aconteceu com Josh Cavallo.

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